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Joana foi sozinha para a Polónia receber refugiados. "Se ajudar uma pessoa já valeu a pena"
Sociedade 3 min. 13.03.2022
Guerra na Ucrânia

Joana foi sozinha para a Polónia receber refugiados. "Se ajudar uma pessoa já valeu a pena"

Família na fronteira entre a Polónia e Ucrânia.
Guerra na Ucrânia

Joana foi sozinha para a Polónia receber refugiados. "Se ajudar uma pessoa já valeu a pena"

Família na fronteira entre a Polónia e Ucrânia.
AFP
Sociedade 3 min. 13.03.2022
Guerra na Ucrânia

Joana foi sozinha para a Polónia receber refugiados. "Se ajudar uma pessoa já valeu a pena"

Redação
Redação
Joana deixou dois filhos em Portugal e foi para a fronteira da Polónia com a Ucrânia para ajudar na receção dos refugiados ucranianos. "Tenho de dar o exemplo. Se eu tenho possibilidade, se a minha família está em segurança, se tenho a possibilidade para vir ajudar, eu devo vir ajudar, é um dever".

Ao fim de três dias na estação, a ajudar refugiados e a tentar encaminhá-los para centros de acolhimentos e transportes para outras cidades da Polónia e para outros países europeus, Joana, que prefere não revelar o apelido, diz que confirma a sua fé na humanidade: "Chego ao fim do dia esgotada, mas continuo com o coração cheio no meio desta desgraça toda".  

"Vim pela fé na humanidade, pela solidariedade que se criou, pela vontade de ajudar, de trazer um pouco da paz que se vive em Portugal", contou à Lusa esta portuguesa de 39 anos, na estação de comboios de Presmyl, no leste da Polónia.

Encostada à Ucrânia, esta é uma estação de chegada de comboios vindos do outro lado da fronteira e nas últimas semanas tornou-se no local de desembarque de meio milhão de pessoas fugidas da guerra, após a invasão russa da Ucrânia, em 24 de fevereiro.


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Viajou sozinha de Lisboa e quase passou uma noite sem abrigo, à chegada, quando percebeu que o quarto que tinha reservado num hotel tinha sido dado a uma família ucraniana “em emergência”. Foi um taxista, que durante duas horas não a largou, que lhe encontrou alojamento num hotel reservado a militares polacos destacados para a região para darem assistência aos refugiados.

Sentiu assim a solidariedade que a levou á Polónia logo à chegada à região que mais refugiados da guerra na Ucrânia tem recebido. E não mais deixou a sentir: “Neste momento, isto está a funcionar à base da solidariedade dos voluntários a nível internacional”, afirma.

As autoridades regionais e locais da Polónia não se cansam de agradecer, quando falam com os jornalistas, a todos as pessoas e organizações, polacas e de outras nacionalidades, que têm acorrido às zonas de fronteira para ajudar naquela que é a maior crise de deslocados no género na Europa desde a segunda guerra mundial.

Segundo as Nações Unidas, perto de 2,6 milhões de pessoas já fugiram da Ucrânia por causa da guerra e 1,5 milhões foram para a Polónia.

Os voluntários estão por todo o lado, nas estações de comboio, nos postos fronteiriços, nos centros de acolhimento. Recebem quem chega, ajudam a transportar malas, dão conforto, cozinham e distribuem refeições, deixam ajuda humanitária, transportam pessoas nos seus carros e carrinhas, esforçam-se em contactos para encaminhar pessoas para outras cidades. As matrículas dos carros e autocarros que se vêm nos acessos a postos fronteiriços, estações de transporte e centros de acolhimento mostram que vêm de toda a Europa.


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Joana, através de “uma rede de solidariedade” que foi construindo nos últimos dias, feita de contactos entre portugueses, já conseguiu encaminhar três pessoas para Portugal. “Se ajudar pelo menos uma pessoa já valeu a pena”, diz à Lusa esta portuguesa com “dois filhos pequenos” que está a criar para “esse mundo de solidariedade”. “Tenho de dar o exemplo. Se eu tenho possibilidade, se a minha família está em segurança, se tenho a possibilidade para vir ajudar, eu devo vir ajudar, é um dever”, sublinha.

Joana viajará de regresso a Lisboa dentro de alguns dias, mas tem já planeado o regresso à Polónia na próxima semana, com uma associação de ucranianos em Portugal que vai buscar, de autocarro, refugiados a Varsóvia. Diz que se nota já o cansaço entre os voluntários e teme que isso seja um problema nas próximas semanas para a estrutura de acolhimento que existe neste momento no leste da Polónia.

Também as autoridades locais e regionais temem a capacidade de resposta para a segunda vaga de refugiados que esperam nos próximos dias e têm apelado à ajuda da União Europeia e dos outros país membros na agilização da recolocação de pessoas, como fez este sábado o presidente do governo regional de Podkarpackie, Wladyslaw Ortyl, em declarações a um grupo de jornalistas que recebeu no âmbito de uma iniciativa do Comité das Regiões Europeus.


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"Demos tudo: comida, medicamentos, artigos de higiene, ‘tróleis’ para as bagagens. Encaminhámos doentes para hospitais. Fizemos tudo o que podemos como cidade, com autoridade local, sem Governo", disse.

Com Lusa

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