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Thai Chicken Soup de saltos altos
Opinião Sociedade 4 min. 19.11.2020

Thai Chicken Soup de saltos altos

Thai Chicken Soup de saltos altos

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 4 min. 19.11.2020

Thai Chicken Soup de saltos altos

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Quando aluguei pela primeira vez casa própria e passei a viver sozinha, dormia todos os dias com a minha vizinha de baixo. E antes que julguem que se trata de um texto politizado e de reparo ao discurso venturizado do verdugo, garanto-vos que podem afrouxar o dedo no gatilho dos comentários. Crónica de Filipa Martins.

No máximo, poderão encontrar aqui uma ou outra crítica implícita ao Sistema Nacional de Saúde, alheio à epidemia de apneia do sono, ou uma sóbria ironia sobre uma certa incompetência da engenharia civil no isolamento dos pavimentos. É, afinal, sobre roncos que escrevo.

Por romantismo pueril, sempre levei muito a sério a vontade crescente de viver numa casa com pátina e um chalé novecentista em zona histórica, mesmo que partilhado devido à crise e à precariedade da profissão, era a habitação ideal. Cada portada empenada, puxador moído e lasso, bocado de estuque a descoberto, torneira pingona eram motivo de pulinhos de comentador de política em dia de debate: maleitas de uma casa com história, rapidamente deitadas para trás das costas, mal a senhoria garantiu que entre aquelas paredes tinha vivido a aia da Rainha Dona Carlota Joaquina. Se a criada fosse tão desabrida como a senhora – que, ditam os livros, sofria de ninfomania - ali também teria fornicado o monarca, que não sabia resistir aos encantos de serviçais. Dormiria, portanto, em leito real, concluí.

Depois de dois meses de felicidade ingénua, a perfeição esfumou-se. Apetrechada de caixotes transbordantes, com pernas de pelúcia a sobrar das bordas, reminiscências de uma infância longínqua e mal resolvida, outros quantos bonecos decepados, uma coleção de bricabraque e vários fatos de treino roxos com listagens verdes e outros verdes com listagens roxas, uma senhora corpulenta ocupou o andar de baixo do chalé.

Os horários desencontrados pouparam-me durante semanas à discografia completa dos Abba. Era no escuro da noite que nos incompatibilizávamos, com o som dos roncos a atravessarem o soalho e a vibrarem na minha cabeceira. O cérebro teimava em não se deixar levar no vai e vem da respiração e até adotei a velha técnica dos algodões nos ouvidos como medida de gestão de crise. Dupla almofada sobre a cabeça. Auscultadores. Leituras de cabeceira. Não havia mezinha que me abstraísse. A vizinha, que se deitava à hora nórdica, nuns dias parecia-me um escape de uma mota, noutros assobiava como uma velha locomotiva.

Passei a macetar o chão com os saltos, nunca modestos, apurando o refogado ou escovando os dentes sobre plataformas de dez centímetros. O toque-toque acordava-a. Só voltava ao sono depois de eu me ter entregado ao meu.

(Eu juro que parto os saltos dos sapatos da gaja!)

Rezavam, assim, os telefonemas que fazia em tom de desabafo estridente para a mãe, proprietária de um restaurante e com boa mão para pregos, coxas de galinha e ensopados, alojados nos glúteos da filha à passagem da puberdade. Reação intempestiva e inconsequente, pensei. A ameaça, porém, horrorizou-me e, de olhar caído sobre a sapateira, decidi mudar de estratégia.

Para além das perturbações no sono, vi alterados os meus hábitos de consumo de livros. O caso foi tão grave que comecei a encontrar em mim um impulso inconsciente para avaliar o peso de cada obra literária antes do ato da compra. Cheguei a deixar na prateleira da Bulhosa um título da nova coleção de livros de bolso da Leya, preterido por 477 páginas de receitas da cozinha tailandesa de capa dura. Só voltei a ter uma noite tranquila, quando recebi a visita de um vendedor da enciclopédia Larousse. Garanto que dois ou três volumes deitados ao chão com perícia são capazes de acordar ursos pardos em período de hibernação. E, por fim, um pouco de silêncio.

Com o tempo, as pernas de pelúcia a sobrar das bordas dos caixotes, reminiscências de uma infância longínqua, outros quantos bonecos decepados, a coleção de bricabraque e os fatos de treino roxos com listagens verdes e outros verdes com listagens roxas foram arrumados nas traseiras de uma carrinha de mudanças. O final do verão levou a vizinha e o outono trouxe-me um casal jovem e ativo sexualmente. Ele entroncado e depilado; ela capaz de aguentar uma noite em claro. Os sons que atravessavam o soalho eram próprios de quem se teria casado anteontem. Ao sábado, com uma precisão de relógio suíço, passei a levantar-me ao terceiro orgasmo para tentar fazer uma Thai Chicken Soup do meu livro de receitas. Depois das duas da tarde, regressava o silêncio.

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