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Vamos descolonizar o FMI
Opinião Sociedade 5 min. 06.01.2021

Vamos descolonizar o FMI

Vamos descolonizar o FMI

Opinião Sociedade 5 min. 06.01.2021

Vamos descolonizar o FMI

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
De tempos a tempos, o sistema adopta slogans justos, dando-lhes uma roupagem sexy. “Descolonizar” é nova a menina dos olhos das grandes corporações. Uma crónica de Raquel Ribeiro

Uma professora catedrática no Reino Unido confessou-me que estava farta de ser chamada para comités e painéis de avaliação, porque sentia que a universidade não valorizava a sua opinião, mas tinha o dever legal de preencher a quota feminina. Como há poucas catedráticas, e por vezes é preciso tomar decisões de responsabilidade, era sempre ela a mulher de serviço. Adenda: o relatório da AdvanceHE no Reino Unido (2019) revela que 74.5% de catedráticos são homens e ganham em média mais 6.4% do que elas; se sairmos dos estratos superiores, a diferença aumenta para 11%; os contratos precários, a termo são maioritariamente femininos; e também elas estão em maioria nos contratos part-time e abandonam a carreira mais cedo.

Isto seria interessante se fosse uma crónica sobre quotas. Não é: é uma provocação sobre a forma como as instituições, no Estado mas também privadas, de pendor neoliberalizante mas com o fato polido da modernidade urbana, cooptam lutas sociais justas em relatórios de fachada arquivando potenciais reformas profundas. Se, por um lado se têm feito esforços consideráveis em trazer para muitas estruturas questões que hoje se chamam indentitárias mas que sempre foram de justiça social (paridade, discriminação racial, de género, de orientação sexual, etc), a verdade é que a proliferação de iniciativas supostamente inclusivas muitas vezes mais não é do que areia para os olhos que mantém o status quo das desigualdades.

O pay gap é demasiado boomer. O slogan da moda é descolonize-se – ou decolonize! Em alguns sectores (currículos, museus, pensamento crítico) esta conversa é fundamental e não há espaço, nesta crónica, para ela. Só que esta é uma conversa desagradável, desconfortável e de confronto com uma ordem estabelecida que está a ser desvirtuada pela mercantilização do termo: uma busca no twitter mostra já uma miríade de contas @decolonize-algo que proliferaram nos últimos anos.

Num artigo no Africa is a Country, Bhakti Shringarpure, professora na Universidade do Connecticut, editora da revista Warscapes, discutia a diferença entre descolonização “artificial” e “autêntica” a propósito da viralidade de #decolonize nas redes: “Os hashtags mais populares incluem #decolonizeyourdiet #decolonizebeauty, #decolonizetherapy, #decolonizefitness, #decolonizeyoursoul, #decolonizeparenting e #decolonizelove. Podemos rir-nos disto, mas também perceber alguma espécie de desespero. As pessoas estão fartas de racismo, sexismo, e de serem culturalmente ‘outras’. Há uma fadiga nas lutas diárias sobre saúde, beleza, comida, terapia, parentalidade, bem como aspectos de auto-cuidado e espiritualidade, e uma vontade genuína de ativar certos tipos de política”, diz.

Serão hashtaggers ou influencers o verdadeiro problema? Shringarpure diz que não: “São apenas um engodo, uma distração, um desvio. Podemos divertir-nos com isso, mas invista a sua energia em enfrentar os verdadeiros culpados: universidades gananciosas, plataformas megabilionárias que transmitem cultura nos nossos ecrãs, corporações sem vergonha e governos astutos que pretendem apresentar iniciativas progressistas. São eles que devemos ter como alvo, abolindo, desmantelando e, claro, descolonizando.”

Aqui começamos a discordar. Parecem-me ambas igualmente graves: as corporações, evidentemente, mas também os influencers porque esvaziam o conceito, mercantilizando-o. O capitalismo tem uma tendência para canibalizar as lutas do momento, tornando-as sexy, trendy, atribuindo-lhes um hashtag. Decolonize já está de tal maneira consumido pelo wellness que facilmente se esvaziam processos emancipatórios significativos de descolonização.

É precisamente porque o decolonize chegou aos influencers que as instituições perceberam que têm de tirar partido dele: elas apropriam-se do conceito, dando-lhe uma roupagem progressista, inaugurando websites, preparando webinars e workshops: e todos frequentámos aquele curso sobre discriminação de género para subirmos na carreira e mostrarmos que somos mais inclusivos. “Não há nada mais anti-revolucionário do que o ‘neoliberalismo de esquerda’, como já nos alertou Nancy Fraser. Na maior parte dos casos, ainda que possa gerar conflitos e trazer mudanças significativas na vida das pessoas, ‘mais direitos’ não constitui um problema sério para o capitalismo: conceder direitos evidencia a plasticidade de um sistema que precisa ser reformável para continuar se reproduzindo”, explica o filósofo Silvio Luiz de Almeida no prefácio à edição brasileira “A Armadilha da Identidade”, de Asad Haider.

Descolonizar um currículo não é só pôr lá mais mulheres, indígenas ou afro para preencher quota. Descolonizar um museu não é só explicar na placa da obra que veio de um saque colonial. Porque descolonizar significa um trabalho brutal de desmantelar um sistema de produção e de acumulação de capital, mas também de conhecimento. E esse é um trabalho de confronto com a própria ideia do que é o “nosso” conhecimento que muitos não estão dispostos a fazer.

O exemplo mais fascinante disto é a proposta de descolonizar o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Explicando como foram criados, precisamente, num contexto neo-colonial do pós-guerra, o antropólogo e economista Jason Hickel, especialista em desigualdade global, dizia na Al Jazeera que países do Sul Global têm pressionado o BM e o FMI para se democratizarem. Este seria uma oportunidade única: a ideia não é sequer desmantelá-los, mas reformá-los, torná-los “mais transparentes” no processo de liderança. Se fosse um chileno a liderar o BM as desigualdades globais seriam certamente menores. Como aliás se viu desde que uma mulher esteve ao leme do FMI.

Como perguntou pertinente uma designer especialista, lá está, em descolonizar a moda, na Teen Vogue para adolescentes: “Enquanto continuamos a questionar as nossas estruturas sociais, temos também de continuar a questionar-nos: estaremos lentamente a colonizar a descolonização?”

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)  

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