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Tudo o que sempre quis saber sobre a OnlyFans mas que nunca teve a coragem de perguntar
Sociedade 7 min. 10.10.2021
Pornografia

Tudo o que sempre quis saber sobre a OnlyFans mas que nunca teve a coragem de perguntar

"Vi-me desempregada e pensei: porque não experimentar o OnlyFans?", diz Filipa Santos.
Pornografia

Tudo o que sempre quis saber sobre a OnlyFans mas que nunca teve a coragem de perguntar

"Vi-me desempregada e pensei: porque não experimentar o OnlyFans?", diz Filipa Santos.
Foto: DR
Sociedade 7 min. 10.10.2021
Pornografia

Tudo o que sempre quis saber sobre a OnlyFans mas que nunca teve a coragem de perguntar

Regina NOGUEIRA FERNANDES
Regina NOGUEIRA FERNANDES
É uma plataforma muito popular entre os trabalhadores do sexo. Mas enfrenta uma série de controvérsias.

Todos os meses, centenas de homens pagam a Filipa pelos conteúdos que produz: vídeos "sensuais", como lhes chama, sozinha ou acompanhada. Filipa Santos é uma das muitas pessoas que aderiram ao OnlyFans, onde os "fãs" pagam uma subscrição mensal, entre 5 e 50 dólares (cerca de 4,32 e 43,20 euros), para terem acesso a material que seria demasiado picante para outras redes sociais.

"Durante a pandemia, vi-me desempregada. Na altura, havia muita miúda a publicitar o OnlyFans e pensei 'está a ter tanto sucesso, porque é que não hei-de experimentar?'", diz Filipa ao Contacto.

O OnlyFans ganhou popularidade com a chegada da Covid-19, com mais gente a passar tempo online e à procura de uma nova forma de rendimento. Entre Março e Abril de 2020, a plataforma viu um aumento de 75% nas inscrições, ou seja, uma média de 200 mil novos utilizadores todos os dias.

"Já não vivo sem isto. (...) Paga-me um salário todos os meses"

Filipa Santos, membro da plataforma OnlyFans.

A plataforma paga diretamente aos criadores pelo conteúdo que produzem. Ficam com 80% dos lucros. A plataforma leva os outros 20% – uma comissão significativamente menor do que muitos serviços semelhantes, online ou offline. "Já não vivo sem isto", conta, "Paga-me um salário todos os meses".

"Vi-me desempregada e pensei: porque não experimentar o OnlyFans?", diz Filipa Santos.
"Vi-me desempregada e pensei: porque não experimentar o OnlyFans?", diz Filipa Santos.
Foto: DR

Para além do dinheiro que faz com as subscrições mensais, Filipa oferece também outros serviços como videochamada, mensagens diretas ou pedidos especiais. "Posso tirar uma fotografia com o nome do cliente escrito no meu corpo nu, por exemplo".

Ainda assim, o OnlyFans "não chega para tudo", explica Filipa. Combina a conta no site com outros serviços que oferece noutras plataformas, como o Twitter, onde tem mais de 11 mil seguidores.

A internet e a revolução na indústria da pornografia

O tempo e o dinheiro investidos na produção de material erótico têm vindo a diminuir ao longo das últimas décadas. Nos anos 70, a chamada era dourada da pornografia, reinavam filmes com grandes orçamentos como "O Diabo em Miss Jones" ou "Garganta Funda". A invenção do VHS e da câmara de vídeo nos anos 80, tornaram a pornografia mais fácil de fazer e ajudaram a impulsionar a criação de conteúdo amador.

Com a chegada da internet, o processo acelerou vertiginosamente e a indústria transformou-se: o acesso a conteúdos explícitos tornou-se ainda mais fácil, muito mais rápido e mais barato. Ou gratuito. Hoje em dia, proliferam sites dedicados à partilha de conteúdo pornográfico, mas meia dúzia de empresas como a MindGeek, dona da PornHub, controlam o monopólio do mercado.

A redução dos orçamentos dos estúdios de pornografia e a explosão do tráfego para sites como o Pornhub significam que os performers viram o valor do seu trabalho cair drasticamente. No seu livro "The Pornography Industry: What Everyone Needs to Know", Shira Tarrant estima que a pirataria custa à indústria pornográfica cerca de 2 mil milhões de dólares por ano.

O OnlyFans veio revolucionar este paradigma, dando aos criadores a possibilidade de determinar o conteúdo disponibilizado e quem tem acesso a ele e o controlo sobre preços e pagamento. Devido à relativa facilidade e acessibilidade do site – e a perceção de que é possível fazer 'dinheiro fácil' – profissionais e muitas pessoas que não eram trabalhadoras do sexo antes decidiram apostar na plataforma.

Foi o caso de Miguel Teixeira, que trocou a carreira de assistente de bordo pela pornografia no final de 2018. Depois de ter saído da Ryanair e com dificuldade em encontrar trabalho, acabou por se começar a dedicar ao OnlyFans. E hoje em dia, faz parte do 1% de criadores da plataforma.

O site identifica e notifica os criadores de topo – entre os 10% e os 0.1% – e é comum que estes utilizem a sua percentagem individual como ferramenta de marketing para atrair novos subscritores.

Em 2018 Miguel Teixeira trocou a carreira de assistente de bordo pela pornografia.
Em 2018 Miguel Teixeira trocou a carreira de assistente de bordo pela pornografia.
Foto: DR

"Não sou de falar de valores, mas, num bom mês, chego a ter um rendimento de 10 mil euros. Obviamente todo declarado", diz o ator pornográfico, que é conhecido no meio por Sir Peter. "O rendimento depende muito do trabalho e do esforço que se coloca na plataforma", afirma.

A sua maior queixa é a falta de segurança e a vulnerabilidade a ciberataques ou fugas de informação: "é muito instável. Existem outras plataformas que oferecem melhores soluções a 'médio prazo'". Para contornar o problema, está a desenvolver o seu próprio site para poder investir na criação de material exclusivo por conta própria.


Museus de arte abrem guerra contra site de pornografia Pornhub
A polémica começou em julho quando a principal plataforma de pornografia na internet, com sede fiscal no Luxemburgo, decidiu oferecer passeios "eróticos" pelas coleções de seis dos mais importantes museus de arte do mundo.

Um fenómeno global

Fundado em Novembro de 2016 pelo empresário britânico Timothy Stokely, anteriormente proprietário dos sites para adultos GlamGirls e Customs4U, o site conta agora com quase 200 milhões de visitas mensais, 150 milhões de utilizadores registados e perto de 2 milhões de criadores de conteúdos. O Financial Times relatou que as transações de OnlyFans aumentaram 553% em 2020, aumentando sete vezes para 2,4 mil milhões de dólares.

A empresa, com sede em Londres, pretende aproveitar a recente popularidade e está a criar novos escritórios na Ásia e na América Latina. Está também a planear criar um novo serviço de streaming online chamado OFTV, que apresentará conteúdos exclusivos, tais como séries produzidas pelos seus criadores e entrevistas pessoais com personalidades do OnlyFans.

"Não sou de falar de valores, mas, num bom mês, chego a ter um rendimento de 10 mil euros." Miguel Teixeira
"Não sou de falar de valores, mas, num bom mês, chego a ter um rendimento de 10 mil euros." Miguel Teixeira
Foto: Shutterstock

Embora o OnlyFans seja particularmente popular entre os trabalhadores do sexo, a plataforma permite uma série de outros conteúdos, incluindo dicas de fitness e maquilhagem, música ou design gráfico.

Há também muitas celebridades e influencers que aderiram à tendência OnlyFans. Nomes como Cardi B, Blac Chyna ou Tyler Posey, partilham conteúdos exclusivos, e por vezes explícitos, com os fãs.

Em Janeiro de 2020, Kaylen Ward, de 20 anos de idade, ofereceu fotografias nuas a qualquer pessoa que doasse fundos para combater o Incêndios florestais australianos – e angariou 1 milhão de dólares no processo. Em Agosto de 2020, a atriz americana Bella Thorne ganhou mais de 2 milhões de dólares em OnlyFans em apenas uma semana.

Relatos de abuso e de conteúdo ilegal na plataforma

O OnlyFans surgiu como uma nova alternativa às plataformas tradicionais de conteúdo para adultos, prometendo devolver o controlo aos criadores de conteúdo, permitindo-lhes vender diretamente a quem o procura, sem o intermédio de distribuidores que lhes sugam as receitas nem o risco de verem as suas imagens pirateadas.

De acordo com uma investigação da BBC existem relatos de assédio, perseguição e abuso contra os criadores de conteúdos.
De acordo com uma investigação da BBC existem relatos de assédio, perseguição e abuso contra os criadores de conteúdos.
Foto. Shutterstock

Apesar do sucesso à escala global, o modelo de negócio do OnlyFans continua a gerar polémica. Para além de preocupações relativamente à contribuição da perpetuação da misoginia e objetificação da mulher, existem relatos de fugas de informação, conteúdo ilegal que não é removido da plataforma e, em Agosto, o misterioso retrocesso na decisão de proibir os seus criadores de partilharem material explicito.

Alguns críticos aceitaram a alegação de que a mudança foi forçada pelos bancos que se recusavam a trabalhar com a plataforma na sua forma atual, enquanto outros se perguntavam se seria uma estratégia a longo prazo, motivada pela ideia de havia mais dinheiro e segurança num modelo sem bolinha vermelha.

Face à polémica, a empresa anunciou que, tendo obtido garantias dos seus parceiros bancários de que poderiam continuar a operar, tinha suspendido a sua decisão e "continuaria a fornecer um lar para todos os criadores".

No entanto, há críticas que ficam por responder. Segundo uma investigação da BBC, existem relatos de assédio, perseguição e abuso contra os criadores de conteúdo. Para além disso, OnlyFans permite conteúdos ilegais na plataforma, nomeadamente atos sexuais sem consentimento e vídeos que apresentam menores de idade.

Os criadores de conteúdos são obrigados a tirar uma fotografia com uma forma de identificação oficial para que possam provar a sua idade. No entanto, é fácil contornar este processo através de cartões falsificados. Uma vez que a idade tenha sido verificada e se tenha acesso à plataforma, nada impede qualquer utilizador de fazer upload de conteúdo explicito de qualquer pessoa – incluído crianças.

Conteúdos não autorizados

Outra das preocupações é a distribuição sem consentimento de conteúdos publicados na plataforma. Apesar de o OnlyFans ter alguns mecanismos que impedem o download de vídeos e fotografias, bem como uma marca de água para ajudar outros sites a identificar conteúdo roubado, a verdade é que impedir a circulação de conteúdos não autorizados fora da plataforma é missão impossível.

Impedir a circulação de conteúdos não autorizados fora da plataforma é missão impossível.
Impedir a circulação de conteúdos não autorizados fora da plataforma é missão impossível.
Foto: Shutterstock

Filipa Santos considera que o site é pouco seguro e fala em impotência perante grupos de chat criados por pessoas que roubam conteúdo no OnlyFans e depois vendem no Telegram e WhatsApp. "Quando decidimos dar a cara sabemos que nos arriscamos a acordar e a ver a nossa cara na internet, mas é conteúdo que nos pertence e do qual vivemos e que está a ser dado gratuitamente", lamenta.

(Jornalista escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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