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Temos obrigação de deixar os filhos aborrecidos
Opinião Sociedade 3 min. 16.11.2022
Andamos todos ao mesmo

Temos obrigação de deixar os filhos aborrecidos

Opinião Sociedade 3 min. 16.11.2022
Andamos todos ao mesmo

Temos obrigação de deixar os filhos aborrecidos

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
Colo. Proteção. Mimo. Educação. Alimentação. Segurança. Conforto. Valores. Há muitas coisas que podemos colocar no cesto das prioridades quando botamos um filho no mundo.

Colo. Proteção. Mimo. Educação. Alimentação. Segurança. Conforto. Valores.

Há muitas coisas que podemos colocar no cesto das prioridades quando botamos um filho no mundo. Ao longo do percurso de vida em que uma criatura indefesa está dependente de nós e debaixo da nossa asa – e este é um conceito que se pode arrastar por muitos anos –, são imensas as variáveis que temos de controlar para garantir a sobrevivência e crescimento harmonioso daquele ser.

E embora educar um filho num país desenvolvido não seja o mesmo que protegê-lo da morte na África subsaariana, a verdade é que a modernidade e a evolução do mundo fizeram de nós os pais mais bem preparados da história.

Lemos muito. Sabemos muito. Conversamos muito. Ouvimos muito. Pesquisamos muito. Procuramos muito. O facto de não termos de caçar para alimentar a família ou de trabalhar 16 horas por dia com um soldo miserável contribui muito para este privilégio que é ter filhos e vê-los crescer em segurança num país ocidental.

Até aqui, nada de novo...

Mas, algures ao longo da evolução da humanidade e da parentalidade, e com tanto estímulo ao nosso alcance, começámos a perceber que, da mesma forma que uma criança pode brincar com tudo e mais alguma coisa se não tiver muito com que se entreter, também se pode aborrecer por tudo e por nada se tiver muito para onde se virar.

Bom, isto também não é novo. Quanto mais se tem, mais se quer, e por muito que tentemos ensiná-los a não serem ingratos, a verdade é que eles são mesmo capazes de dizer que estão aborrecidos porque não têm nada para fazer. Chateados e entediados depois de terem brincado com o telemóvel, depois de terem visto um filme no tablet, depois de terem feito zapping nos 17 canais infantis que têm disponíveis, depois de terem feito um puzzle, depois de terem lido um capítulo do livro, depois de terem brincado com a boneca nova ou o carrinho novo. Chateados e entediados porque ainda faltam vinte minutos para o que quer que seja e isso é uma eternidade que eles não conseguem preencher com alguma atividade. E por isso precisam de nós.

Talvez as viagens de carro sejam o exemplo mais paradigmático desta terrível maleita que os faz suspirar de tédio quando não têm novos estímulos. Há dias disse à filha mais nova (8 anos), quando ela se queixou de nada ter para fazer no banco de trás da viatura enquanto seguíamos pela autoestrada, que contar árvores ou candeeiros, procurar letras nas matrículas dos outros carros ou tentar identificar formas nas nuvens era, também, uma forma de passar o tempo.

Senti-me meio parvo por estar a dizer aquilo. Caramba, ela sabe. Mas às vezes sinto que é mesmo necessário fomentar essa necessidade grande de se aborrecerem. De ficarem com a neura porque não há nada que lhes interesse nos minutos seguintes. De terem mesmo de procurar o que fazer para se entreterem. Não sei se isso lhes fortalece o carácter e se funciona como dínamo para personalidades mais inventivas, mas sei que é bom podermos dar-nos ao luxo de termos filhos que se aborrecem. É sinal que está tudo bem na pirâmide de prioridades. E se calhar devíamos forçar isso mais vezes. Mal não lhes deve fazer...

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