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Teresa, a mulher que usa a dança para viver em paz com o VIH
Sociedade 8 min. 18.06.2022
Sida

Teresa, a mulher que usa a dança para viver em paz com o VIH

Sida

Teresa, a mulher que usa a dança para viver em paz com o VIH

Sociedade 8 min. 18.06.2022
Sida

Teresa, a mulher que usa a dança para viver em paz com o VIH

Ana Patrícia CARDOSO
Ana Patrícia CARDOSO
Teresa convive com o vírus VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) há mais de uma década. Enquanto mulher, quer que se saiba como este é ainda um assunto pouco explorado pela perspetiva feminina e como a dança pode ser difusora de conhecimento e um processo de cura.

Teresa Fabião tem um manual de "boas práticas" para falar da trajetória com o vírus (prefere 'vih' e propositadamente em minúsculas para suavizar o peso que lhe é associado). Não gosta de falar em doença – antes numa condição de saúde – ou de se descrever como seropositiva. As escolhas das palavras importam e esta dançarina, de 39 anos, teve tempo para saber exatamente como gosta de explorar o assunto.

Agora que dou a cara, e faço-o há um ano e meio, há também a objetificação no sentido de assumir que, porque tenho VIH, então devo ir com qualquer um.

Teresa Fabião

São 11 anos desde o diagnóstico positivo, após um check-up, em Salvador, na Bahia. Mais de uma década em que sentiu raiva, tentou negar, procurou ajudas alternativas, recusou-se a tomar medicamentos, começou a terapia, aceitou a sua história e transformou-a num propósito de vida, canalizado através da paixão pela dança que tem desde os seis anos.

O seu último projeto, "Imune", acaba de ser contemplado pelo Programa "PARTIS & Art for Change" da Fundação Gulbenkian, e irá desenvolver-se ao longo de três anos, no Porto. O espetáculo UNA, parte integrante do Imune, estreou recentemente no Festival Mindelact (Cabo Verde) e contou com o apoio da Fundação Gulbenkian, Fundação GDA, CAMPUS/ Rivoli.

O "Imune" explora o vírus como motor de transformação social e coloca pessoas VIH+ e VIH- em diálogo, no sentido de investigar como a expressão corporal/processo criativo em dança pode desenvolver competências de cidadania. Para Teresa, é também muito pessoal. "Neste espetáculo, falo da fase em que descobri o diagnóstico positivo, com 28 anos, depois de uma relação sexual desprotegida".

Teresa descobriu o diagnóstico positivo com 28 anos.
Teresa descobriu o diagnóstico positivo com 28 anos.
Foto: João Barbosa

"Estava desequilibrada, num ritmo louco. Cheguei ao Brasil, as portas abriram-se e estava a viver o meu sonho. Chegava a fazer um curso profissional de manhã; à tarde, o mestrado, e passava a noite a ensaiar. Estava numa espiral e o diagnóstico foi um 'acordar'. Para o bem e para o mal, a vida teria sido muito diferente e, se calhar, não teria descoberto este propósito que tanta gente não tem".

Nos primeiros dois anos e meio, não tomei a medicação [antirretroviral]. Fui pelo mundo (Amazónia, África, etc.) em busca de curas alternativas. Não me arrependo de nada, aprendi tanto sobre alimentação, auto-cuidado, terapias. Mas chegou um momento em que fui abaixo e tive de recorrer aos antirretrovirais.

Mas, antes da aceitação, Teresa viveu o que "qualquer pessoa sentiria", diz, um período de dor. "Eu também era muito ignorante, achei que ia morrer, nunca me tinha cruzado com o vírus. É uma dor forte. A primeira vez que pensas numa questão que pode estar perto de ti, ela já está dentro de ti".

Atravessou um período de busca pessoal que não passou pelo tratamento convencional. "Nos primeiros dois anos e meio, não tomei a medicação [antirretroviral]. Fui pelo mundo (Amazónia, África, etc.) em busca de curas alternativas. Não me arrependo de nada, aprendi tanto sobre alimentação, auto-cuidado, terapias. Mas chegou um momento em que fui abaixo e tive de recorrer aos antirretrovirais".


Micrografia electrónica de vários agentes patogénicos do VIH num paciente.
Organismo de paciente terá erradicado vírus da Sida de forma natural
"Combinação de diferentes mecanismos imunitários" pode estar na origem deste feito que impediu naturalmente que o VIH se replicasse, afirmaram os investigadores. Este é o segundo caso inédito no mundo.

Mulheres com VIH

Foi também nesta altura que se apercebeu da falta de apoio e de informação que existe para uma mulher jovem com diagnóstico positivo. E este é um ponto que Teresa faz questão de reforçar: "E nós? Senti-me muito sozinha, estava sem referências. Só encontrava homens brancos, gays, não me identificava com o seu contexto. Foi aqui que comecei a fazer terapia também".

Em 2011, os conteúdos de pesquisa na internet "eram nulos e nunca incluíam mulheres". A dançarina sente que acompanhou toda a evolução nesse aspeto. "Só em 2014 e 2015 é que comecei a encontrar outros testemunhos femininos que eram jovens, saudáveis, bonitas, sonhadoras e é aqui que começo a acreditar que é possível para mim". 

Apesar de encontrar apoio nos seus pares, a questão da falta de investimento em investigação sobre o 'vih' na mulher continua a ser motivo de revolta. 

"Nunca me cruzei com um estudo feito exclusivamente com mulheres. É chocante e uma vergonha. Décadas de pesquisa focada nos homens. Ainda nos debatemos para nos incluírem nos estudos realizados maioritariamente para o corpo masculino. Sabemos que existem diferenças fisiológicas. Nem se trata apenas da questão reprodutiva, até porque, para mim, essa nem é a questão. O corpo da mulher é tão complexo, dinâmico e cíclico, mas, no entanto, não é incluído nas pesquisas, sei lá, por falta de vontade de investimento ou mesmo pelo estigma ainda presente".

Esta sociedade judaico-cristã, que coloca a mulher num lugar de extremos 'ou é santa ou é puta', torna-se um peso gigante.

Estigma esse que já presenciou de várias formas, em relação a si ou a outras companheiras. "Na pesquisa para o UNA, por exemplo, falei com várias pessoas positivas que se infetaram das formas mais improváveis. Conheci uma freira no Brasil que não tem a certeza, mas talvez tenha sido à 'maneira antiga', como costumamos chamar, durante uma colonoscopia. É muito violento. Há diversas situações assim e as pessoas não têm noção".

E, não só não têm essa perceção, como encaram uma mulher positiva com muito preconceito, sobretudo em Portugal. Teresa viveu isso quando regressou ao país. "Esta sociedade judaico-cristã, que coloca a mulher num lugar de extremos 'ou é santa ou é puta', torna-se um peso gigante. Tenho um diagnóstico positivo porque não fui santa, logo, sou o quê, podes imaginar?". E há outros comportamentos, que permanecem mais nas entrelinhas. "Agora que dou a cara, e faço-o há um ano e meio, há também a objetificação no sentido de assumir que, porque tenho vih, então devo ir com qualquer um".

Como se responde à falta de respeito? "Ando a aprender uma nova ferramenta, a ironia. E também a 'verdade como um escudo', uma filosofia importante. Isto faz parte do pacote, diria assim. A partir do momento em que deixei de fugir, como nos primeiros anos, mas a olhar de frente, a curar em mim o que podia curar e a assumir que esta identidade faz parte [de mim], as coisas começaram a ficar mais leves". 

Mesmo quando se envolve com alguém, Teresa não foge a conversas difíceis. "Conheces uma pessoa quando estás solteira e começa a haver a possibilidade de intimidade, tu contas, claro, mas com outra confiança. Até porque, hoje em dia, tomo a medicação, tenho a certeza que não contagio [ninguém]. Logo, não só conto com paz de espírito, como faço um check-up de seis em seis meses. Por isso, não estou 'na roleta russa' e, se quiseres, sou a Teresa mais segura que vais conhecer", diz, entre risos. "Agora, as mulheres com vih sabem que podem ter filhos, podem amamentar, podem ter uma vida como outra mulher, vamos espalhar essa mensagem".

"A doença dos outros"

Teresa tenta passar este empoderamento em relação ao vírus, mas depara-se constantemente com um desconhecimento generalizado que a preocupa. "O vih ainda é muito visto como a doença dos outros e esses outros são homens. Nasci em 1983, em que já se vivia a fase tenebrosa do vírus, em que era uma espécie de papão. Mas isso tem dois caminhos. Por um lado, havia a dimensão do medo, claro. Por outro, ao menos falava-se", diz. 

"Agora, o mais grave, é que não há diálogo. Da minha experiência, ao participar em palestras com adolescentes, muitos não sabem sequer o que é o vih, nunca tinham ouvido falar. Há um estudo da Universidade Nova de Lisboa, "Jovens e Educação Sexual: Conhecimentos, Fontes, Recursos", em que se conclui que 55% dos adolescentes atualmente numa relação sexualmente ativa não usam sempre o preservativo. Isto é grave e só reforça a importância de reacendermos o diálogo sobre o vih". 

De acordo com a UNAIDS (Programa das Nações Unidas), existem no mundo 37,7 milhões de pessoas com o vírus. Portugal apresenta uma das taxas mais elevadas de infeção da Europa Ocidental (0,6%), com cerca de 61.500 pessoas VIH+.

'Artivismo'

O diálogo sobre o vírus pode abarcar várias linguagens. A de Teresa passa, sobretudo, pela dança. "Assim que aceitei o diagnóstico, reforcei o uso da dança como união e valorização das nossas diferenças. Primeiro, parte do corpo e o vírus está lá. É algo que se passa a nível terapêutico e pode ajudar a integrar os pedaços de uma identidade fraturada pelo diagnóstico. Também expressamos coisas que ainda não sabemos verbalizar", diz. 

No UNA, Teresa enfrentou a raiva pela primeira vez. "Deixei-a atravessar-me, a raiva de saber, da pessoa que me infetou, a raiva ancestral, de como uma mulher é tratada, juntei tudo". E é algo que não guarda apenas como uma experiência pessoal. "Parte do caminho da minha cura é trabalhar com outras pessoas que vivam com esta condição de saúde. Curamos juntos."

Oportunidade para ajudar

Teresa criou uma campanha de crowdfunding (IMUNE l dança, comunidade & artivismo) para, segundo a mesma, "onde as pessoas podem sentir-se parte desta criação e contribuir para passarmos ao trabalho com a comunidade. O  objetivo desta Campanha é fazer o lançamento do IMUNE, reunir condições para levar estas ações a uma primeira localidade. Os fundos serão utilizados para implementar o projeto como um todo (equipe, espaços, materiais, logística)". Qualquer quantia ajuda o projeto. 


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