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Vamos envelhecer e morrer. E então?
Opinião Sociedade 4 min. 21.07.2022
Andamos todos ao mesmo

Vamos envelhecer e morrer. E então?

Andamos todos ao mesmo

Vamos envelhecer e morrer. E então?

Foto: Reinaldo Rodrigues
Opinião Sociedade 4 min. 21.07.2022
Andamos todos ao mesmo

Vamos envelhecer e morrer. E então?

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
As costas vão doer (mais). Os olhos vão precisar de óculos. As doenças vão levar-nos alguns amigos. Os pais vão depender cada vez mais de nós. Os filhos vão depender cada vez menos. Mas mesmo que tenhamos menos dias pela frente do que os que deixámos para trás, temos ainda tanto, tanto por fazer.

O dia chegará. Não é uma coisa solene, uma data redonda, uma etapa ambicionada. Não é um marco esperado – muito menos desejado. É apenas uma constatação, ao somarmos uma série de pequenos acontecimentos. Até aí talvez nos queixemos. A partir daí aceitamos. Melhor ou pior, mas aceitamos.

O dia chegará em que lá perceberemos que estamos mesmo a ficar mais velhos – não porque já não nos conseguimos baixar como antes e temos mesmo de usar os joelhos para o fazer. Ou porque ficamos mais cansados quando corremos. Ou porque precisamos de usar lentes progressivas para ler melhor. Ou porque já não aguentamos a ressaca da mesma forma.

Não. O dia chegará em que juntamos tudo isto e apenas anuímos: é assim mesmo que vai ser. E aceitamos que, juntamente com as células que já não se regeneraram da mesma forma, também a pachorra para algumas coisas não é a mesma e a energia para quem não interessa irá diminuir.

Os anos vão passar e o tempo não vai parar. Os nossos pais vão depender cada vez mais de nós e os nossos filhos vão depender cada vez menos. Primeiro aprendem a ler, depois ficam altos, depois ficam parvos (maldita adolescência) e finalmente ficam independentes. Tal como aconteceu connosco. E alguns vão emigrar e só os vamos ver uma ou duas vezes por ano. A eles e aos netos. E sim, claro que vai custar e claro que vai doer. Mas nada podemos fazer para o evitar. Apenas dar-lhes as ferramentas para que eles se saiam bem.

O dia chegará em que vamos mesmo dizer aquilo que ouvíamos às pessoas de 40 e poucos anos quando achávamos que elas eram tão mais velhas do que nós. Talvez agora só o declaremos já perto dos 50, mas lá acabaremos a dizer “não me sinto com a idade que tenho”. Vamos dizer isso tudo e muito mais. As mulheres vão-se queixar das rugas, da pele no pescoço menos esticada, dos braços flácidos, da celulite nas pernas e no rabo, das mamas descaídas, do cabelo que já não é o mesmo. 

Os homens vão deixar de se queixar do ridículo cotão que lhes cresce no umbigo mas vão-se queixar mais dos estúpidos pelos que lhes crescem nas orelhas e do raio da barriga que agora já não desaparece com facilidade. Vão-se queixar de algumas ereções a menos e de algumas idas à casa de banho de noite a mais. Vão-se queixar porque ficam carecas, porque precisam de pôr os óculos para ver o telemóvel, porque já lhes custa apertar os sapatos.

O dia chegará em que nos vamos queixar muito das doenças. Das nossas e das dos outros. Vamos queixar-nos das dores terríveis nas costas que nos tiram qualidade de vida, vamos queixar-nos das perdas de memória que assustam muito, vamos queixar-nos das perdas de sangue que não conseguimos explicar – e os médicos também não –, vamos queixar-nos do colesterol que dispara e nos faz pensar que temos uma bomba-relógio no coração, vamos queixar-nos do monstro do cancro que nos vai levar alguns amigos ou pessoas na família – ou que nos vai cair no colo como um piano lançado lá do alto.

Uns vão-se separar, outros não. E o dia chegará em que os primeiros vão perceber que o divórcio foi a melhor opção – raramente se arrependem. E os segundos vão pensar que deviam ter feito o mesmo – e arrependem-se por não terem tido a coragem. Não tenho estatísticas, só conversas e bom senso, mas cada um saberá de si e todos queremos sempre brindar ao sucesso das histórias de amor. E se a nossa for uma dessas, tanto melhor. Seja com a pessoa com quem casámos aos 25 ou com aquela por quem nos apaixonámos aos 60. Ou a outra, aos 65.

O dia chegará em que nos vamos enganar a dizer a idade a alguém que pergunte ou ao escrevê-la num formulário qualquer. Não porque queiramos tirar dois anos à data real, mas apenas porque deixámos mesmo de contar.

O dia chegará em que tudo isto se vai juntar. E quando perceberemos, naturalmente, que temos menos dias de vida pela frente do que aqueles que já vivemos e deixámos para trás, tenho para mim que a coisa vai doer bastante... mas depois passa. Tudo passa. E é capaz de ficar mais fácil de digerir se pensarmos na quantidade de passos bons que já demos, na qualidade das pessoas boas que já conhecemos e nos momentos em que conseguimos deixar a vida dos outros um pouco melhor. E ficará mais fácil de digerir se pensarmos que os nossos filhos são pessoas em condições. E ficará mais fácil de digerir quando percebermos que temos ainda coisas para fazer e temos vontade e energia para as levar para a frente. E temos ainda muitos sítios bonitos e importantes para visitar. E temos ainda tanta gente para conhecer.

E se, nesse dia, percebermos que há pessoas a quem devemos pedir desculpa, percebermos que há outras a quem devemos um elogio, percebermos que temos assuntos mal resolvidos e precisamos da ajuda de um psicólogo para os resolver... se percebermos tudo isto na urgência da idade que aumenta e do tempo que diminui, então está tudo bem. E tudo o resto são efeitos secundários inevitáveis desta maturidade que conquistámos e desta experiência que acumulámos.

O dia chegará em que vamos acreditar que, mais do que termos envelhecido, foi muito bom termos crescido.

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