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Três notas sobre vacinas e desigualdade
Opinião Sociedade 5 min. 20.01.2021

Três notas sobre vacinas e desigualdade

Três notas sobre vacinas e desigualdade

Foto: AFP
Opinião Sociedade 5 min. 20.01.2021

Três notas sobre vacinas e desigualdade

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Regresso ao tema das vacinas porque, mais do que as notícias catastróficas dos números que nos assolam nos últimos dias, são elas que nos dão alguma esperança no futuro próximo. Não sem custos.

Não nos iludamos: está em marcha uma corrida desenfreada dos mais ricos e poderosos às vacinas contra a covid-19. Sabemos que o coronavírus pôs a nu uma série de desigualdades – entre empregados e desempregados, entre quem teletrabalha e quem tem de sair para poder trabalhar, quem vive em casas espaçosas ou está confinado a pequenos apartamentos, entre quem se pode dar ao luxo de ficar dois meses sem aulas e quem absolutamente não pode prescindir de ir à escola. Desigualdades entre homens e mulheres, entre pobres e ricos, entre o Norte e o Sul Global.

1. Mas também desigualdades entre países da União Europeia que, apesar de ter apresentado uma estratégia de vacinação concertada para os 27 membros com o acordo com a Pfizer-BioNTech, está agora de mãos atadas: a farmacêutica anunciou que vai reduzir as entregas da sua vacina na Europa de forma a conseguir aumentar a sua capacidade de produção. Ursula von der Leyen esteve em Lisboa, actual capital da UE, para garantir que os atrasos da Pfizer não vão comprometer a entrega das doses já encomendadas.

Interessantes as declarações de António Costa, na qualidade de primeiro-ministro mas respondendo igualmente na conferência da Presidência portuguesa: "Somos mais fortes se a negociação for feita pela Comissão Europeia em nome de todos. A partir do momento em que cada um comece a tratar por si, enfraquecemos a União". Pelos vistos Alemanha e Hungria já começaram a tratar por si: a primeira comprou 30 milhões de doses extra à própria Pfizer, do seu bolso; a Hungria comprou à chinesa Sinopharm, cuja vacina não foi sequer aprovada pela Agência Europeia do Medicamento.

Ontem, na Assembleia da República, o deputado do PCP, João Oliveira, perguntava ao primeiro-ministro como é que Portugal vai lidar com estas limitações e cumprir, ao mesmo tempo, os objectivos de vacinação definidos, “se as empresas responsáveis pelo fornecimento das vacinas aprovadas pela UE não têm capacidade de produção suficiente face aos objetivos que tinham sido identificados; [e] se essas farmacêuticas se recusam a subcontratar a produção da vacina ou a partilhar as patentes para que essa produção possa ser adequada”. Limitado às opções da UE, vai Portugal entrar no cada-um-por-si do enorme e competitivo mercado das farmacêuticas?

2. A OMS está constantemente a alertar para a "catástrofe moral" na distribuição das vacinas no mundo: na segunda-feira, o director da OMS recordava que, até à data, mais de 39 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 tinham sido administradas em 49 países de altos rendimentos, em contraste com apenas 25 doses num país de baixo rendimento. Mas não haverá talvez maior catástrofe moral que aquela que opõe a vacinação em Israel e na Palestina.

Israel tem sido usada como um exemplo mundial pela celeridade do seu programa de vacinação: actualmente com o maior índice de vacinação per capita no mundo, prevê que maiores de 16 anos estarão vacinados até ao fim de Fevereiro. Cidadãos palestinianos residentes em Israel receberam vacinas. Cidadãos israelitas nos colonatos dos territórios ocupados também estão incluídos. Mas 4.5 milhões de palestinianos em Gaza e Cisjordânia foram excluídos do programa. A Autoridade Palestiana anunciou o acordo com a OMS para receber vacinas, que deverão chegar em Março. Mas tanto os Acordos de Oslo como o artigo 56 da 4ª Convenção de Genebra, obrigam Israel, como país ocupante, a garantir "os estabelecimentos e serviços médicos e hospitalares, a saúde pública e a higiene no território ocupado, com particular referência à adoção e aplicação de medidas profiláticas e medidas preventivas necessárias para combater a propagação de doenças contagiosas e epidemias".


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3. Outro país que está no topo da vacinação per capita são os Emirados Árabes Unidos – o destino de turismo de saúde de milionários britânicos que, por serem demasiado jovens, não estão ainda na lista de grupos prioritários a serem vacinados no Reino Unido. O Reino Unido já vacinou 6% da sua população (até ontem), incluindo trabalhadores e residentes em lares, maiores de 80 anos e pessoal médico-hospitalar. Só que os milionários não vão esperar por um serviço público, gratuito, universal. Não vão ficar à espera que o médico de família lhes envie uma carta para se apresentarem, como os comuns mortais, na fila do centro de saúde para serem vacinados. Não vão entrar numa sala em que milhares de outras pessoas beneficiaram do Serviço Nacional de Saúde que muitos deles tão diligentemente ajudaram a desmantelar. Não: os milionários britânicos metem-se nos seus jets privados e vão até aos Emirados.

O Reino Unido enfrenta o seu terceiro, rigoroso, lockdown. As viagens entre distritos no país e ao exterior estão proibidas: excepto business trips. Ora, por que não vamos de "férias de vacinação"? É todo um pacote de luxo: vacina, quinze dias no resort all-inclusive entre as duas doses, pela módica quantia de 28,000 euros. Este é o serviço prestado pela Knightsbridge Circle, uma agência de viagens exclusiva para celebridades, realeza e os uber rich, sediada em Londres. "Dubai e Abu Dhabi já estão a oferecer marcações privadas para a vacina da Pfizer", disse Stuart McNeill, CEO da empresa, ao Telegraph. "Cerca de 20% dos nossos clientes decidiram voar para lá e levar a vacina."

O canal de notícias financeiras, Bloomberg, lembrou que a vacina da AstraZeneca/Oxford poderá estar disponível para compra na Índia, já em Março. É ver os jets privados dos milionários a aterrar em Goa, para mais um episódio desta série chamada "no resort de luxo contra a covid".

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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