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Um Natal sem presentes nem aquecimento
Opinião Sociedade 3 min. 26.10.2021
Crise na Europa

Um Natal sem presentes nem aquecimento

Crise na Europa

Um Natal sem presentes nem aquecimento

Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 26.10.2021
Crise na Europa

Um Natal sem presentes nem aquecimento

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Para a Europa este poderá tornar-se o segundo Natal estranho consecutivo (...) tons mais bíblicos, com menos consumismo, menos presentes, menos comida e menos aquecimento.

Imagens recentes do Reino Unido. Em uma delas há uma luta por um lugar na fila do racionamento de gasolina. Na outra, prateleiras de supermercado estão desoladoramente vazias, à excepção do cartaz que diz “lamentamos pelo incómodo”. Emmanuel Macron e Angela Merkel olham para as fotos e riem às gargalhadas enquanto partilham um balde enorme de pipocas.

É um meme, claro, e isso é fácil de perceber, até porque Merkel e Macron não gostam de pipocas. Mas as gargalhadas são realistas. Com a sucessão de notícias em como as coisas andam a correr mal na terra do Brexit, toda a Europa levou uma injecção de schadenfreude, talvez a melhor contribuição da língua alemã para o léxico universal – significa o prazer envergonhado que retiramos da desgraça dos outros. E se esses outros nos acabam de deixar depois de espalharem um chorrilho de mentiras sobre nós, então...

Para cada uma das mentiras que conduziram a este desastre há um inescapável choque com a realidade. “A comida será mais barata”, dizia um ministro britânico, e os preços aumentam a um ritmo quase diário, a inflação bate recordes de décadas (está em 3,2%), e muitos agricultores têm de deitar fora alimentos porque não encontram mão-de-obra para as colheitas ou os abates. “Vamos retomar o controlo das nossas pescas”, e o sector colapsa porque perdeu os seus maiores mercados e os exportadores deslocalizaram-se para a UE. 

“As taxas exorbitantes de roaming não vão voltar”, assegurava o governo, e já todos os operadores cobram 3 euros por dia quando o utilizador passa uma fronteira. “Vamos financiar o Serviço Nacional de Saúde com o dinheiro que pagávamos à Europa”, proclamava o famigerado autocarro, e os impostos acabam de aumentar para o maior nível desde a II guerra com o pretexto de financiar o SNS. “Acordos comerciais fáceis e vantajosos”, e até agora não foi assinado nenhum, nem sequer com o amigo americano, que tem coisas mais importantes em que pensar.

Para cada uma das mentiras que conduziram ao desastre do Brexit, há um inescapável choque com a realidade.

Falta combustível e gás para aquecimento e cozinha. Falta carne. E sardinhas. E vinho tinto. E café descafeinado, lâmpadas, plantas, bolas de ténis, Playstations 5, cobertores, etc. As prateleiras desprovidas de produtos fazem lembrar as lojas da Hungria ou da URSS antes da queda do Muro – uma grande ironia na neoliberal Inglaterra. A paciência das pessoas está a ser testada ao limite, e a desilusão é obviamente grande: as sondagens indicam que o apoio ao Brexit caiu a pique e, se o voto se realizasse hoje, o “Permanecer” ganharia de forma folgada. Muitos continuam a acalentar a esperança de que seja possível atingir um momento-charneira, algo de tão grave que desperte uma realização colectiva em como o lugar do Reino Unido é na Europa e que leve um novo governo a reaproximar o país da UE.

Lamento (porque adoraria que assim fosse), mas o mundo sensato, pragmático e idealista onde isso pudesse acontecer não existe. Os conservadores continuam a liderar confortavelmente as sondagens; o arrependimento de quem votou Brexit vai mais facilmente levar à raiva e ao apoio para movimentos cada vez mais extremistas. O lado europeu também não tem rosas para apresentar: a pandemia continua, os preços da energia são exorbitantes (e o gás de inverno não nos está garantido), e também é impossível encontrar à venda um grande número de artigos. Para a Europa – toda o continente, incluindo o Reino Unido – este poderá tornar-se o segundo Natal estranho consecutivo – mas desta vez com tons mais bíblicos, com menos consumismo, menos presentes, menos comida e menos aquecimento.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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