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Tonico pneumologista
Opinião Sociedade 4 min. 04.03.2021

Tonico pneumologista

Tonico pneumologista

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 4 min. 04.03.2021

Tonico pneumologista

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Nas festas do Senhor do Santo Cristo, chamavam-no Tonico, vestiam-no de anjo e punham-no em cima do carro dos bombeiros. No carnaval, chamavam-no Tonico, vestiam-no de anjo e punham-no em cima do carro alegórico com as duas gémeas que iam apalpar os tropas para trás da igreja.

Como o tecido era duro de lavar, colecionava na fatiota as nódoas das farturas de um ano para o outro. Quando, por causa das farturas, a fatiota de anjo deixou de servir, passou ele a servir na taberna da Isaura.

A Isaura, viúva de embarcado, larga de costas e mãos abençoadas no manejo de ingredientes, descobriu o negócio da taberna depois de o marido morrer. Uma bênção não assumida, mas sentida. Deveu-se à perseverança da senhora, lesta a ultrapassar o nojo, a expansão do negócio. Em muito ajudou as ausências constantes do embarcado, entre portos cujos nomes Isaura nunca pronunciava de forma certa quando as cartas chegavam vagarosas com algum dinheiro a conta-gotas. 

A cozinha atarracada feita a trouxe-mouxe nas traseiras do quintal, com dois bancos corridos e loiça roubada no quartel pelas gémeas, já tinha merecido chão de mármore ao fim de um ano de trabalho. A pedra não fora encomendada em Carrara, porque o nome a recordava dos portos desse mundo, onde o falecido encostara o barco e não só, preferindo Isaura o mármore alentejano, oriundo de longe o quanto baste para já fazer boa vista. 

Poucos anos passaram, para Isaura não ser apenas a Isaura dos pregos e das coxas de galinha, mas também dos ensopados, dos petiscos e, mais recentemente, do takeaway de comida caseira. Quando o negócio prosperou, arranjou ajudante. Passou a tirar o avental antes das cinco. Caminhava para o final da cozinha, com as alpercatas a colarem ao chão e a deixarem na gordura os semicírculos da borracha antiderrapante. 

Dizia que já não tinha idade para aquelas vidas e, digo eu, pensava que já ia fora de horas para a novela do final da tarde. Como era de corpo quente, cambaleava um pouco à saída, hesitava, rodava as alpercatas como fazem os soldados coreanos, de joelho erguido em ângulo reto com a perna - já que só desta maneira poderia descolar-se da gordura –, e revolvia a marcha. No caminho inverso, dava a telenovela por perdida e fazia mentalmente novas considerações sobre a idade.

De volta do fogão e do prego no prato, estava um jovenzinho anémico e bexigoso, fracote para os números e cansado de repetir cem vezes, em cadernos de vinte cinco linhas, os erros ortográficos dos ditados. A média de um caderno por semana revelava a imperícia do rapaz. Se os progenitores dessem ouvidos aos discursos mais ou menos profícuos das entidades nacionais, percebiam que o defeito não era do aluno, mas do sistema. 

A escola deveria, por certo, fazer parte da maioria e favorecer a exclusão e não a inclusão. Precariedades de uma democracia ainda jovem. Os progenitores deixaram de fornecer os cadernos de vinte e cinco linhas e sugeriram ao jovem que fosse trabalhar para os comprar. Quem sabe baseados em algum texto sobre psicologia infantil, desses que repousam nas revistas lustrosas dos consultórios médicos e recomendam a atribuição de responsabilidade aos mais novos. 

O jovenzinho iria por certo dar menos erros ortográficos, se lhe fosse deduzido dos bolsos a soma dos enganos. Tirando um caderno que comprou, ainda não tinha doze anos, para compor umas cartas açucaradas destinadas às gémeas, não é de meu conhecimento que o rapaz tenha gastado o salário em papel até à idade adulta. Mas a juventude era em si uma oportunidade e afinal ainda o escondiam na despensa quando a inspeção passava lá pelo tasco.

Como era de corpo quente, a dona do estabelecimento aproximava-se do rapaz e inspecionava-lhe o preparo do bife. Sobre a bancada permanecia uma barra de inox, suporte dos tachos mais reluzentes, porque não eram os que iam a uso e ficavam estendidos a trinta centímetros do mármore. A Isaura usava a barra para se içar na bancada e a outra mão apoiava-se, por falta de pontaria, na borda do prato do bife já temperado. Alhos cortados e carne galgavam e caiam a poucos centímetros da alpercata, que tinha cedido à gordura do chão e não fora capaz de acompanhar o pé na subida. O rapazote bexigoso aprendera com a vida, já que os bancos de escola para pouco lhe serviram, e não a fazia esperar muito, encaixando como sabia a cara entre as pernas da dona.

Houve um dia em que o rapaz não apareceu na taberna e o corpo nunca deu à margem do rio por baixo da ponte. Foram-no encontrar anos mais tarde, em Lisboa, à hora das visitas no Egas Moniz. Tonico pneumologista ou apenas Tonico, para quem não está habituado às palavras que chegam de fora. 

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