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Transfronteiriços. Trabalhadores "privilegiados" e mal-amados
Sociedade 6 min. 06.05.2020 Do nosso arquivo online

Transfronteiriços. Trabalhadores "privilegiados" e mal-amados

Transfronteiriços. Trabalhadores "privilegiados" e mal-amados

Foto: Lex Kleren
Sociedade 6 min. 06.05.2020 Do nosso arquivo online

Transfronteiriços. Trabalhadores "privilegiados" e mal-amados

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Nova sondagem da ASTI traça o retrato da quase metade da população ativa do Luxemburgo que vive nos países vizinhos.

O salário elevado é a principal razão pela qual cerca de 200 mil transfronteiriços percorrem diariamente quilómetros para trabalhar no Grão-Ducado. Contudo, se o preço da habitação fosse mais acessível muitos mudavam-se para o país. Porque gostam principalmente da multiculturalidade que o Luxemburgo possui e da sua riqueza económica. Além do respeito pelos seus direitos laborais. O lado mais negativo é que vivem confrontados com o estatuto de "privilegiados" rotulado pelos luxemburgueses e se sentem mal-amados no seu país de residência.

Estas são algumas das conclusões da sondagem 'Transfronteiriços no Luxemburgo', da Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI) por ocasião da celebração dos seus 40 anos. Os resultados do inquérito inédito sobre o sentimento de pertença profissional e social dos trabalhadores transfronteiriços ao Luxemburgo, realizado pela empresa TNS Ilres, foi divulgada ontem, dia 6 de maio, pela ASTI em conferência de imprensa.


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Multicultural (22%), rico (19%) e um bom país (19%). É assim que estes trabalhadores residentes nos países vizinhos definem o Luxemburgo, onde os autóctones são simpáticos (21%) e acolhedores (11%) embora distantes (14%). Estas foram as características que reuniram mais respostas.

Conquista longa

Perante os resultados da sondagem, a ASTI vinca que o bem-estar dos transfronteiriços no Grão-Ducado não é imediato vai-se conquistando ao longo dos anos. Enquanto os mais novos, entre os 18 e 34 anos, admitem que se deslocam ao Luxemburgo principalmente para trabalhar, preferindo "passar os tempos livres noutro local", os mais velhos que foram fazendo amigos no país e aprendendo a gostar de aqui estar, acabam por também passar os seus momentos de lazer neste país.

Esta conquista dos transfronteiriços é semelhante à "do percurso migratório clássico para um país de acolhimento. Emigram por razões económicas e depois então vão descobrindo o país de acolhimento e desenvolvendo relações sociais. Aliás, uma das revelações desta sondagem é exatamente a semelhança destes percursos", sublinha Sérgio Ferreira, porta-voz da ASTI.

Salário e emprego

"Se as rendas fossem mais baratas eu mudava-me" para o Luxemburgo, vinca um dos inquiridos. O desejo de um dia viver no Grão-Ducado é revelado por 38% dos inquiridos, nomeadamente 17% dos transfronteiriços alemães, 13% destes trabalhadores que residem em França e apenas 8% dos que residem na Bélgica.


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O salário (71%) é a principal razão dos transfronteiriços para o seu emprego no Grão-Ducado, sobretudo entre a faixa etária mais jovem, de 18 aos 34 anos. É também aqui que existe oferta de emprego compatível com as suas qualificações (51%), facto mais revelante entre os profissionais do setor financeiro e de empresas de auditorias (67%).

A ausência de trabalho no país de residência (27%) é a terceira razão apontada pelos inquiridos, sobretudo entre os mais jovens e dos setores financeiros e de auditorias.

Respeito pelos direitos laborais

A multiculturalidade do Luxemburgo (96%) é a característica que os faz "sentirem-se bem" neste país, onde têm amigos (84%) e que respeita os direitos de trabalho dos transfronteiriços (84%). Estes residentes da Alemanha, Bélgica e França sentem que são bem-vindos (75%) e apreciam as gentes luxemburguesas (74%).

Importante também é o facto de gostarem de trabalhar nas suas empresas e se sentirem integrados entre os seus colegas (91%), onde no geral se sentem bem no seu meio laboral (86%).

"Privilegiados" mal-amados

Embora tenham a plena consciência que contribuem para o sucesso económico do país (83%), os trabalhadores transfronteiriços são vistos por alguns como "privilegiados" no país onde trabalham e mal-amados por outros naquele onde residem. E este é o lado mais negativo. "Os residentes consideram que eles se devem sentir felizes por trabalhar no nosso país, por causa do nível dos salários e das prestações sociais" que beneficiam, vinca a ASTI. Razão pela qual os residentes do país onde estes trabalhadores vivem os "culpam pelo seu nível de vida que faz aumentar os preços, sobretudo no setor imobiliário, o que gera animosidade" para com eles.

"Uma das conclusões da sondagem é que ao contrário do que muitas vezes franjas da população e mesmo o poder político pensa os trabalhadores transfronteiriços interessam-se pelo Luxemburgo, pela política e pela atualidade do país. Não vêm para cá só para trabalhar", frisa Sérgio Ferreira.


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Atender aos seus anseios

Por isso, este sindicalista diz que estes trabalhadores têm de começar a ser olhados de forma diferente, "as suas aspirações têm de ser acauteladas". "A ASTI defende que devem ser criados mecanismos para salvaguardar os seus interesses e há que dar voz a estes trabalhadores e cabe ao mundo político fazê-lo", defende Sérgio Ferreira.

 Afinal, eles representam 46% da mão de obra do Luxemburgo, quase metade da população ativa. "Há um certo discurso negativista para com estes trabalhadores, por parte de algumas franjas dos residentes do país, luxemburgueses e não luxemburgueses que tem de ser alterado", alerta.

"Eles têm sido o balão de oxigénio da economia do Luxemburgo, e muitas vezes, quando há despedimentos ou dificuldades são os primeiros a ficar sem emprego", realça o porta-voz da ASTI. Sérgio Ferreira teme que nesta conjuntura de crise pandémica, tal possa vir a acontecer.

Luxemburgo: trabalho e lazer

Os luxemburgueses são "frios na primeira abordagem, mas depois muito acolhedores", afirma um dos inquiridos enquanto outro os define como "simpáticos, mas um pouco xenófobos". No geral, hospitaleiros, amáveis, respeitadores, polidos, multiculturais são as características mais vincadas pelos inquiridos.


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Embora vivam nos países vizinhos, o quotidiano dos transfronteiriços faz-se muito no Luxemburgo, entre jantares nos restaurantes, idas ao médico, compras e passeios. Ao mesmo tempo, seguem com atenção a política do país e atualizam-se através, dos media do Grão-Ducado.

O problema do idioma

O idioma luxemburguês pode ser o principal entrave a um maior sentimento de pertença destes trabalhadores que residem na França, Alemanha e Bélgica. "82% compreendem um pouco da língua luxemburguesa" e "58% sabem falar um pouco do luxemburguês".

"Alguns transfronteiriços contam que quando falam luxemburguês a atitude para com eles é logo outra", mais positiva, lembra o porta-voz da ASTI.

Na sua vida privada estes trabalhadores acabam por privilegiar mais os contactos e amizades com os residentes "não-luxemburgueses" (74%) do que com os autóctones (49%). E o mesmo se passa nas suas relações profissionais, respetivamente (85%) contra (69%). Tal como acontece com os imigrantes clássicos no Luxemburgo. 

O primeiro-ministro Xavier Bettel e vários ministros já declararam por diversas vezes que os transfronteiriços são fundamentais para o país, afirmações que se têm multiplicado durante a pandemia da covid-19. "O Luxemburgo precisa destes trabalhadores para continuar a crescer a nível económico e tem de continuar a lembrar-se dos seus direitos mesmo após a pandemia", conclui Sérgio Ferreira.

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