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Lei do Clima. Verdes contra, Liberais a favor
Opinião Sociedade 3 min. 29.06.2021
União Europeia

Lei do Clima. Verdes contra, Liberais a favor

União Europeia

Lei do Clima. Verdes contra, Liberais a favor

Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 29.06.2021
União Europeia

Lei do Clima. Verdes contra, Liberais a favor

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
A presidência portuguesa do Conselho da União Europeia termina dia 30 de junho e é um sucesso indiscutível; os membros do governo luso souberam fazer pontes e encontrar compromissos para chegar a objectivos ambiciosos.

Um trabalho político tão difícil quanto louvável que conseguiu avanços europeus em matérias diversas – saúde, impostos, agricultura. Precisamente a 30 de junho, último dia da Europa "conduzida" por Lisboa, é assinada a "lei das leis" (assim apelidada pela presidente da Comissão), verdadeira cereja no topo do bolo: a Lei Europeia do Clima.

O texto prevê que a Europa atinja a neutralidade climática no ano de 2050 – o primeiro continente no mundo a fazê-lo – e que comece a produzir emissões negativas depois dessa data. Crucialmente, estabelece também um corte de 55% nas emissões de gases com efeito de estufa até 2030; é nesta decisiva década que temos pela frente que se vai verdadeiramente jogar o futuro do planeta e o (in)sucesso no combate à crise climática. Esta legislação abre ainda a porta para as outras medidas, mais pormenorizadas, que vão completar o Pacto Ecológico Europeu – um pacote que colocará decididamente a UE na liderança mundial do combate às alterações climáticas e da defesa do ambiente. Tudo isto soa a uma grande vitória para os políticos responsáveis e sobretudo para as forças ecologistas, certo?

Errado. Para entrar em vigor, a Lei do Clima teve de ser aprovada no Parlamento Europeu e aí, na semana passada, os partidos políticos do centro e do centro-direita (sociais-democratas, liberais, democratas-cristãos), ou seja, aqueles mais amigos do big business votaram a favor. Já os verdes... votaram contra. O paradoxo tem uma explicação, e ela não é agradável.

Para limitar o aquecimento do planeta a "apenas" 1,5ºC – ou seja, manter os compromissos do Acordo de Paris –, 55% de redução nos próximos nove anos não chega: é preciso mais e mais rápido. E este valor inscrito de -55% nem sequer é muito confiável, pois não obriga todos os países por igual (os que não façam esforço suficiente podem ser compensados pelos outros) e porque, graças a alguns malabarismos de contagem, a verdadeira meta para 2030 andará nos -52%.


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Se estes números são demasiado abstractos para fazer entender que o que está em causa é a nossa sobrevivência, falemos de coisas concretas: ontem, uma aldeia no Canadá registou 46,1ºC – subindo o anterior recorde no país, que era de 1937, em mais de um grau centígrado. La Paz, capital da Bolívia, praticamente não tem água desde que os glaciares que a abasteciam derreteram para sempre. 

Uma lei do clima insuficiente é melhor do que nenhuma lei do clima?

A Cidade do Cabo espera a qualquer dia a chegada do "dia zero" – aquele em que a água já não sairá das torneiras. Na Austrália, entre seca e fogos selvagens, o preço da água é já tão alto que a agricultura se está a tornar inviável. Bem mais perto, a bacia mediterrânica está cada vez mais ressequida, com a decadência radical que isso significa. Os relatórios do IPCC, painel criado pela ONU para análise das alterações climáticas, são aterradores se continuarmos neste caminho de desastre: êxodo, fome e extinção em massa das espécies – incluindo a nossa.

Uma lei do clima insuficiente é melhor do que nenhuma lei do clima? Não, se aquela ceder aos formidáveis interesses das indústrias de combustíveis fósseis, não, se constituir uma boa oportunidade perdida. É que a Humanidade já está nos descontos, não pode dar-se ao luxo de atirar bolas ao poste.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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