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Tinder: Maria emprestou 20 mil euros a um desconhecido e nunca mais os viu

Tinder: Maria emprestou 20 mil euros a um desconhecido e nunca mais os viu

Foto: Shutterstock
Sociedade 5 min. 08.02.2019

Tinder: Maria emprestou 20 mil euros a um desconhecido e nunca mais os viu

Maria (nome fictício), de 63 anos, ainda acredita no dia em que vai reaver os 20 mil euros que 'emprestou' ao desconhecido que conheceu no Tinder. No ano passado, foi vítima de scamming, um esquema de burla cada vez mais comum na internet em que os utilizadores são enganados e levados a 'emprestar' dinheiro a desconhecidos. Muitas vezes nunca mais lhe veem a cor.

Maria (nome fictício), de 63 anos, ainda acredita no dia em que vai reaver os 20 mil euros que 'emprestou' ao desconhecido que conheceu no Tinder. "Mas chegou a ser muito mais", exclama ao Contacto. Foi vítima de scamming, um esquema de burla cada vez mais comum na internet em que os utilizadores são enganados por esquemas destinados ao roubo de dinheiro. Artista e escritora reformada e divorciada, decidiu recorrer aos sites de encontros por influência de amigas.

Em maio de 2018 aderiu ao Parchip, Elite e ao Tinder. E foi nesta última que a sua vida passou de paraíso a pesadelo em poucos meses. Um dia, em junho, fez like ao perfil de Martin Johnson, um homem de 56 anos, cuja nacionalidade prefere não divulgar. "Charmoso", "um cavalheiro", "com um inglês muito bom", caracteriza.

O feedback foi quase imediato. "Ele disse-me que estava a morar no Luxemburgo e parecia conhecer até lugares ou as equipas de futebol do país. Comecámos a trocar mensagens, depois passámos para o WhatsApp, e chegámos a falar horas ao telefone", narra.

Nunca se chegaram a encontrar, as desculpas e imprevistos de última hora vinham sempre da parte dele. Viagens a Londres, depois Peru. Mas a química parecia ser real. "Parecia que estava numa relação real. Estávamos ao telefone dia e noite, ele sabia tudo sobre a minha família, o meu gato, era como se eu fosse parte da sua vida e ele parte da minha", refere. Até flores chegaram à casa de Maria.

Fazendo-se passar por empresário, contou a Maria sobre os inúmeros projetos que teria de forma "muito convincente". A juntar a isto, "nunca tentou algo sexual", o que levaria a crer que seria bem intencionado. "Eu acreditei nele", reflete. Mesmo nas supostas viagens de negócios, a artista era inundada de fotos, "no táxi, a fazer jogging, até os bilhetes de voo me enviava". "Como era possível não acreditar?", interroga-se.


Houve 192 queixas contra site de encontros online luxemburguês
Na maioria dos casos as reclamações prendem-se com questões contratuais, mas outros perigos são a burla, extorsão, assédio ou difamação. Como o caso de Maria, que partilhou o seu testemunho com o Contacto.

Foi numa das deslocações ao Peru que os problemas começaram a surgir. Dois meses após o início da 'relação' Martin contou a Maria que estava com problemas na sua conta bancária, que não teria dinheiro para comprar material para a empresa e teria ficado sem passaporte.

Precisava de 15 mil euros. Maria aconselhou-se junto da família que, por sua vez, não viu problemas em esta "ajudar um amigo". Assentiu mas precaveu-se: pediu cópias de vários documentos, inclusivé um documento assinado por Martin em que declarava que Maria lhe emprestava esta quantia de dinheiro e em que se comprometia a pagar de volta.

Duas semanas mais tarde chegou um novo pedido: 20 mil euros. Desta vez já não foi um pedido da Martin mas antes do seu advogado que ligou a Maria, misturado com uma história dramática: Martin tinha tido um acidente e estava em coma. "Eu fiquei chocada mas acreditei", afirma.

Antes do pedido para mais dinheiro, mais palavras que tocaram no coração da mulher: "Conheço o Martin há mais de 20 anos e sei o quanto ele a ama, sinto muito por isto ter acontecido", disse por telefone a Maria. E deu-lhe a sua palavra em como lhe seria devolvido o valor total que Maria já tinha emprestado (35 mil euros) mais uma quantia extra. No total 100 mil euros. E veio outra garantia: um documento carimbado por um tribunal inglês.

Para tornar a história mais surreal, Maria recebeu fotos do homem numa cama de hospital e uma chamada adiando a oportunidade de se conhecerem novamente mas alimentando a esperança. Na conversa, a artista notou alguma pressa e pressão por parte do empresário em receber o dinheiro "menos de um dia para pensar", e aí começou a desconfiar. Com a ajuda de uma das filhas pesquisou o nome de Martin na internet e foi parar a um fórum de denúncias de esquemas de burla. O nome do homem surgiu em passaportes e outros documentos 'oficiais' mas com fotografias de outros indivíduos.

Estávamos em setembro de 2018. O seu mundo desmoronou. "Chorei muito, fiquei muito desiludida". Correu para o banco onde lhe conseguiram recuperar parte do dinheiro, mas 20 mil euros já estavam do lado de Martin. A partir daí, Maria continuou a "jogar o jogo", mas desta vez com o objetivo de reaver o que lhe pertencia. Martin continuava a assegurar que Maria iria reaver o seu dinheiro. "Ainda assim acreditava nele", admite.

O seu caso está atualmente entregue às autoridades policiais e a escritora ainda aguarda progressos. "Hoje, quando penso acho que isto deve ser um grupo organizado de pessoas que fazem estes esquemas". Pelo menos as contas para onde fez as transferências são reais, uma em Nova Iorque, outra em Londres. "Ainda acredito que vou reaver os 20 mil euros", afirma.

Em outubro teve o último contacto com Martin, um email onde fechava o capítulo com o 'empresário' e lhe contava que sabia que tinha sido vítima de um esquema de burla. Ainda assim, o homem continuou o discurso do bom vilão. "E acreditas?", acrescentando que ele próprio foi vítima de um esquema semelhante. "Estava mesmo apaixonada por este homem", admite desalentada.

Olhando para trás, acredita que tinha tudo para ser alvo destes esquemas: "estive sem um parceiro durante anos e as mulheres novas não têm estas quantias de dinheiro no banco". Esta foi a maior desilusão que teve mas não a única. Outro homem queria encontrar-se com ela num sítio isolado e outro enviou-lhe uma foto de um nu integral, mas nestas vezes Maria terminou o contacto na hora.

Há pouco tempo, decidiu dar nova oportunidade aos encontros online, através da rede social Badoo, seguindo o conselho de uma amiga portuguesa que conheceu o atual marido nesta rede social. Teve um amigo mas a sua postura foi muito mais defensiva.

Apesar de já não usar nenhuma plataforma, ainda paga uma subscrição mensal pelo Parchip, devido a Termos e Condições "que não estavam claros no site"

Meses após o sucedido, já consegue rir destas más experiências. "Tento não me culpar e não ficar deprimida acerca disto". O seu próximo livro terá um capítulo dedicado ao pesadelo que viveu em 2018. Chamar-se-á "In love with a ghost" ("Apaixonada por um fantasma", em português). "Porque eu nunca o conheci", remata.

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