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Um espectro assola a Europa
Opinião Sociedade 3 min. 25.05.2021

Um espectro assola a Europa

Mulher com um cartaz que diz "Onde está Roman (Protasevich)?!" na zona de chegadas do aeroporto de Vilnius, o destino inicial do voo da Ryanair. O avião da companhia low-cost foi forçado pelas autoridades biolerrussas a aterrar em Minsk para a detenção de um opositor ao regime de Lukashenko.

Um espectro assola a Europa

Mulher com um cartaz que diz "Onde está Roman (Protasevich)?!" na zona de chegadas do aeroporto de Vilnius, o destino inicial do voo da Ryanair. O avião da companhia low-cost foi forçado pelas autoridades biolerrussas a aterrar em Minsk para a detenção de um opositor ao regime de Lukashenko.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 25.05.2021

Um espectro assola a Europa

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Para usar a famosa frase: há um espectro a assolar a Europa. Desta vez ele chama-se Vladimir Putin.

O "Comboio da Literatura" chegou finalmente a Minsk e o primeiro impacto recebido pelos passageiros recém-chegados não foi positivo: tudo ali parece cinzento, das ruas até ao céu. E como estes viajantes são escritores, rapidamente aplicam as metáforas cinzentas ao próprio país, oprimido pelo autocrata Aleksandr Lukashenko, reduzido a uma espécie de museu ao ar livre da extinta União Soviética, financiado através de uma "linha de crédito" concedida pelo regime de Putin. 

Entre os escritores discutem-se as perseguições e prisões políticas e corre o rumor de uma revolução iminente para derrubar o homem-forte do país. Um membro da oposição, afirmando-se partidário "dos valores e da unidade europeia que acabarão por prevalecer aqui", anuncia aos estrangeiros o boicote das próximas eleições para o "pseudo-parlamento"– um órgão decorativo, pois a Constituição foi alterada para dar quase todos os poderes ao presidente e permitindo-lhe concorrer indefinidamente à sua reeleição.

O boicote não funcionou, a revolução iminente nunca chegou, os valores europeus não prevaleceram ali.

O parágrafo anterior não é surpreendente. Bom, talvez um pormenor seja fora do comum: tudo o que está escrito acima aconteceu há mais de duas décadas. A iniciativa cultural de juntar 105 escritores de 43 países diferentes e pô-los a percorrer a Europa de comboio, recriando o percurso do mítico Expresso Sul-Norte, partindo de Santa Apolónia em Lisboa e passando por Paris, Bruxelas, Dortmund ou Varsóvia, aconteceu no verão... do ano 2000. A Bielorrússia já era um país sufocado. Lukashenko já era o ditador que perseguia e emprisionava. Putin tinha acabado de chegar a presidente da Rússia. O boicote não funcionou, a revolução iminente nunca chegou, os valores europeus não prevaleceram.

Vinte e um anos e seis eleições falseadas mais tarde, a caça aos dissidentes continua ao rubro e Lukashenko está tão confiante na firmeza do seu trono que acaba de desencadear um golpe sem precedentes para silenciar mais um, Roman Protasevich (26 anos). De facto, não está ao alcance de todos enviar um caça Mig29, de fabricação russa, para obrigar um voo comercial da Ryanair a desviar e aterrar abruptamente em território bielorrusso. Que me lembre, tal pirataria aérea de Estado só tinha acontecido uma vez antes e não envolveu civis (foi quando os EUA, pensando que iriam assim apanhar um dos seus dissidentes – Edward Snowden –, obrigaram o avião que transportava o presidente da Bolívia a aterrar de emergência em Viena).


Líderes europeus aprovam sanções duras à Bielorrússia
Cimeira com telemóveis fora da sala por motivos de segurança e exigência que Pratasevich e namorada sejam libertados imediatamente.

Recapitulemos. Um Estado totalitário ataca de forma ilegal e perigosa, provocando um ataque de pânico a bordo, um avião que ligava Atenas a Vilnius, pertencente a uma transportadora aérea sedeada na Irlanda, transportando 177 passageiros e tripulação que eram na sua maioria lituanos, letões e gregos de férias, e tudo para conseguir prender um opositor político residente na Polónia; todos estes países pertencem à UE. Significa este ataque directo que o inefável Lukashenko, e sobretudo o seu tutor em Moscovo, se consideram suficientemente fortes para cuspir na cara da Europa; ninguém imagina que o mesmo golpe a acontecer com um avião pertencente à United e, cheio de americanos, fazendo a ligação entre Boston e Los Angeles...

Enquanto escrevo, os europeus acabam de aprovar novas sanções económicas ao regime bielorrusso (já estavam várias em vigor), exigindo também a libertação imediata de Protasevich; está correcto, mas é insuficiente. Os autocratas a Leste só entendem a linguagem do hard power, que não sabemos nem queremos falar, e logo cresce o dilema em como lidar com as suas contínuas provocações. Para usar a famosa frase: há um espectro a assolar a Europa. Desta vez ele chama-se Vladimir Putin.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).


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