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Tenho a mala pronta
Opinião Sociedade 3 min. 25.12.2020

Tenho a mala pronta

Tenho a mala pronta

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Opinião Sociedade 3 min. 25.12.2020

Tenho a mala pronta

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Há vinte e sete anos que me tocas no joelho esquerdo com a mão suada, para a afastares quando algum olhar se atrasa em nós. Quando fugirmos, não precisarás de tirar a mão. Uma cronica de Filipa Martins.

Já largámos as fardas da escola e as guloseimas em papel metálico, que desfazias em estalos na língua. Não uso soquetes de renda ou dou impulso nos baloiços, desejosa de que o vento me levante a saia. Naquela idade, o amor era sempre secreto, ainda que os beijos fossem dados entre o bar e o gradeamento das motas, à vista do loiro do blusão de couro difícil de enciumar. Agora, apanho o 28 para a Estrela e tu aguardas o papel da junta médica. Tiro os vincos da saia, com o alisar da mão, sentada no elétrico, e tu lês a A Bola no jardim agarrado à bomba da asma. Combino os horários com a miúda nova da retrosaria, que me tem respeito e não se importa de almoçar mais tarde, e tu pedes uma meia-de-leite clarinha, sem açúcar, ao balcão, que bebes num trago entre caretas e o esvoaçar dos patos.

A diabetes está controlada, mas não podes abusar. Encolhes os ombros aos meus conselhos, contas o tempo. A médica renovou-te a baixa e a tua mulher, enfermeira, termina o turno às seis da tarde. És professor. Professor é daquelas profissões que somos sempre, mesmo que ‘deixemos de exercer’. Assim falas tu: ‘deixei de exercer’. Sentes-te cansado para ensinar. Até falar te cansa. Por ti, só respondias com acenos e entretinhas os olhos com os títulos do jornal.

Ocupo o teu silêncio. Suspiro por eleições. Chamas-me provinciana. Nas eleições, há sorteio de eletrodomésticos da junta. Costuma-se dizer: ‘azar ao amor…’. Tu não acreditas nos ditos do povo. Suspiro por eleições, mas podia suspirar por ti.

‘Quando fugirmos, Madalena’, dizias-me. Agora, arfas na bomba da asma. Estou pronta. Tenho a mala pronta. Aconcheguei saquinhos de lavanda à roupa, por causa do cheiro que os vestidos ganham quando estão fechados muito tempo. No ano passado, houve uma praga de traças, mandei fora os saquinhos de lavanda, troquei por bolas de naftalina. Cheiram pior, mas são mais eficazes. Às vezes, à noite, ajoelho-me e arrasto de debaixo da cama a mala, digo para mim que é para deixar respirar as roupas, mas a verdade é que é só para olhar para elas. Tenho roupa de inverno e de verão dentro da mala. Ainda não sabemos se vamos fugir para o calor ou para o frio. Eu prefiro o calor, mas o calor é pior para a tua asma.

Tens as costas curvas, sobrancelhas demasiado juntas, a pele cheia de borbulhagem. Revemos os detalhes da fuga. Há vinte e sete anos que me tocas no joelho esquerdo com a mão suada, para a afastares quando algum olhar se atrasa em nós. Quando fugirmos, não precisarás de tirar a mão. Em cada miúdo que passa, vês o chapéu de pala do teu mais velho e estremeces. Mostras-me folhetos de férias com pelicanos desbotados nas pontas e avisas ‘Não contes a ninguém, Manuela’. Em vinte sete anos, nunca contei.

Marcamos o dia da fuga, sem te confessar que os pelicanos e os gansos e tudo o que tem penas me causam tremores. No dia combinado, não me atraso. Revemos os detalhes. Mostras-me os folhetos dos pelicanos, as promoções de voos da TAP em escudos, ainda a empresa dava pouco prejuízo. Não nos demoramos com palavras. O 28 aparece na curva. Tenho de ir. A miúda nova da retrosaria ainda não almoçou. Tem respeito por mim. Mas tu entendes, já largámos as fardas da escola. Nesta idade, o amor não é secreto. Tive a impressão de que acenaste da paragem. Estou pronta. Tenho a mala pronta. Vai fazer vinte sete anos que tenho a mala pronta.  

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