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Trabalhar menos e melhor
Opinião Sociedade 4 min. 30.12.2020

Trabalhar menos e melhor

Trabalhar menos e melhor

Foto: Getty Images/iStockphoto
Opinião Sociedade 4 min. 30.12.2020

Trabalhar menos e melhor

Jessica LOPES
Jessica LOPES
Será que seremos mesmo substituídos por computadores e que muitos dos empregos que conhecemos hoje deixarão de existir no futuro?

As preocupações com o futuro do mundo do trabalho, ligadas a digitalização e automação, existiam antes da covid-19 descarrilar a economia mundial e refletem uma crença generalizada de que os robôs estão a chegar para substituir as pessoas. Séries populares como Black Mirror contribuíram para a formação desta narrativa, focando nas consequências imprevistas das novas tecnologias e da substituição do ser humano por máquinas.

Será que seremos mesmo substituídos por computadores e que muitos dos empregos que conhecemos hoje deixarão de existir no futuro? Será algo que devemos combater? E como devemos responder às perturbações do mercado de trabalho baseadas na tecnologia? Se não se é economista ou um especialista em inteligência artificial o debate à volta destas questões pode parecer confuso e emotivo. Existe o medo de tudo mudar, de perder-se o que se tem hoje e as nossas vidas profissionais e pessoais serem impactadas para sempre e as desigualdades atuais serem exacerbadas. Tudo medos justificados. No entanto, depois de quase um ano de crise de saúde global, esse processo de automação e de digitalização do mundo do trabalho foi acelerado e intensificado de tal forma, que se tornou uma das questões centrais para o futuro e para o ano que vem.

Apesar da campanha de vacinação contra a covid-19 ter começado esta semana, as preocupações à volta das potenciais mudanças a longo prazo provocadas pela pandemia criam uma ansiedade coletiva. Como será o futuro do teletrabalho e o seu impacto em todos os sectores? Que papel a indústria terá no futuro do país? Como será afetado o comércio local em concorrência com multinacionais gigantes de e-commerce ? Tais são as questões que preocupam centenas de milhares de trabalhadores que vivem com o medo de verem os seus empregos desaparecer com o tempo. Mas a automação e a digitalização podem também ser vistos como uma oportunidade. A possibilidade de trabalharmos menos e de nos livrarmos do que o antropólogo David Graeber considerava os “empregos da treta”. A ocasião de repensarmos o mundo do trabalho.

Enfrentamos dois grandes desafios. Primeiro, o problema é que as novas tecnologias não são introduzidas da forma que deveriam e com o objetivo de aumentar a qualidade de vida de todos de forma coletiva. O nosso sistema capitalista tende a adotar tecnologias apenas como e quando elas se adequam aos seus propósitos particulares. Um deles é embaratecer o valor da mão-de-obra nas indústrias existentes. Segundo é a necessidade urgente de reavaliarmos os empregos que valorizamos. Teremos de lidar com algumas questões incómodas sobre a razão pela qual empregos com elevado valor social, os empregos “essenciais”, estão muitas vezes ligados a baixos salários e menor reconhecimento social.

A organização coletiva dos trabalhadores e o papel dos sindicatos será primordial na elaboração das soluções do mundo do trabalho de amanhã. O modelo de diálogo social luxemburguês permitiu em 2020 encontrar soluções no setor da aviação e da indústria, por exemplo, mas em 2021, não poderemos ​repousar a sobre os louros conquistados. Haverá muitas ameaças, perturbações e mudanças inevitáveis mas terá de se assegurar que essas transformações não intensifiquem desigualdades.​ Em 2021, teremos de fazer as perguntas certas.

A automação pode substituir trabalhadores na indústria, porque não introduzir reformas antecipadas para quem trabalha no duro? A digitalização facilita a redução do trabalho entre quase todos os setores, porque não debater seriamente sobre uma redução de tempo de trabalho sem redução de salário como fez a Finlândia ou a Nova Zelândia? As qualificações para muitos postos de trabalho mudaram e requerem competências digitais, porque não investir de forma maciça na requalificação de trabalhadores? É necessária menos mão de obra no geral, porque não aumentar a licença de parentalidade e melhorar o equilíbrio entre vida profissional e privada como o fazem os países escandinavos?

Em 2021, teremos de ser uma resistência ao que quer que seja em detrimento dos trabalhadores, mas também a favor da transformação, e do futuro. A favor da valorização, impulsionada pela pandemia, do tempo livre, da preocupação com a comunidade e de uma visão mais solidária do mundo do trabalho e de como se organiza.

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