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Super Saturday- Os restaurantes de Little Portugal também abrem em Londres
Sociedade 7 10 min. 06.07.2020

Super Saturday- Os restaurantes de Little Portugal também abrem em Londres

Super Saturday- Os restaurantes de Little Portugal também abrem em Londres

Sociedade 7 10 min. 06.07.2020

Super Saturday- Os restaurantes de Little Portugal também abrem em Londres

Regina NOGUEIRA FERNANDES
Regina NOGUEIRA FERNANDES
Um pouco por todo o Reino Unido, restaurantes, bares e pubs voltaram a abrir este sábado, agora conhecido como Super Saturday, depois de Boris Johnson ter incentivado os britânicos a cumprir o seu “dever patriótico” regressando aos pubs. Em Stockwell, em Londres, a comunidade portuguesa também regressou, mas com cautela.

 O dia amanheceu cinzento em Stockwell, o bairro mais português de Londres. É o primeiro sábado de julho, mas o verão teima em chegar e hoje chove. Nada que impeça os locais de aproveitar as esplanadas da zona, naquele que é já chamado de Super Saturday: o primeiro dia em que os cafés, pubs e restaurantes voltam a poder estar abertos ao público em Inglaterra, depois de três meses de lockdown.

Para já, as coisas estão calmas no restaurante Três Leões, na South Lambeth Road, em Stockwell. É hora do almoço, mas os clientes de José Albuquerque, um dos sócios, tardam a chegar. São em grande maioria portugueses - só neste bairro, carinhosamente apelidado de “Little Portugal”, estima-se que vivam mais de trinta mil.

“Trabalhámos bem, mas estava à espera de mais movimento”, diz, “hoje abriu muita coisa, deve haver gente ainda na fila do cabeleireiro a preparar-se para logo”, brinca. 

Não é caso para menos: este fim-de-semana cafés, pubs, restaurantes, mas também hotéis, cinemas e museus voltaram a abrir um pouco por todo o Reino Unido. A decisão reflecte o desejo do governo britânico de reanimar a economia: o número de reprodução R continuar abaixo do um e a quantidade de entradas nos hospitais continuar a cair, ajudou.

Há quatro semanas, estimava-se que a prevalência do coronavírus fora dos hospitais seria de 1/400. Hoje, esse número é de 1/1700.

Para José, a decisão foi fácil: voltar, mas com cuidado. Para além da placa de acrílico em frente ao balcão e do distanciamento entre as mesas, a equipa do Três Leões usa máscaras, apesar de não ser obrigatório. José, que trocou Mangualde por Londres há vinte e seis anos, considera esta medida essencial para a segurança dos seus empregados, mas também para “ganhar a confiança” dos clientes. 

A redução do número de mesas parece ser o maior problema. Para além das que tiveram de ser retiradas, José está preocupado com a regra de apenas se poderem juntar dois agregados na mesma mesa: “condiciona-nos muito. Para o jantar de hoje, por exemplo, tivemos pedidos de reservas suficientes para encher três restaurantes. Tivemos de dizer não a muitos clientes”.

Adaptar o espaço para as novas normas foi relativamente fácil, se José as comparar com a mais complicada tarefa de convencer os seus clientes a cumpri-las. “As pessoas não respeitam. Já tive de chamar alguns clientes a atenção. Não é por mal geralmente, é por esquecimento. Tenho de lhes explicar que ou cumprem ou tenho de fechar o negócio.”

Também para Paula, que toma conta de uma pastelaria na mesma rua, esse é um desafio: “fazemos os possíveis para evitar o contacto com os clientes, não servimos às mesas, por exemplo, e criámos distância junto ao balcão, mas há pessoas que não entendem”. 

Apesar de tudo, Paula está feliz por voltar ao trabalho: “eu precisava deste contacto com o público. Nós fechamos durante os primeiros meses, mas já há algumas semanas que estávamos abertos para takeaway. Só que não é a mesma coisa - é um stress ter de servir um café a despachar porque a pessoa não se pode sentar e tem de lá ir para fora. Não funcionou muito bem”, explica. 

“Já tinha saudades desta normalidade, de partilhar, de falar com as pessoas. Até agora o dia tem sido bom. Temos tido muito boa aceitação, talvez melhor do que estávamos à espera. Acho que as pessoas também tinham saudades nossas, do nosso serviço.” 

O regresso aos pubs

Inicialmente, os conselheiros científicos propuseram dois modelos de desconfinamento distintos: uma reabertura faseada ou estilo big bang, com vários sectores da economia a regressar ao mesmo tempo, que acabou por ser o preferido.

Assim, Boris Johnson anunciou o Super Saturday como o fim da “grande hibernação nacional” e, concordando com um deputado conservador, encorajou os britânicos a cumprirem o seu “dever patriótico” e a voltar em força aos pubs. Esta posição e a escolha do dia foram, entretanto, muito criticados por diversos sectores da sociedade.

John Apter, presidente da Federação da Polícia, disse em comunicado: “o anúncio do relaxamento de medidas foi feito de tal maneira que se criou uma onda de entusiasmo vista por alguns como a contagem decrescente para o dia de festa, que era precisamente a mensagem a evitar”

Para além do eventual aumento da disseminação do vírus, a polícia inglesa está preocupada com o consumo excessivo de álcool, naquela que é vista como a primeira noite de liberdade depois de três longos meses de confinamento. O Mayor da cidade de Manchester, Andy Burnham, considerou a decisão de reabrir o comércio a um sábado de “incompreensível” e acusou o governo conservador de criar uma enorme pressão desnecessária sobre as estruturas locais, ao instigar multidões a dirigir-se aos pubs.

Nas últimas duas semanas, em todo o Reino Unido, milhões de pessoas marcaram mesas e fizeram planos de voltar aos pubs. E até a gigante loja de roupa ASOS lançou uma campanha de marketing para incentivar os clientes a renovar o guarda-roupa em antecipação da reabertura. Este sábado, voltaram mesmo: os centros das cidades um em toda a Inglaterra encheram-se de gente ansiosa para beber o primeiro pint em três meses.

No entanto, apesar das imagens de multidões um pouco por todo o país, tirando alguns estabelecimentos fechados e detenções em certas zonas do país, a noite correu sem grandes distúrbios. O secretário para a saúde, Matt Hancock, já veio dizer que foi bom ver as pessoas na rua outra vez, “na sua grande maioria respeitando o distanciamento social”.

Apesar das novas regras, a Night-Time Industries Association estima que cerca de 30% dos bares, pubs e restaurantes permaneçam ainda fechados, por não terem as ferramentas necessárias para implementar as regras de distanciamento social. O presidente da Campaign for Real Ale, Nik Antona, considera que as novas regras não são objectivas e acusa o governo de Boris Johnson de não dar as certezas necessárias para que as pessoas possam reabrir os seus negócios com confiança.

Pedro Gonçalves é um deles. O Grelha D’Ouro, um restaurante de comida tradicional portuguesa, ainda tem grades a cobrir as janelas. Lá dentro, Pedro dá conta dos últimos detalhes das obras que aproveitaram para fazer e entretém-se, também, a reparar motos antigas, já que agora tem o espaço para o fazer. O medo de um novo lockdown e das multidões do centro de Londres levaram a gerência a adiar a abertura, apesar das directivas do governo de Boris Johnson.

“Preferimos não nos precipitar. Já poderíamos ter tudo pronto, mas ainda assim resolvemos não abrir. Falámos com os nossos clientes e, neste momento, sentimos que a maioria ainda tem receio de sair para espaços interiores. Estamos fechados desde Março. É difícil, claro: há renda, contas para pagar. Mas se abrimos a casa e os clientes não vêm, como é que vamos sequer conseguir pagar o salário aos nossos funcionários?”

“Para além disso, com a redução do número de mesas a que iriamos ser obrigados, não nos compensa em termos monetários”, conta. 

“Acredito que pastelarias ou lojas que vendam bebidas para fora consigam facturar o suficiente para pelo menos pagar as despesas, mas para um estabelecimento com a nossa estrutura, com a quantidade de staff que temos e que queremos manter, seria impossível.”

Pedro emigrou com a família para o Reino Unido há cinco anos e agora ajuda o cunhado a gerir o negócio: “esta sala, por exemplo, que normalmente tem capacidade para trinta pessoas, passa a poder levar cinco ou seis. Não compensa nem aos patrões, nem ao staff, que teria uma redução do horário de trabalho. Estou desgostoso, mas prefero ter a equipa toda a trabalhar o dia inteiro, do que pedir-lhes que venham uma ou duas horas por causa de meia dúzia de clientes, não é justo”.

Os empregados, por agora, estão todos em casa com 80% do salário garantido pelo estado britânico, mas com vontade de recomeçar. “Queremos todos voltar ao normal, mas não vale a pena pormo-nos em risco por trocos. Queremo-nos proteger a nós, aos nossos trabalhadores e aos nossos clientes.”

José de Sousa, dono do Machico Tapas Bar, também em Stockwell, preferiu manter-se aberto só para takeaway, como tem feito desde que o lockdown começou. “O café é pequeno. Com o espaço que teria de ter entre as mesas, e empregados para aqui estar, não valia a pena.”

José, que deixou a Madeira para ir para Inglaterra em 1976, fundou o negócio há vinte e três anos. Não utiliza nenhuma aplicação de entrega de comida nem tem criou um website. Vive de clientes habituais, da zona. Nunca teve tanto tempo fechado. Ainda assim, não tem planos para reabrir: “Prefiro manter-me assim, que não me preocupo, e sempre vai dando. Não é muito, já tivemos de mandar pessoas embora, mas prefiro esperar até isto melhorar”.

A contrastar, apenas algumas portas à frente, a esplanada do Estrela Bar está cheia. Michael, o filho dos donos, já nasceu no Reino Unido, mas fala um português quase perfeito.

“Resolvemos abrir a 100% para testar. Inicialmente tivemos algum receio que as pessoas quisessem esperar uma semana ou duas antes de sair ou que tivessem pouco dinheiro para gastar em restaurantes, mas estamos a trabalhar bem”

“Há movimento sim, mas nada comparável com o normal para esta altura do verão. Num dia normal, a esta hora haveria fila lá fora”, lembra. Ainda assim, não lhe faltam fregueses. Com o restaurante a operar desde março exclusivamente em regime de takeaway, a reabertura foi bem-vinda.

“Dava mais ou menos para cobrir as despesas, mas não tínhamos lucro nenhum. O nosso objectivo foi mais tentar manter os nossos clientes habituais, mas não nos teríamos conseguido aguentar muito mais tempo. Temos muitas despesas. Só empregados temos onze”, diz. 

Os funcionários, alguns com vinte anos de casa, estiveram em casa a receber 80% do salário pago pelo governo britânico até ontem. Para manter as encomendas para fora, só Michael e um cozinheiro davam conta do recado. Hoje, abriram com a equipa completa e em horário normal. No entanto, Michael admite que talvez seja necessário reduzir as horas do seu staff: “estamos a tentar perceber se compensa estarmos abertos e em que moldes”. Com as novas medidas de segurança, perderam-se algumas mesas tanto no restaurante como no espaço exterior. 

Para já, instalaram protecções de acrílico a volta do balcão e as já habituais estações para desinfecção das mãos, mudaram a disposição das mesas e implementaram o sistema “Track and Trace” - este último, faz parte do conjunto de directivas das autoridades de saúde e pretende que estabelecimento comerciais como cafés, bares, pubs ou restaurantes recolham os dados pessoais dos seus clientes, como nome, número de telefone e morada, para que possam ser contactados em caso de contágio. 

As medidas, conta Michael, têm sido bem recebidas: “é para o bem de todos. As pessoas tentam entender e são poucas as que resistem. Acho que havia um grande desejo de voltar à normalidade, o que quer que essa nova normalidade seja, e toda a gente está disposta a adaptar-se”, explica. “O mais difícil é mesmo lembrarem-se que não podem beber copos ao balcão.”

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