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De Itália para o Luxemburgo. Um convite no Facebook transformou-a numa escrava
Sociedade 9 min. 01.07.2022
Tráfico humano

De Itália para o Luxemburgo. Um convite no Facebook transformou-a numa escrava

Tráfico humano

De Itália para o Luxemburgo. Um convite no Facebook transformou-a numa escrava

Foto: António Pires
Sociedade 9 min. 01.07.2022
Tráfico humano

De Itália para o Luxemburgo. Um convite no Facebook transformou-a numa escrava

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Uma oferta de trabalho no Luxemburgo, feita na rede social, acabou por revelar-se um pesadelo. Durante três meses, Vitória esteve nas mãos de uma rede de tráfico humano. O caso está a aguardar julgamento.

Se as suas iguarias brasileiras não tivessem tão bom aspeto nas imagens que publicou no Facebook, talvez a sua vida não se tivesse transformado num inferno. Estava em Itália há dez anos, em 2017, trabalhava como cozinheira e vivia em casa da sua filha, com “tudo certinho”.

Vitória foi o nome que escolheu para não denunciar a sua identidade por razões de segurança e porque diz que a “sua vida é uma vitória”.

O seu inferno começou quando recebeu uma oferta de uma mulher brasileira, através do Facebook para vir trabalhar para o Luxemburgo a ganhar “o dobro que ganhava na altura em Itália”. “Ofereceu-me 3000 euros, mais casa para trabalhar como cozinheira”, conta Vitória. Tinha gostado das imagens das receitas que publicou na rede social e queria que viesse trabalhar para o restaurante brasileiro “Tucano”, em Diekirch, que ia abrir em breve. 

A promessa incluía “trazer mais dois familiares para virem trabalhar no novo restaurante com o mesmo salário”. Nada fazia desconfiar que havia uma grande mentira por trás da proposta. “Enviava-me fotografias de outras funcionárias brasileiras que já trabalhavam no restaurante, das bailarinas que iam trabalhar no balcão e dizia que ia abrir o restaurante com um sócio italiano e que me mandava passagem de avião e que quando chegasse no Luxemburgo teria uma casa. Quem não quer melhorar?”, pergunta Vitória então na sua ingenuidade.

“Transferiram o dinheiro para pagar o bilhete de camioneta”, um deslize que mais tarde permitiu que esta rede de tráfico humano fosse apanhada pela Polícia Judiciária. “Depois de 28 horas de viagem numa camionete”, quando chegou ao Luxemburgo a sua vida transformou-se num pesadelo.

Para tomar banho tinha um ralo na cozinha e jogava água no corpo.

Vitória

Uma brasileira e um brasileiro foram esperá-la e levaram para casa dessa mulher que tinha feito o convite. “Sem sequer poder tomar um banho trouxe-me para o restaurante onde estava a sócio italiano que começou por me tratar muito bem e que me disse que até o restaurante estar pronto para a inauguração ia trabalhar na cozinha italiana com outra cozinheira e um pizzaiolo. Quando chegou a noite perguntei 'onde vou ficar?', 'Por agora fica mesmo no restaurante', foi a resposta”. Acabou a dormir numa poltrona todas as noites, onde só cabia o seu tronco. Para tomar banho tinha um ralo na cozinha e “jogava água no corpo”. “Estive 16 dias trancada ali dentro”, conta Vitória com a voz revoltada. “O homem estava cada vez mais agressivo e no quinto dia me jogou um prato na cozinha”, conta. Já tinham passado cinco dias quando apareceu um grupo de brasileiros , com uma mulher, a pedir para reservar “uma mesa para 15 a 20 pessoas, com comida brasileira”.

“Foi uma grande festa com as bailarinas dançando, que depois descobri que também estavam sendo enganadas e eram clandestinas”, sublinha.

Nessa altura já lhe tinham pedido os documentos para fazer um contrato de trabalho. Documento que lhe foi entregue no dia em que a mandaram embora e que segundo a polícia era um contrato falso, porque não era registado. No dia em que mandaram Vitória embora, o italiano disse-lhe que se ela quisesse já tinha um outro restaurante para trabalhar. “Dos 16 dias escravizada ali dentro me deu o que quis, cerca de 400 euros”.


As mulheres que o paraíso maltrata
São vítimas de violência doméstica, trabalhos forçados, exploração sexual. Denunciaram os abusos que sofreram às autoridades, mas sentiram que o sistema luxemburguês as abandonou. Estas são histórias que não deveríamos ter de contar.

“Fui vendida a uma segunda brasileira”

“A polícia acha que essa brasileira que me trouxe me vendeu à segunda brasileira”, conta Vitória. Essa segunda mulher “levou-me para casa dela e disse para eu descansar porque estava mal dormida e mal tomava banho”. No terceiro dia ela disse: “A festa acabou, vamos para onde você vai trabalhar!”, relata a brasileira. E começou a segunda fase do pesadelo.

“Trabalhava 21 horas por dia, com gritos e humilhações e o marido dela tentou violar-me. Porque fui colocada no terceiro andar onde dormia só eu e ele. Era uma tortura todos os dias. Carregar pesos três andares, limpar tudo, fazer comida para todos. Umas vezes me davam comida, outras vezes não”. Depois “obrigavam-me a beber junto com os clientes para fazer dinheiro e eu fui ficando cada vez mais perturbada”. “Diziam-me para eu deixar os clientes passarem-me a mão e para eu deitar com o patrão”, descreve Vitória, que respondia: “Só se me matarem!”. Ameaçou várias vezes ir à polícia fazer queixa. A resposta eram ameaças cada vez mais violentas: “Não me desafie! Você até pode sair do café, mas não vai sair do Luxemburgo!”, respondia a dona do café. A situação piorava de hora para hora.

Até que um dia decidiu acabar com tudo. Nesse dia tinham chegado duas brasileiras e uma angolana para trabalhar no café. “Vou fugir hoje. Vocês querem vir comigo?”, perguntou-lhes Vitória. “Cerca da uma da manhã fugimos pela porta dos fundos”, relata. Parecia uma cena de filme de terror.

Trabalhava 21 horas por dia, com gritos e humilhações e o marido dela tentou violar-me.

Vitória

“Os dois sócios vieram atrás de mim”, conta. Lembra-se que estava com uma camisola com botões e o italiano conseguiu agarrar na sua blusa. Conseguiu soltar-se a custo e acabou por ficar só de soutien. A sorte foi que estava a decorrer uma quermesse na igreja de Diekirch perto do café e uns jovens portugueses que estavam a participar ajudaram-na. Chegaram a dar-lhe uma camisa para vestir. Em oito minutos, chegou a polícia e os agressores refugiaram-se no café, que de repente ficou todo escuro e eles desapareceram. 

Dias antes já tinha ido fazer queixa a polícia, mas não teve sorte. "Disseram-me que era tudo mentira e para eu voltar para o trabalho”. Mas desta segunda vez a polícia registou a ocorrência. Vitória fugiu e correu sem destino. Na manhã seguinte percebeu que estava a andar em círculos e que tinha dormido num banco de jardim a cem metros do café onde tinha vivido os piores 16 dias da sua vida. Resolveu ligar a um cliente do café que lhe tinha dado o número de telefone. Acabou refugiada em casa de um amigo dele. O pesadelo parecia ter acabado.

“No dia seguinte o meu telefone tocou e disseram que era da polícia judiciária e que queriam falar comigo”, relata. Do outro lado da linha tinha uma tradutora que explicou que eram da polícia judiciária e tinham recebido a queixa que tinha feito na madrugada na polícia de Diekirch e que iam encontrar-se com ela onde quisesse. Desconfiada marcou em encontro na Gare e quando chegou encontrou um polícia à paisana, achou estranho e desconfiou mesmo quando o polícia lhe mostrou o distintivo. Só foi para a esquadra quando lhe trouxeram um carro da polícia judiciária.

Pode finalmente respirar de alívio e contar a sua história. “Fui muito bem recebida, até tinha um psicólogo. Não acreditava que tinha tanta gente para me ajudar, que eu só sabia era chorar”, relata.

A polícia deu-lhe a opção: ou regressava a casa com uma passagem de avião paga ou ficava no Luxemburgo para denunciar o caso. “Porque a polícia já suspeitava daquela rede, estão há mais de 20 anos no país, mas como não tinham qualquer denúncia não podiam fazer nada. Sem vítima não há crime”, afirma Vitória. Porque todas as outras vítimas eram ameaçadas: “Se abrirem a boca nós sabemos onde está a sua família e acabamos com ela”, diziam para impedir qualquer queixa.

Sem medo, Vitória decidiu que era a hora de fazer alguma coisa para acabar com aquela rede de tráfico humano e decidiu apresentar queixa. Vitória foi colocada numa casa de acolhimento secreta onde esteve durante um ano. Mas durante muito tempo recebeu ameaças de morte pelo telefone. “Chegaram a dizer que iam atirar-me ácido na cara”, recorda assustada.

Muitas das vítimas não denunciam por medo, porque são ameaçadas diariamente.

Dayana da Silva, Revibra Europa

Dez dias depois de ter chegado ao seu refúgio caiu na asneira de procurar o amigo que a tinha recebido, perto do café onde tinha vivido o inferno e só se lembra de ter sido atropelada. Desconfia que foi uma tentativa de a calar para sempre. Acabou por ter que ser operada. Mas antes já tinham tentado agarrá-la pelo pescoço um dia que passeava nas ruas da cidade perto do café, mas nessa altura conseguiu fugir. Nunca mais se sentiu segura e quando anda na rua tem sempre muito cuidado. O trabalho escravo pelo que passou deixou sequelas para toda a vida e tem que tomar morfina para suportar as dores.

Depois foi colocada num outro espaço onde está até agora. “Fui muito bem recebida”, relata, afirmando que sempre teve o apoio de assistentes sociais e apoio financeiro. O café onde passou o calvário foi fechado.

Neste momento a polícia judiciária está a investigar o que consideram ser uma rede de tráfico humano. O caso deve ir em breve a tribunal para julgamento. Há mais de três anos que aguarda o desfecho do caso.

Casos como estes “são cada vez mais comuns”

Dayana da Silva, da Rede de apoio às Vítimas Brasileiras de Violência Doméstica (Revibra Europa).
Dayana da Silva, da Rede de apoio às Vítimas Brasileiras de Violência Doméstica (Revibra Europa).
Foto: António Pires

Vitória deixou um conselho a todos: “Nunca aceitem propostas de trabalho que apareçam no Facebook, sem ter ninguém que comprove que são verdadeiras. Nunca caiam nessa de pensar que vão para o Luxemburgo, que é o melhor país do mundo, e que vão ficar ricos e ganhar muito dinheiro, porque é um engano”, denuncia. “Conheci muitos outros casos como o meu, mas que não apresentam queixa por medo das represálias”, afirma.

O caso de Vitória está a ser acompanhado por Dayana da Silva, da Rede de apoio às Vítimas Brasileiras de Violência Doméstica (Revibra Europa) que relata que existem muitos outros casos que nunca chegam ao conhecimento da polícia. “Muitas das vítimas não denunciam por medo, porque são ameaçadas diariamente e muitas vezes nem sequer têm o passaporte com elas”, relata. Muitas vezes chegam ao Luxemburgo com “promessas de salários muito altos e caiem numa teia, porque não conhecem ninguém aqui e não sabem para onde fugir”, acrescenta Dayana da Silva. “São histórias que vamos encontrando no caminho e que são cada vez mais comuns. Todos os dias recebemos denúncias”, conclui.

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