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Steve Duarte: Caso de ’jihadista’ português no Luxemburgo chega ao Parlamento
Sociedade 7 min. 26.11.2014

Steve Duarte: Caso de ’jihadista’ português no Luxemburgo chega ao Parlamento

Steve Duarte, filho de imigrantes portugueses no Luxemburgo, converteu-se ao Islão e estará na Síria com o grupo terrorista Estado Islâmico

Steve Duarte: Caso de ’jihadista’ português no Luxemburgo chega ao Parlamento

Steve Duarte, filho de imigrantes portugueses no Luxemburgo, converteu-se ao Islão e estará na Síria com o grupo terrorista Estado Islâmico
Foto: HI5
Sociedade 7 min. 26.11.2014

Steve Duarte: Caso de ’jihadista’ português no Luxemburgo chega ao Parlamento

O caso de um imigrante português no Luxemburgo que aderiu ao grupo Estado Islâmico, na Síria, foi questionado esta semana no Parlamento luxemburguês. Natural de Meispelt, perto de Kehlen, Steve Duarte era um rapper que chegou a editar um disco em 2011. Os amigos descrevem-no como um jovem “tímido e calmo” e estão chocados com a notícia.

O caso de um imigrante português no Luxemburgo que aderiu ao grupo Estado Islâmico, na Síria, foi questionado esta semana no Parlamento luxemburguês. Natural de Meispelt, perto de Kehlen, Steve Duarte era um rapper que chegou a editar um disco em 2011. Os amigos descrevem-no como um jovem “tímido e calmo” e estão chocados com a notícia.

Filho de imigrantes portugueses no Luxemburgo, Steve Duarte, de 25 anos, terá deixado o país há vários meses para se juntar ao grupo terrorista Estado Islâmico (EI), na Síria, segundo fonte dos serviços de segurança luxemburgueses, citada pelo jornal Luxemburger Wort.

O jovem português originário de Meispelt, na comuna de Kehlen, a 20 km da capital luxemburguesa, adoptou o nome de guerra Abu Muhadjir Al Purtughali.

O caso, noticiado pela revista Sábado em Outubro, chegou aos jornais luxemburgueses na sexta-feira passada. De acordo com o jornal Luxemburger Wort, o português, que se terá convertido ao Islão em 2010, frequentava uma mesquita em Esch-sur-Alzette, na rue du Brill, conhecida como o ponto de encontro dos muçulmanos radicais no Grão-Ducado.

Segundo o Wort, que cita fonte próxima dos serviços de segurança luxemburgueses, o luso-descendente já estava na mira das autoridades luxemburguesas e estará agora na Síria, onde integra a célula de propaganda do Estado Islâmico, conhecida por Al-Furqan.

A mesquita de Esch-sur-Alzette frequentada pelo luso-descendente é a mesma onde o ’jihadista’ belga de origem espanhola Davide de Angelis, detido pelas autoridades luxemburguesas em Julho, recrutaria membros para combater na Síria.

O caso do imigrante português levou esta semana o deputado Laurent Mosar a questionar os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Segurança Interna do Luxemburgo. Na questão parlamentar, o deputado do partido cristão-social (CSV) refere o caso do “residente português que terá partido com outros portugueses de vários países da Europa para combater na Síria”, e questiona o governo sobre o número de habitantes no Grão-Ducado que se terão alistado naquele grupo terrorista, responsável pelas decapitações de soldados sírios e de voluntários de vários países raptados pelo grupo, incluindo o norte-americano Peter Kassig, a mais recente vítima do EI.

O deputado quer ainda saber se os ministros consideram que há “uma ligação” entre a mesquita de Esch, frequentada pelo português e por dois residentes no Luxemburgo que morreram na Síria, em Maio, e pergunta se o Governo pretende “tomar medidas” quanto àquele local de culto.

O deputado Laurent Mosar quer saber se o Governo vai “tomar medidas” em relação à mesquita de Esch, frequentada pelo imigrante português Steve Duarte e por dois residentes no Luxemburgo que morreram na Síria, em Maio
O deputado Laurent Mosar quer saber se o Governo vai “tomar medidas” em relação à mesquita de Esch, frequentada pelo imigrante português Steve Duarte e por dois residentes no Luxemburgo que morreram na Síria, em Maio
Foto: Wort

DE RAPPER A JIHADISTA

Steve Duarte é um ex-rapper conhecido por Pollo que editou um disco no Luxemburgo, intitulado ’En Attendant”, em Dezembro de 2011, pela editora ZobiboZ Records. O single com o mesmo nome, cujo vídeo está disponível na internet, descreve um massacre numa escola perpetrado por um franco-atirador, mas os amigos do ex-rapper português recusam ver na letra um indício de violência.

“Era um rapaz calmo, que falava pouco, mas não me parecia de todo uma pessoa radical”, conta ao CONTACTO o mais famoso rapper do Luxemburgo, Rafael Possing, conhecido como T The Boss.

Os dois conheceram-se “em 2008 ou 2009”, quando Rafael Possing organizava sessões de “freestyle”, encontros “de microfone aberto para os rappers que quiserem participar”, em Hollerich e em Esch.

“Ele vinha muitas vezes, cheguei a fazer rap com ele”, conta.

O rapper luxemburguês diz que perdeu o contacto com Steve Duarte durante algum tempo. Quando os dois se reencontraram, “ele tinha-se convertido ao Islão”, mas o luxemburguês nunca se apercebeu de que “fosse um radical”.

“É verdade que ele mudou, levava a religião muito a sério, mas fiquei chocado quando soube que ele estava na Síria”, conta ao CONTACTO, recordando uma improvisação em Esch, “em 2010 ou 2011”, em que Steve terá declarado ao microfone, em ritmo de rap, “Eu sou muçulmano”.

“Mas nunca lhe ouvi mensagens radicais. O rap tem muitas vezes mensagens violentas, duras, e não era o caso dele: ele fazia rap de uma forma muito consciente”, garante Rafael Possing, que recusa ver na letra do disco “En Attendant”, sobre um massacre numa escola, sinais que fizessem adivinhar o fascínio perigoso de Steve Duarte pela violência.

“Com o que se sabe hoje, é fácil fazer leituras desse tipo, mas na altura o disco, que teve algum sucesso, não levantou qualquer questão”, recorda.

Chocado ficou também o rapper e actor de origem cabo-verdiana Armando “Last Ar” Medina, que participou em dois vídeos com Steve Duarte, entretanto “desaparecidos da internet”.

“Ele era uma pessoa super simpática, uma pessoa super correcta, e não percebo como pôde ser influenciado para ir para a Síria”, disse ao CONTACTO o luxemburguês de origem cabo-verdiana. “Não é uma pessoa má”, garante.

“Não sei se ele fez alguma coisa má na Síria, mas eu gostava que ele voltasse vivo e inteiro e que regressasse para junto da família. Mas acho que o Governo [luxemburguês] não o vai deixar tranquilo, porque agora isto tornou-se um caso de Estado”, diz.

PROBLEMAS NA ESCOLA

Steve Duarte é filho de imigrantes portugueses naturais da Figueira da Foz. O pai morreu quando era pequeno. Carla, uma imigrante portuguesa que chegou a ser vizinha da família em Meispelt e frequentou a mesma escola primária que Steve, em Kehlen, recorda “uma criança muito calma e retirada, que pouco falava“.

“Era muito tímido e tinha poucos amigos, e os poucos que tinha não eram as melhores companhias“, recorda a imigrante portuguesa, que pediu para não ser identificada.

Na escola, quando chegou, Carla não falava nenhuma das línguas do país, o que levou um grupo de colegas luxemburgueses um ano mais novos do que ela a recorrerem a Steve Duarte, que lhes servia de intérprete para a insultarem com palavrões em português.

“Perguntavam-lhe a ele palavrões e insultos em português para mos dizerem a mim, e ele estava com eles quando mos diziam, mas não dizia nada. Ficava no canto dele a ouvir o que eles diziam e não dizia nada“.

A perseguição só terminou quando a imigrante portuguesa se queixou à professora. “Eles pararam imediatamente e os luxemburgueses vieram pedir-me desculpa, mas o Steve não“.

A notícia de que o antigo colega estaria na Síria chocou Carla. “A minha mãe conhece bem a mãe dele, éramos vizinhos em Meispelt, morávamos a 200 metros um do outro, e também ficou sem palavras“.

Segundo a revista Sábado, que cita um amigo de infância, Steve Duarte terá tido problemas na escola, tendo frequentado depois um liceu em Arlon, na Bélgica. Em 2006 reprovou e foi obrigado a trabalhar numa empresa de cosméticos.

O rapper Armando Medina diz que a última vez que viu Steve “ele fazia entregas”. “Lembro-me de o ver sempre com embrulhos, mas não me lembro para que empresa”.

O CONTACTO tentou falar com a família do imigrante português, que não quis prestar declarações.

Steve Duarte é o sexto residente no Luxemburgo a alistar-se no grupo Estado Islâmico. Todos terão passado pela mesquita da rua do Brill, em Esch, gerida pela Associação Multicultural do Oeste (AMCO).

O português reagiu às notícias publicadas no Luxemburgo com uma mensagem numa página do Facebook, entretanto apagada. No comentário, citado pelo Wort.lu, Steve Duarte diz que tomou a decisão de aderir ao Estado Islâmico “de forma livre”, negando a influência de “qualquer guru, qualquer forma de lavagem cerebral ou de endoutrinamento”.

P.T.A.


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