Escolha as suas informações

Tic-Tac. Longe da cura já há ensaios para combater a Covid-19
Sociedade 6 min. 23.03.2020

Tic-Tac. Longe da cura já há ensaios para combater a Covid-19

Tic-Tac. Longe da cura já há ensaios para combater a Covid-19

AFP
Sociedade 6 min. 23.03.2020

Tic-Tac. Longe da cura já há ensaios para combater a Covid-19

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Os testes com humanos já arrancaram na China, mas os especialistas estão numa fase embrionária da fabricação da primeira vacina experimental. Vacina só em 2021, numa altura em que nem as terapias são consensuais.

Não há antídotos nem defesas naturais contra o vírus que provoca "a pneumonia de origem desconhecida" diagnosticada em dezembro na China. Sem controlo, estima-se que entre 60% a 80% da população mundial possa ficar infectada pelo novo coronavírus, com a ameaça de uma segunda fase de quarentena no horizonte. Nem as terapias são consensuais.Vacina só em 2021 com a China, Alemanha e os EUA a avançarem para testes em voluntários.      

AFP

"Pelo menos 18 meses"

Os critérios de segurança apertados e a incapacidade logística dos fabricantes mostram que em menos de um ano o aparecimento de uma vacina contra o novo coronavírus é improvável. Além dos testes de segurança, o antídoto tem de ser licenciado, produzido e distribuído em todo o planeta. Já há luz ao fundo do túnel, mas ainda estamos na primeira das quatro fases essenciais para a produção de uma vacina. Os estudos só avançam se os ensaios em humanos comprovarem a eficiência e a segurança da vacina e se nenhum dos vacinados adoecer. 

Numa segunda fase e consoante os resultados das inúmeras análises a que os  voluntários deverão ser sujeitos para medir a eficácia e os efeitos secundários da vacina, os investigares entram numa fase de optimização. Partem, numa terceira fase para uma espécie de teste final. Mais demorada, a etapa verifica ponto por ponto a efetividade e a segurança da vacina. Antes da produção em grande escala, que por agora nenhum fabricante parece ter condições para assegurar, a vacina tem de ser licenciada. Mesmo depois de produzida naquela que será a quarta fase do processo, tem de ser aceite pelas autoridades sanitárias de todos os países e só depois começa a ser distribuída mediante, ainda, as condições do diferentes sistemas de saúde do planeta. 

AFP

Disputa pelo Mensageiro

A receita das vacinas experimentais chama-se RNA Mensageiro. A molécula "prima" do DNA não é nova. Ativa o sistema imunitário e foi abreviada para mRNA. Com base no material genético do coronavírus, os cientistas criaram células capazes de reproduzir proteínas em forma de espigão. Com "pedaços da doença", a vacina estimula o sistema imunitário e a cria anticorpos, limitando a reprodução do vírus e destruindo as células infectadas. 

Com 108 adultos saudáveis, com idades entre 18 e 60 anos, a fase de ensaio da vacina em humanos arranca na China este mês e só deve terminar no fim do ano. O teste está a cargo dos labotarórios CanSino Biologics que comprovaram que, em animais, a vacina consegue "obter imunidade contra o vírus".

AFP

Só no país que serviu de berço ao vírus que provoca infeções respiratórias severas decorrem outros cem ensaios clínicos. No mês passado, a farmacêutica GlaxoSmithKline Plc anunciou uma parceria com a Clover Biofarmaceuticals para desenvolver outra vacina contra a Covid-19. Alemanha e EUA também se posicionam para testar o antídoto com a chanceler Angela Merkel a acusa o homólogo norte-americano de querer o monopólio da produção da cura, apesar do processo de fabricação da vacina ainda estar numa fase embrionária. 

Se receber autorização, o laboratório alemão BioNTech pode avançar para os ensaios da vacina em humanos em abril. Os testes de efetividade e segurança deverão ser realizados na China e nos EUA, já que a farmaceutica tem parcerias com a Fosun Pharma e com a Pfizer. Os analistas dizem que é a "melhor posicionada na corrida devido à sua plataforma mRNA e capacidade de fabricação". 

B
B
AFP

Do outro lado do oceano, a norte-americana CureVac fabrica vacinas e terapêuticas baseadas em mRNA desde 2006 e desmentiu qualquer pressão para conseguir a exclusividade da vacina que pode travar a pandemia que obrigou o mundo a abrandar e a fechar-se, tanto quanto possível, dentro de portas. Admite porém que, numa reunião com os líderes dos principais farmacêuticas do país, Donald Trump falou na urgência de uma solução antes das presidenciais marcadas para novembro.  

Entretanto, a Casa Branca desmentiu a alegada "disputa pela vacina"  publicada pelo jornal alemão Die Welt e confirmada, inclusivamente, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Heiko Maas, que em entrevista avisou que "os cientistas alemães desempenham um papel primordial no desenvolvimento de vacinas e não podemos permitir que alguém procure a exclusividade dos seus resultados" num contexto agravado pela crise de saúde pública gerada pelo novo coronavírus. 

Correr atrás do prejuízo

À procura de uma solução, a comunidade científica resgatou antigos fármacos recomendados para doenças antigas para controlar a pandemia que continua a infetar milhares em todos os continentes à excepção da Antártida. 

Nos cuidados intensivos ou nas unidades especiais que recebem os doentes seja em hospitais ou hospitais de campanha, o improviso faz-se com medicamentos antigos indicados para casos de malária, ébola, VIH ou hepatite C. 

AFP

Nem as terapias são consensuais, apesar de muitos tratamentos já estarem a ser realizados com sucesso em todo o mundo. Além da Cloroquina, os investigadores estão a testar os efeitos do medicamento das gripes sazonais asiáticas, Favipiravir. O Luxemburgo é dos países eleitos para testar a eficácia do Remdesivir, Lopinavir e Ritonovir. 

Cloroquina

O anti-malárico já existe há mais de 70 anos mas está a ser testado com resultados positivos na China, Irão, Coreia do Sul e Arábia Saudita. Em França também há bons resultados. Altamente tóxica, a substância não funciona em casos graves. Um estudo da Universidade de Marselha diz que "não apresenta um risco-benefício favorável no tratamento". Espanha submeteu três mil pacientes a um ensaio e aguarda os resultados. Dentro de três meses, os investigadores dos EUA também deverão receber o resultado da pesquisa que fizeram com 1.500 voluntários.  

Prós. Os custos são relativamente baixos. Após seis dias de tratamento, em França, apenas 25% dos 24 pacientes testados continuavam infectados com o novo coronavírus. Na China, o vírus desapareceu quatro dias depois do início da terapia aplicada a 100 pessoas. O anti-viral tem efeitos anti-inflamatórios. 

Contras. Em excesso, a substância pode provocar overdose, sobretudo em crianças. Dois gramas podem pôr a vida de um adulto em risco. Não há evidências científicas que comprovem a eficácia da terapia. 

Favipiravir

Usada sobretudo para tratar a gripe sazonal, a fórmula também está indicada para casos de tuberculose, febre amarela ou vírus do Nilo Ocidental. Tal como a Cloroquina é menos eficaz em casos graves. Testado na China, o Favipiravir impede que o vírus se replique no organismo. Conhecido também por T-705 ou Avigan, o medicamento é produzido no Japão pela Toyama Chemical da Fujifilm. 

Prós. Dos 340 pacientes testados nas cidades de Shenzhen e Wuhan, 91% apresentaram melhorias, sobretudo no estado das vias respiratórias. 

Contras. É menos eficaz em casos severos. No Reino Unido, foi administrado a “70 ou 80 pessoas”, mas “não parece ser tão eficaz quando o vírus já se multiplicou”, segundo o ministério da Saúde.  

Remdesivir, Lopinavir e Ritonovir

Num estudo com 3200 pacientes, os medicamentos indicados para a combater a hepatite C e o ébola começaram a ser testados esta semana na Bélgica, França, Holanda, Espanha, Suécia, Reino Unido e Luxemburgo. 

Em entrevista ao Contacto, o conselheiro principal da Organização Mundial de Saúde, Albert Oterhaus, já tinha antecipado que a "a Síndrome Respiratória Aguda Grave pode ser tratada com medicamentos contra a hepatite C". 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Cientistas chineses testam vacina contra a sida em seres humanos
A vacina, designada ADN / rTV, consiste no replicar do ADN de uma parte do vírus, para estimular uma "imunização efetiva" contra este, explicou Shao Yiming, um dos pesquisadores do Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças, citado pelo jornal oficial em língua inglesa China Daily.