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UNICEF: 20 milhões de crianças sem vacinas contra sarampo, difteria e tétano em 2018
Sociedade 6 min. 15.07.2019

UNICEF: 20 milhões de crianças sem vacinas contra sarampo, difteria e tétano em 2018

UNICEF: 20 milhões de crianças sem vacinas contra sarampo, difteria e tétano em 2018

Foto: Shutterstock
Sociedade 6 min. 15.07.2019

UNICEF: 20 milhões de crianças sem vacinas contra sarampo, difteria e tétano em 2018

Bruno AMARAL DE CARVALHO
Bruno AMARAL DE CARVALHO
Quando crescem os movimentos antivacinas, a UNICEF avisa que a redução do número de pessoas vacinadas por opção ou por falta de acesso é responsável pela duplicação do número de casos de sarampo em 2018.

Vinte milhões de crianças em todo o mundo não foram vacinadas em 2018 contra doenças como sarampo, difteria e tétano, segundo a UNICEF, que alerta para a “perigosa estagnação” das taxas de vacinação por causa dos conflitos e da desigualdade. Em comunicado, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), citando dados também da Organização Mundial de Saúde (OMS), diz que globalmente a cobertura de vacinação com três doses de difteria, tétano e tosse convulsa e uma dose de vacina contra o sarampo estagnou por volta dos 86%.

Apesar de reconhecer que se trata de uma taxa de cobertura elevada, a UNICEF sublinha que “não é suficiente”, apontando para a necessidade de uma cobertura de 95% em todo o mundo para proteger contra surtos de doenças evitáveis por vacinação. "As vacinas são uma das nossas ferramentas mais importantes para prevenir surtos e manter o mundo seguro", alertou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, citado no comunicado.

O responsável sublinha que muitas crianças ainda não são vacinadas e recorda que, “muitas vezes, são os que estão em maior risco – os mais pobres, os mais marginalizados, os afetados por conflitos ou forçados a sair das suas casas - quem perde persistentemente”. A maioria das crianças não vacinadas vive nos países mais pobres e “está desproporcionalmente em estados problemáticos ou afetados por conflitos”, afirma a UNICEF, lembrando que quase metade está em apenas 16 países: Afeganistão, República Centro-Africana, Chade, República Democrática do Congo, Etiópia, Haiti, Iraque, Mali, Níger, Nigéria, Paquistão, Somália, Sudão do Sul, Sudão, Síria e Iémen. “Se estas crianças ficarem doentes, correm o risco de sofrer as consequências mais graves para a saúde e têm menor probabilidade de aceder a tratamentos e cuidados de saúde que salvam vidas”, frisa a organização. 

A UNICEF diz ainda que os surtos de sarampo “revelam lacunas na cobertura, inúmeras vezes ao longo de muitos anos” e que as grandes disparidades no acesso a vacinas “abrangem países de todos os níveis de rendimento”. “Tal resultou em surtos devastadores de sarampo em muitas partes do mundo – incluindo em países que têm elevadas taxas de vacinação em geral”, lembra. Em 2018, quase 350.000 casos de sarampo foram registados em todo o mundo, mais do dobro do que em 2017.

"O sarampo é um indicador, em tempo real, de onde temos mais trabalho a fazer para combater doenças evitáveis", alertou Henrietta Fore, diretora executiva da UNICEF. “Como o sarampo é muito contagioso, os surtos apontam para comunidades que não estão vacinadas devido a acesso, custos ou, em alguns locais, complacência”, acrescenta.

A Ucrânia lidera uma lista diversificada de países com a maior taxa de incidência de sarampo em 2018. Embora o país já tenha vacinado mais de 90% dos seus bebés, a cobertura foi baixa durante vários anos, deixando um grande número de crianças mais velhas e adultos em risco. Vários outros países com alta incidência e cobertura têm grupos significativos de pessoas que não foram vacinados contra o sarampo no passado, recorda a UNICEF, sublinhando que estes dados mostram “como a baixa cobertura ao longo do tempo ou comunidades distintas de pessoas não vacinadas podem desencadear surtos mortais”.

A organização chama ainda a atenção para a disponibilização, pela primeira vez, de dados de cobertura de vacinação contra o Vírus do Papiloma Humano (HPV), que protege as meninas contra o cancro do colo do útero na idade adulta. Desde de 2018, 90 países – onde vive uma em cada três meninas em todo o mundo – introduziram a vacina contra o HPV nos seus programas nacionais. Deste grupo, apenas 13 são países de baixos rendimentos. “Isto significa que os que correm maior risco de sofrer os impactos devastadores do cancro do colo do útero são os que têm menor probabilidade de ter acesso à vacina”, indica o comunicado.

Movimentos antivacinas responsáveis por doenças erradicadas

Em países como o Brasil, que tem uma política de vacinação que representa um dos maiores índices de cobertura do mundo, o futuro não é animador. Um levantamento publicado pelo Ministério da Saúde em junho do mês passado mostrou que sete das oito vacinas obrigatórias para crianças recém-nascidas não alcançaram a meta de 95% de cobertura no ano passado. Desde 2011 que o número de crianças vacinadas até dois anos tem vindo a cair drasticamente. É um dado preocupante que muitos atribuem à crescente onda de desconfiança em relação às vacinas. Doenças que tinham desaparecido estão a voltar.

O movimento antivacinas não é recente mas ganhou maior expressão com a internet. João Filho, jornalista do Intercept Brasil, afirmou num artigo publicado este domingo que “o conhecimento científico passou a ser contestado por qualquer youtuber eloquente, a eficácia das vacinas deixou de ser um fato e passou a ser uma questão de opinião”. Assim como outros factos postos em causa, como o terraplanismo e as alterações climáticas, “o movimento antivacinas tem encontrado guarida na extrema direita mundial. Ele virou parte do pacotão antissistema que agrada os extremistas”, sublinhou o jornalista.

Ao contrário do que afirmou o atual presidente dos Estados Unidos, em 2014, no Twitter não há qualquer caso de crianças que sejam autistas por causa da vacinação.

No início do ano passado, quando os Estados Unidos tiveram um surto de gripe que levou ao número recorde de 53 crianças mortas, uma pastora evangélica, conselheira de Donald Trump, aconselhou a população a não tomar qualquer vacina contra a gripe e sugeriu antes que se “vacinassem com a palavra de Deus”.

Os números do recente surto de sarampo também preocupam as autoridades que declararam no estado de Washington o estado de emergência depois de 37 casos, a maioria deles por falta de vacinação num país que tinha erradicado a doença em 2000.

Mas também a Europa assiste à queda dos números da vacinação acompanhada pela declaração de políticos antivacinas como Beppe Grillo, o dirigente do Movimento 5 Estrelas, o partido que governa Itália. Em 2015, o partido chegou a propor uma lei contra a vacinação, alegando que poderia causar “leucemia, imunodepressão, autismo, cancro, alergias e mutações genéticas hereditárias”.

Massimiliano Fedriga, o maior porta-voz do movimento antivacina de Itália, é também um dos principais dirigentes da Liga Norte, o partido de extrema-direita que faz parte do governo. Fedriga considerou a obrigatoriedade da vacinação do governo anterior uma medida “stalinista”. Em março deste ano, as crenças de Massimiliano foram esmagadas pela realidade. Ficou cinco dias internado com varicela e decidiu abandonar o ativismo antivacina.

Com Lusa

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