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Vítimas de abusos na Igreja do Grão-Ducado exigem investigação independente, como na Alemanha e em Portugal
Sociedade 7 min. 25.01.2022
Relatório

Vítimas de abusos na Igreja do Grão-Ducado exigem investigação independente, como na Alemanha e em Portugal

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Vítimas de abusos na Igreja do Grão-Ducado exigem investigação independente, como na Alemanha e em Portugal

Foto: AFP
Sociedade 7 min. 25.01.2022
Relatório

Vítimas de abusos na Igreja do Grão-Ducado exigem investigação independente, como na Alemanha e em Portugal

Paula DE FREITAS FERREIRA
Paula DE FREITAS FERREIRA
Até hoje, o Luxemburgo nunca investigou as circunstâncias em que aconteceram os abusos, nem quem teria conhecimento deles. A Igreja do Grão-Ducado disse que irá publicar o seu relatório de 2021 sobre abusos no início de março. Para as vítimas, isso não chega.

Não é a primeira bomba do género. O fenómeno da denúncia dos abusos sexuais cometidos por membros da Igreja Católica e silenciados durante décadas, começa a ganhar expressão pública nos anos 80 com os primeiros casos mediáticos nos EUA assim como com as reportagens Spotlight, publicadas em 2002. Em 2018, e depois de uma sucessão de escândalos envolvendo figuras proeminentes da Igreja Católica, o Papa Francisco chamou de urgência os bispos de todo o mundo para dar início a uma reforma interna.

O último relatório independente - já chamado de relatório Munique - tem quase 1.900 páginas e compila o que cinco advogados registaram sobre o que aconteceu em Munique e Freising entre os anos de 1945 e 2019. 

O relatório indica 497 vítimas de violência sexual e 235 alegados culpados. Ao longo de várias décadas, os crimes foram encobertos e os culpados transferidos  de lugar repetidamente. Em quatro casos, os especialistas notaram a má gestão da questão pelo então arcebispo Josef Ratzinger, o Papa emérito Bento XVI, que já veio a público tentar defender-se. O relatório afirma em vários pontos que o então cardeal e futuro Papa sabia e encobriu casos de abuso. As suas explcações atuais são, no mínimo, confusas. 

O escândalo também levou as vítimas no Luxemburgo a exigirem às autoridades luxemburguesas que criem uma instituição independente para investigar os abusos cometidos por membros da Igreja Católica no Grão-Ducado, tal como aconteceu em Munique e está em curso em Portugal através de uma investigação levada a cabo pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja.


Joseph Ratzinger é acusado de não ter agido quando devia para impedir os casos de abusos sexuais.
Bento XVI corrige relatório e revela que participou em reunião sobre padre pedófilo em 1980
O Papa emérito Bento XVI diz que "lamenta este erro e pede para ser perdoado".

A RTL relata o caso de Christian Faber, que foi abusado por um padre num colégio interno, no início dos anos 1970. Em 2019, a vítima partilhou pela primeira vez o que tinha acontecido e tudo ficou registado num relatório.

No entanto, Faber diz que ainda tem muitas dúvidas sobre a forma como a sua denúncia foi investigada e disse que gostaria que fosse feita uma investigação independente.

As vítimas podem entrar em contacto com a linha direta da diocese, mas Faber explica que muitas pessoas que o procuraram, após ter tornado público os abusos de que sofreu, admitiram que não o fariam. As vítimas querem um lugar neutro para relatar e esclarecer os factos. 

Até hoje, o Luxemburgo nunca investigou as circunstâncias em que aconteceram os abusos, nem quem teria conhecimento deles. 

A diocese do Grão-Ducado não quis dar uma entrevista àa RTL sobre o assunto, tendo apenas enviado um comunicado.  

"Não comentamos o relatório de Munique. Por um lado, ainda não tivemos tempo de analisá-lo ao pormenor. Por outro lado, o relatório tem que ser comentado por quem de direito. A Igreja do Luxemburgo publicará o seu relatório de 2021 sobre abusos no início de março", diz a nota. 

Segundo a RTL, poderá também estar a ser criada uma nova associação para as vítimas.


Igreja católica do Luxemburgo recebeu mais duas denúncias de abuso sexual de menores
A Arquidiocese do Luxemburgo revelou que duas pessoas denunciaram, em 2020, terem sofrido abusos sexuais em criança, por parte de elementos ligados à Igreja.

Daniel Sampaio e Laborinho Lúcio integram Comissão em Portugal

O psiquiatra Daniel Sampaio e o antigo ministro da Justiça Álvaro Laborinho Lúcio integram a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja, em Portugal, e que foi apresentada em dezembro de 2021.

“Em Portugal, nos últimos tempos e tal como em diversos países, registou-se uma saudável onda de indignação, movida pela procura de uma verdade histórica, sobre o que poderá ter acontecido a um número incontável de menores no campo dos abusos sexuais em diversos contextos da sociedade, em especial no seio da própria Igreja Católica”, disse o médico pedopsiquiatra na apresentação da Comissão.

E continuou: “É para isso que aqui estamos, neste momento, a dar início a um trabalho que naturalmente se prevê complexo, longo, difícil de definir quanto a resultados finais, mas que verdadeiramente teria que ser feito, mesmo que ainda assim venha a ser olhado como origem de outros que se lhe possam vir a seguir no futuro, procurando sempre a necessidade de reforço de verdadeiras políticas de proteção e promoção da infância e adolescência”. 


Comissão de estudo de abusos na Igreja. Daniel Sampaio e Laborinho Lúcio integram comissão
O psiquiatra Daniel Sampaio e o antigo ministro da Justiça Álvaro Laborinho Lúcio integram a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja, que foi esta quinta-feira apresentada.

Trilhar “um caminho de verdade, sem preconceitos nem encobrimentos” 

Apelando às vítimas “destes crimes hediondos” para que falem sobre os abusos que sofreram, Pedro Strecht vincou a “utilidade” da partilha desses casos para evitar repetições futuras, sem deixar de assegurar o “absoluto respeito e sigilo”, bem como o anonimato das vítimas. 

 “Não podemos mudar o passado, mas podemos sempre construir um futuro melhor e livre da repetição deste tipo de situação junto dos vossos filhos, netos ou simplesmente de todas as crianças e adolescentes em que certamente podemos rever partes de nós mesmos”, afirmou. 

De acordo com Pedro Strecht, o trabalho desta comissão independente vai decorrer ao longo de 2022, num espaço físico “descaracterizado” e “autónomo” da Igreja, estando prevista a apresentação de um relatório no final do próximo ano. 

Dar o testemunho "sem medo"

Se foi vítima de abuso sexual na Igreja dê o seu testemunho "sem medo" - é este o apelo feito pela Comissão. Já houve mais de 100 denúncias, algumas de emigrantes. O relato por telefone ou email pode reparar anos de "sofrimento silencioso".

Os relatos que já chegaram à comissão de especialistas, independente da Igreja Católica, revelam “décadas de um silêncio” doloroso. Testemunhos de “momentos de profunda dor e sofrimento", feitos por pessoas que foram “vítimas em criança”, com idades “entre os 30 e os 80 anos”, revelou à Lusa o coordenador desta comissão, Pedro Strecht. Esta denúncias chegaram de todo o país, mas também de cidadãos emigrados, refere este pedopsiquiatra. Pelo sofrimento contado, “parece existir predomínio de registos na zona norte e interior de Portugal continental”.

“As histórias de abuso e trauma ouvidas e/ou registadas contêm momentos de profunda dor e sofrimento e, claro está, décadas de silenciamento de cada pessoa, todos merecem a nossa profunda empatia e respeito”, sublinhou Pedro Strecht.


Igreja portuguesa vai investigar abusos sexuais a crianças
Uma resposta positiva ao apelo de 241 católicos no sentido de ser empreendida uma investigação independente sobre os abusos no seio da Igreja.

Crimes encaminhados para a justiça 

Álvaro Laborinho Lúcio, juiz conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça e ex-ministro da Justiça, é outro dos membros da comissão. Como realçou na apresentação da comissão, todos os testemunhos recebidos que possam ser enquadrados como denúncias de crimes ainda não prescritos serão “imediatamente encaminhados” para as autoridades competentes. 

“Nós vamos distinguir claramente denúncias de testemunhos. As denúncias não as vamos trabalhar, mas vamos imediatamente enviá-las para as instâncias competentes”, disse o juiz conselheiro, citado pela Lusa, e referindo que estão já estabelecidos canais de comunicação com as hierarquias superiores da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Judiciária. 

 “Não podemos mudar o passado, mas podemos sempre construir um futuro melhor e livre da repetição deste tipo de situação junto dos vossos filhos, netos ou simplesmente de todas as crianças e adolescentes em que certamente podemos rever partes de nós mesmos”, vinca Pedro Strecht na carta de intenções. 


Se foi vítima de abuso sexual na Igreja dê o seu testemunho "sem medo"
O apelo é feito por uma comissão que está a estudar estes abusos na Igreja Católica, em Portugal, desde 1950 até hoje. Já houve mais de 100 denúncias, algumas de emigrantes. O relato por telefone ou email pode reparar anos de "sofrimento silencioso".

Além dos testemunhos, o estudo inclui também muita pesquisa sobre os abusos pela Igreja desde 1950, a começar pela própria Igreja Católica, na comunicação social, das bases de dados de instituições várias na área da justiça, da área da saúde, como centros de saúde e hospitais, ou de entidades de apoio, como a Associação de Apoio à Vítima ou o Instituto da Criança. 

Em relação à Igreja, a comissão irá analisar os arquivos das dioceses que contenha processos de denúncia, quer sejam históricos, ou a documentação das comissões diocesanas de proteção de menores.



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