Escolha as suas informações

Todas somos Blimunda
Opinião Sociedade 4 min. 30.12.2021
Escócia

Todas somos Blimunda

Escócia

Todas somos Blimunda

Foto: Instagram Witches of Scotland
Opinião Sociedade 4 min. 30.12.2021
Escócia

Todas somos Blimunda

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
A Escócia prepara-se para fazer a reparação histórica perante mais de 3800 pessoas acusadas há 300 anos ao abrigo da cruel e violenta Lei da Bruxaria.

Ao brincar recentemente com a minha sobrinha percebi que ela estava fascinada por bruxas. Mas senti dificuldade em encontrar vídeos, desenhos, livros com representações positivas de bruxas, que não fosse a bruxa má dos Sete Anões ou imagens análogas, sempre associando bruxas a caldeirões, venenos, comer criancinhas ou frutos envenenados.

Também eu cresci com as mesmas representações, agravadas pela versão das bruxas do Halloween que nos últimos anos se popularizou entre nós. Foi apenas quando cheguei à Escócia que me dei conta da diversidade das bruxas e me confrontei com mais de três séculos de preconceitos ancorados num extermínio de (sobretudo) mulheres, do seu conhecimento, das suas tradições, e da forma como, em nome da ciência e da religião, foram acusadas, perseguidas, eliminadas.

O Guardian tem publicado os desenvolvimentos da campanha Bruxas da Escócia (Witches of Scotland) que está a lutar pela reparação histórica da brutalidade da Lei da Bruxaria que, entre 1563 e 1736, condenou mais de 3800 pessoas (84% das quais mulheres) ao crime capital por bruxaria, e dois terços destas à morte por decapitação ou enforcamento, após tortura, seguida de queima dos corpos para que não pudessem ser enterrados.

Witches of Scotland segue um trabalho de recuperação da memória desses séculos de femicídio generalizado sobre o qual a Escócia (e não só) sofre de uma espécie de amnésia cultural.

A campanha escocesa baseia-se nas reparações dos tribunais de Salem, Massachusetts, nos Estados Unidos, que em 1957 (mais de 250 anos após os eventos) compensou as famílias das vítimas e as exonerou dos seus crimes. Em Salem, 300 pessoas foram acusadas de bruxaria, 19 executadas. 

A Escócia tem 5 vezes mais execuções, a maior percentagem de toda a Europa ocidental: “A maioria das mulheres foi queimada, em vez de enterrada, as suas identidades apagadas pelas autoridades e famílias por medo e vergonha”, disse Claire Mitchell QC da campanha que luta por três objectivos: um perdão legal, um pedido de desculpas e a construção de um memorial nacional de homenagem às vítimas. “Essa falta de registo histórico torna mais difícil, como sociedade, termos o acerto de contas com a história de que tanto precisamos.”

Witches of Scotland segue um trabalho de recuperação da memória desses séculos de femicídio generalizado sobre o qual a Escócia (e não só) sofre de uma espécie de amnésia cultural. Um dos projectos associados foi um podcast em que as investigadoras vão conversando com historiadores, especialistas em direito, traçando perfis das mais famosas mulheres acusadas de bruxaria e acedendo a documentos legais. 

Outro projecto mais antigo, o Survey of Scottish Witchcraft Database (Base de Dados com o Levantamento da Bruxaria na Escócia), reuniu especialistas na Universidade de Edimburgo para o levantamento de todas as pessoas acusadas e executadas durante esses séculos, conseguindo traçar, da forma completa e fiel, os seus nomes, famílias, profissão, moradas, acusações e a forma como morreram. 

O site witches.is.ed.ac.uk mapeia visualmente esta impressionante base de dados, e mostra como ao lado do café onde poderia estar a escrever esta crónica vivia uma mulher acusada de bruxaria porque a viram entrar na casa de um homem moribundo. Na verdade, podia ser uma Blimunda. Podia ser qualquer uma de nós.

Num dos episódios, o historiador Julien Goodare explica que a imagem da bruxa com a vassoura, caldeirões, chapéus negros e pontiagudos é uma construção caricatural de jornais do século XVIII, em que, perante o avanço das ideias do Iluminismo, se tornou normal criticar como “inferiores” aqueles que acreditavam em sabedorias pagãs.

Também me pareceu relevante aprender, contudo, que muitas mulheres acusadas de bruxaria produziam uma espécie de “ale” (cerveja), num processo de fermentação para combater a má qualidade da água. O caldeirão fervia a água, a vassoura colocada no exterior explicava que a “ale” estava pronta. Depois de assassinadas, estas mulheres foram substituídas por homens e a produção da “ale” tornou-se uma indústria no Reino Unido.

(Autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.)

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.