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Top Gun, um anúncio de recrutamento
Opinião Sociedade 3 min. 29.06.2022
Forças Armadas EUA

Top Gun, um anúncio de recrutamento

 "Top Gun: Maverick"
Forças Armadas EUA

Top Gun, um anúncio de recrutamento

"Top Gun: Maverick"
Paramount Pictures/dpa
Opinião Sociedade 3 min. 29.06.2022
Forças Armadas EUA

Top Gun, um anúncio de recrutamento

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Todos os ramos das Forças Armadas nos EUA estão com dificuldade em cumprir metas de recrutamento. O legado do Iraque e Afeganistão não parece ter sido positivo

Em Top Gun: Maverick, Tom Cruise regressa 36 anos depois ao papel de piloto de elite da Marinha dos EUA que o imortalizou em Top Gun (1986), realizado por Tony Scott. O tempo nota-se bem na cara bombada de botox do actor prestes a completar 60 anos: o mesmo olhar rasgado num sorriso de puto, mas aquelas bochechas congeladas para sempre em dois berlindes que lhe deformam a face. Hollywood é cruel com as mulheres, mas também o sabe ser com os seus homens.

O filme já ultrapassou os mil milhões de dólares em bilheteira. Nele, Cruise regressa ao seu F-18 num (demasiado) longo bocejo de pequenos retornos, piscadelas de olho à memória colectiva, conversas intermináveis no cockpit, a cena homoerótica do voleibol de praia agora de-sexualizada, a competição-transformada-em-solidariedade dos jovens “wingmen” de bigode e Ray Ban, faltando apenas um remake para o “take my breath away”.

O crítico Luís Miguel Oliveira diz melhor do que eu: “Maverick é uma vénia, cheia de bonomia, à nostalgia do original dos anos 80, num militarismo ‘abstracto’ (como o tratamento dos ‘inimigos’, que nem que língua falam podemos saber) e sempre a dar uma no cravo e outra na ferradura (a instituição militar não é dada como uma entidade simpática), que deve ser a única forma de encenar o militarismo hoje, longe que vai esse tempo em que, graças a Reagan e à Guerra Fria, estas coisas eram incentivadas (embora seja curioso ver que o filme, há muitos meses ‘congelado’ por causa da pandemia, vem cair mesmo em cima da guerra russo-ucraniana).”

O timing da guerra da Ucrânia parece ser a sorte grande do filme e das Forças Armadas. O militarismo é tanto menos “abstracto” quanto insiste nas referências veladas ao enriquecimento de urânio num bunker num vale montanhoso (Irão?), um acidente numa floresta nevada de bétulas (Rússia?) e aviões obsoletos que parecem do tempo da Guerra Fria. Verdade: parece ser preciso ler a secção de Internacional para saber quem são, hoje, estes inimigos dos EUA. Longe vão os tempos dos “árabes” ou dos “mexicanos”, já os “russos” parecem estar de regresso. Um inimigo “non-descript” é o melhor que Hollywood pode fazer hoje em tempos de melindrados lugares de fala.

O filme começa com uma crítica à empregabilidade nas FA, quando Tom Cruise tem de superar uma experiência piloto prestes a ser suspensa por falta de financiamento, porque o dinheiro está a ser canalizado para drones. Mais drones, menos pilotos: menos heróis de casaco de cabedal e acrobacias aéreas no 4 de Julho; mais técnicos a disparar mísseis a 11 mil km de distância para um inimigo “non-descript” algures no Médio Oriente, enquanto trincam uma chicken wing do KFC, de pijama e chinelos em teletrabalho na cave da casa da mãe, no Arkansas.

Nem todos podemos ser heróis. O site da US Naval Institute explica como o novo Top Gun é uma “carta de amor à aviação naval” numa altura em que todos os ramos das FA estão com dificuldade em cumprir metas de recrutamento. A percentagem de jovens (17-24 anos) elegíveis para servir é a mais baixa desde o Vietname (muitos desqualificados devido à obesidade, consumo de drogas ou cadastro). “Este é o início de uma longa seca para o recrutamento militar”, disse à NBC o tenente-general Thomas Spoehr. O legado das guerras do Iraque e Afeganistão não parece estar a ser positivo. Como já acontecera em 1986, as FA montaram stands de recrutamento à porta dos cinemas e a Força Aérea programou um anúncio para passar antes do filme.

Nem de propósito: com a guerra na Ucrânia e a NATO em operações de investimento militar na Europa, Top Gun parece um milagre caído do céu para as FA americanas. Até porque, diz Spoehr, “2022 é o ano em que questionamos a sustentabilidade da força de voluntários”. Recrutamento obrigatório?

Um leitor escreveu no Wall Street Journal que uma das consequências do congelamento da dívida de estudantes universitários (e a discussão sobre o potencial perdão dessas dívidas) será a dificuldade em encontrar novos recrutas: “Quando trabalhei na Marinha, a esmagadora maioria dos recrutas listava o pagamento da faculdade como principal motivo para ingressar. Se os jovens americanos puderem obter faculdade gratuita sem terem de se inscrever no serviço militar, haverá número suficiente de voluntários nas FA?”

A dívida ou a guerra: a escolha inevitável de jovens americanos em 2022.

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