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Uma ode ao "table for one"
Opinião Sociedade 5 min. 04.11.2020

Uma ode ao "table for one"

Uma ode ao "table for one"

Foto: AFP
Opinião Sociedade 5 min. 04.11.2020

Uma ode ao "table for one"

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Agora que toda a Europa se prepara para semi-confinamentos, mais ou menos forçados, e apesar de nos recomendarem recato também nos dizem que temos de continuar a consumir, talvez devamos adoptar mais vezes o "table for one". Uma crónica de Raquel Ribeiro.

Em Itália, pouco antes do "grande confinamento" de Março, li assim no Público: "Há vários dias que já não se pode beber café ao balcão, e as cadeiras foram desaparecendo dos cafés, ficando apenas uma cadeira por mesa." Tudo acabou por fechar. Mas pensei se a minha experiência de table for one – prática com alguns anos já, que me deu muito gozo, cadernos anotados, mas também dores de cabeça – poderia ser a solução para continuarmos a consumir em cafés e em restaurantes, restringindo ao máximo o contacto físico e, portanto, a transmissão de covid-19. Se a economia não fecha, nós também não nos fechamos, continuaremos (aqueles que podemos) a consumir em restaurantes, mas sozinhos, como se a nossa vida dependesse do prato do dia.

As primeiras experiências de table for one começaram quando estava em reportagem. Uma ou outra noite, jantar sozinha não fazia diferença – ainda que num restaurante continue a fazer diferença se uma mulher come sozinha ou não, e ainda mais diferença se almoça ou janta, ou se o restaurante é de topo ou popular: por vezes os empregados resmungam (já lá vamos), mas sobretudo é ainda raro ver mulheres sós a jantar.

Um table for one pode partir da urgência de experimentar um restaurante de requinte, com excelentes críticas, ou do hábito de comer sempre no mesmo boteco da esquina. Foi assim que, em reportagem nas autárquicas em Coimbra, adoptei o Zé Neto (ou dona Lúcia do Zé Neto me adoptou), e ali passei 15 dias batidos em tables for one numa cidade onde não conhecia absolutamente ninguém.

Tempos depois, a viver num escritório-quarto em St Peter’s College em Oxford, nasceram os Table for One, uma vez por semana, quando havia “high table” – aqueles jantares semanais com cinco pratos, três vinhos e tábua de queijos ingleses, e em que as pessoas vão de capa à Harry Potter. Não me podia juntar devido ao precário contrato – e não tinha capa!

Tive de arranjar mesa para mulher-só numa cidade elitista e preconceituosa como Oxford. Como os alunos circulam entre festas privadas ou clubes das associações estudantis, cujos edifícios tardo-medievais têm mais espaço para distanciamento físico do que todas as nossas casas, na vida social da cidade encontram-se sobretudo famílias ou casais. Foram meses interessantes, esses, de grande isolamento, em que o salário era péssimo, mas melhor do que ganhava como jornalista freelance num dos mais prestigiados jornais portugueses; não pagava renda; comprava livros em promoções de 3 por 2 da Blackwells, lia dois romances por semana, intercalando com literatura brasileira que leccionava; não tinha smartphone e dormia num pequeno colchão por cima do bar de estudantes que fechava à meia-noite, diariamente, com o Wonderwall dos Oasis. 

Mas tinha um caderno. Porque o Table for One revelou-se um proveitoso momento para escutar (e anotar) conversas das mesas vizinhas, política da época, cochichos, lamentos, discussões veladas, casais desavindos agarrados ao telefone, amigos amuados, turistas de passagem, Professors importantes queixando-se de Professors importantes: o microcosmos de Oxford esparramado à minha mesa. Às vezes era difícil convencer os empregados a não me sentarem naquela mesa com vista para as escadas, na corrente de ar da porta da copa, no recanto junto ao armário, em frente à parede. A ideia era fazer do Table for One um acontecimento. Para isso, era preciso estar disponível para ouvir.

Nem todos os restaurantes estão preparados para o table for one. Nem todos sabem servir um. Porque numa sala cheia de casais estamos expostos – somos uma mulher-só que o empregado empurrou para um cantinho junto ao barulhento aniversário numa pizzaria de domingo. Nem todos os restaurantes estão dispostos – até porque o table for one só consome uma refeição e a restauração sempre sonhou com sala cheia, a pessoa-só raramente tinha mesa disponível naquela sala absolutamente vazia. 

Mas há restaurantes que sabem: um amigo dizia-me que o Galeto, em Lisboa, é bem capaz de ser um table for one por excelência. Não é só aquele balcão-bar-lagartixa que nos coloca de frente para alguém sozinho, mas nunca diretamente em frente a alguém sozinho. Os empregados também estão preparados para servir pessoas-só: "Sabem ler os sinais de recolhimento ou de expansão, podendo no primeiro caso ir trocando os copos de cerveja sem sequer nos dirigirem a palavra e, no segundo, fazer um comentário na mediania social, sem nunca cair na vulgaridade."

As crónicas, online e no caderno, cresceram. Amigos enviavam-me artigos sobre a arte de comer só – como aquele lugar no Japão que senta peluches gigantes à mesa para nos acompanharem enquanto sorvemos noddles. Um dia, a Catarina Homem Marques entrevistou-me para o Observador num artigo sobre mulheres independentes. Um leitor atento comentou de forma que hoje – em que encorajo o table for one como possível solução para a restauração em tempos de covid – reproduzo não sem uma ironia: "Esta incapacidade de apreciar as alegrias da partilha é uma espécie de machismo sem tomates." Na altura, brinquei que o table for one daria uma espécie de "O Sexo e a Cidade" sem sexo. Nunca pensei é que se pudesse tornar regra, mais do que exceção. Uma solução para evitarmos o contágio, porque afinal o perigo (já?) não é contaminarmo-nos de solidão.

Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.      

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