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Suicídios entre adolescentes nos EUA disparam após série da Netflix

Suicídios entre adolescentes nos EUA disparam após série da Netflix

Foto: Netflix
Sociedade 7 min. 03.05.2019

Suicídios entre adolescentes nos EUA disparam após série da Netflix

Investigadores estão preocupados com o impacto das novas tecnologias, internet e redes sociais no comportamento dos jovens.

Nos EUA, o número de rapazes entre os 10 e 17 anos que decidiu colocar termo à vida cresceu 30 por cento, no mês de estreia da série "13 Reasons Why", da Netflix. Ao mesmo tempo no Reino Unido há quem fale numa "geração suicida", onde se culpam as redes sociais pelo fenómeno que está a aumentar. A exceção parece ser o Luxemburgo.

Pode uma série televisiva de ficção influenciar de tal forma os adolescentes ao ponto de os conduzir à morte, de os levar a tirar a própria vida, em pleno século XXI? Os investigadores que analisaram os dados sobre o suicídio de jovens, nos Estados Unidos, garantem que não podem estabelecer uma relação direta, mas observaram que no mês da estreia desta série da Netflix, "13 Reasons Why", em abril de 2017, o número de rapazes entre os 10 e os 17 anos que colocaram termo à vida aumentou 30 por cento. Segundo as contas dos especialistas, este foi o maior aumento dos últimos cinco anos. 

A série aclamada pela critica, é protagonizada por uma rapariga adolescente que, em cada um dos 13 episódios da primeira temporada, aponta uma pessoa e uma razão para se ter suicidado, no total 13. Apesar disto, os investigadores realçam que o aumento de suicídios que se verificaram nos EUA ocorreu entre rapazes. 

No estudo, publicado esta semana no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, os resultados revelam que ao longo dos nove meses seguintes à série se registaram 195 mortes a mais por suicídio nessa faixa etária, mais do que o estimado tendo em conta os anos anteriores. 

"A juventude pode ser particularmente suscetível ao contágio suicida", alerta Jeff Bridge, o principal autor do estudo, que explicou que o contágio pode ser estimulado por histórias "sensacionalistas" ou que "promovam explicações simples do comportamento suicida, glorifiquem ou romantizem a pessoa que pratica tal ato". Para Jeff Bridge este efeito de imitação pode não ser mais do que se apresentar como "um meio para se atingir um objetivo ou ensinar como se pode morrer por suicídio".

A equipa analisou dados entre janeiro de 2013 a dezembro de 2017 do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, referentes a vítimas com idades compreendidas entre 10 e 64 anos.  

Mas no estudo também salta à vista o facto de este aumento de casos só se ter verificado durante a primeira temporada. Aliás, os dados revelam que  que no ano seguinte, entre os adolescentes que acompanharam a segunda temporada de "13 Reasons Why", ocorreram muito menos casos de automutilação, pensamentos suicidas e tentativas de colocar termo à vida. Por isso, os investigadores reiteram que pode não haver uma relação direta entre a série e os suicídios.

Mesmo assim, e perante os resultados do estudo, a Netflix já veio a público dizer que "este é um assunto extremamente importante" e que tudo tem feito para garantir que irá lidar "com o tema sensível de maneira responsável".  A plataforma de streaming encontra-se neste momento a preparar a terceira temporada da série. 

"Geração suicida"

Segundo dados citados pela revista Time, nos últimos anos, as taxas de suicídios entre jovens têm vindo a aumentar em quase todo o mundo, tendo-se tornado na segunda causa de morte entre os 15 e os 29 anos. Só nos EUA, estes números duplicaram nos últimos vinte anos entre jovens com menos de 19 anos. 

Ainda mais preocupante é o facto de neste país e no Reino Unido, o suicídio ter-se tornado a principal causa de morte entre jovens com menos 18 anos, escreve o jornal inglês Sunday Times. Os números quase duplicaram nos últimos oito anos, com os responsáveis da saúde a falarem numa "geração suicida". Mas é a França que continua nos lugares dianteiros das tabelas europeias dos suicídios, de acordo com a publicação inglesa.

Também Portugal registou um aumento de mais 15 casos entre os jovens com menos de 24 anos, entre 2016 (31 casos) e 2017 (46 casos). 

As redes sociais aliadas ao efeito contágio são para muitos pais e especialistas uma das causas do aumento dos suicídios entre os menores. Ian Russell, um pai britânico cuja filha de 14 anos se suicidou em novembro de 2017 declarou ao Sunday Times: "Não tenho dúvidas que o Instagram ajudou a matar a minha filha". Outros 30 pais, cujos filhos tomaram a mesma decisão que a filha de Ian, culparam igualmente as redes sociais, citados pela publicação. 

De tal forma que a as autoridades de saúde britânicas estão empenhadas em pressionar a uma maior regulação das empresas tecnológicas, incluindo as donas das redes sociais.

Segundo um estudo liderado por Louis Appleby, responsável pela estratégia de prevenção de suicídios no Reino Unido, um quarto dos adolescentes que se suicidou procurou informação online. Mais, um em cada 25 adolescentes chegou a visitar páginas online que incitam ao suicídio.

"Chegámos com muito atraso ao momento de identificar como os adolescentes utilizam as redes. Corremos o perigo de uma autêntica geração suicida, de jovens que aprenderam a auto-lesionar-se copiando os outros", explicou Appleby, citado pelo jornal inglês Sunday Times. "As auto-lesões são um fator de risco de suicídio e são um problema que afeta já uma em cada quatro raparigas e um em cada dez rapazes", acrescentou.

No mesmo sentido, alguns estudiosos norte-americanos consideram que as redes socais e as novas tecnologias estão relacionadas com o aumento dos números de suicídios dos adolescentes nos EUA. Embora a taxa seja maior entre os rapazes, são as raparigas quem tenta colocar fim à vida em maior número de vezes. 

Pra além destes dados o que tem impressioado pais e a comunidade médica recentemente foi o método utilizado por algumas raparigas com menos de 19 anos para se suicidar: veneno.

Um estudo publicado recentemente no Journal of Pediatrics revelou que as tentativas por autoenvenenamento nas raparigas duplicaram de 40 mil em 2000 para quase 80 mil, em 2018.

"Não só o número de casos está a aumentar, mas os resultados estão a piorar", declarou o coautor do estudo, Henry Spiller, diretor do Centro de Venenos de Ohio, citado pela revista Time. 

Os especialistas aconselham pais, médicos, professores a falar abertamente com os adolescentes sobre o suicídio, sobretudo se detetarem sinais de sofrimento psicológico ou emocional, de forma a que os adolescentes se sintam apoiados. "A aflição não aumenta porque se faz perguntas. Nem resulta em pensamentos ou comportamentos adicionais suicidas. 

Luxemburgo, a boa exceção

O Luxemburgo é a exceção ao cenário preocupante das altas taxas de suicídio entre adolescentes a nível global. Em declarações à RTL, o ministro da Saúde, Étienne Schneider, afirmou mesmo que o "suicídio entre os jovens baixou". Segundo os dados do governo, em 2016 registaram-se três mortes entre os jovens com menos de 20 anos e sete casos de suicídios em jovens entre os 20 e os 29 anos.

Já nos anos anteriores, entre 2000 e 2015, o número total de casos de suicídios registados em jovens com menos de 19 anos foi de 33. Na altura, a então ministra da Saúde, Lydia Mutsch, considerou a estatística "muito elevada", ao mesmo tempo que o governo luxemburguês anunciava novas medidas do Plano Nacional de Prevenção do Suicídio no Luxemburgo, lançado em 2015.  

No que respeita à população global, o números de casos de suicídio no Grão-Ducado está a baixar. De acordo com o governo, diminuiu de 75 em 2014 para 45 em 2016. Entre 2003 e 2013 registaram-se 1 017 casos. 

Apesar da diminuição de casos entre os jovens, e destes serem em menor número do que as pessoas com mais idade, a prevenção nas escolas tem de ser prioritária, de acordo com o médico Franz D’Onghia da Linha da Prevenção do Suicídio, citado pela RTL. Mesmo que a taxa de suicídios entre os jovens seja muito reduzida, "mesmo que eles não cometam suicídio, eles continuam a ser suicidas, a poder ter tendências suicidas", alerta.

Paula Santos Ferreira