SOS Détresse

A vida por um fio

A SOS Détresse é um serviço telefónico de apoio psicológico criado há 40 anos no Luxemburgo. Disponível todos os dias, a associação é muitas vezes a última linha para quem procura ajuda para vários problemas, incluindo depressão.

Ilustração: Florin Balaban / Contacto

Quando o telefone toca na SOS Détresse, há uma única certeza: do outro lado da linha, há alguém em sofrimento. As razões de quem recorre ao serviço telefónico de apoio psicológico são várias: problemas financeiros, violência, angústia, solidão. Mas na maioria dos casos – quase três mil das quatro mil chamadas em 2016 –, as pessoas ligam por causa de problemas do foro psíquico, incluindo depressão.

Um problema que tem aumentado nos últimos anos, garante a psiquiatra Marcelle Walch, diretora da SOS Détresse, associação que este ano completou 40 anos de existência. “Nos últimos dez anos, notamos que há mais pessoas com depressão que nos contactam”, aponta. “As condições de vida são mais complicadas e as pessoas têm uma carga mais pesada. O ritmo acelerou, há mais problemas financeiros e preocupações com o futuro dos filhos, e há menos tempo para o contacto humano. E o contacto humano é uma necessidade”, sublinha.

A solidão é aliás responsável por quase um quarto das chamadas (960 telefonemas no ano passado). “Há pessoas que nos ligam no domingo à noite e nos dizem: ’É a primeira pessoa com quem falo desde sexta-feira’. É terrível”.

A linha de apoio telefónico faz parte do Plano Nacional de Luta Contra o Suicídio, mas atende qualquer pessoa que precise de apoio emocional, por problemas variados. A SOS Détresse podia ser um barómetro da sociedade: os problemas de quem liga para a associação mostram os principais problemas sociais, mas também as épocas em que estes se agravam.

No caso da depressão, o inverno e o Natal são épocas de risco. “Com a aproximação do Natal, há pessoas que se sentem ainda mais sozinhas”, explica Susana Campos, psicóloga naquela linha de apoio telefónico. E com os dias a ficar mais curtos, “o humor ressente-se” e o volume de chamadas também aumenta. “A partir de outubro temos mais chamadas. Passamos de 70, 80, para uma centena”, diz.

Dados da SOS Détresse de 2016.
Dados da SOS Détresse de 2016.
Gráfico: Bruno Guerra

A depressão é uma doença de risco, que pode levar ao suicídio, mas apesar disso, há quem continue a não procurar ajuda. “As pessoas continuam a ver a depressão como uma fraqueza, um sinal de que não se está à altura. É preciso ajudá-las a perceber que a culpa não é delas”, explica Susana Campos.

Há casos em que a SOS Détresse é mesmo a última linha. No ano passado, quase uma centena de telefonemas vieram de pessoas em risco de suicídio. “Se alguém nos liga a dizer que se quer suicidar, que perdeu a vontade de viver, tentamos ver o que seria preciso para ela recuperar forças e esperança e conseguir ir à procura de soluções”, explica Marcelle Walch. E recorda casos de pessoas que telefonaram do local onde pensavam suicidar-se. “É o telefonema mais duro”, diz a responsável da SOS Détresse.

O que fazer nestes casos? “Mostramo-nos disponíveis, estabelecemos uma ligação enquanto seres humanos. Partilhamos a dor, o medo, tudo”, diz. Com a ajuda dos voluntários, a pessoa pode procurar ajuda ou chamar os serviços de emergência, “sempre com o seu acordo”, sublinha a psiquiatra. “Toda a gente quer viver”, defende. Ultrapassado o momento de desespero, há quem ligue a agradecer, “até do hospital”.

Serviço é gratuito, anónimo e confidencial

O anonimato e a confidencialidade são garantias que a associação leva muito a sério. A tal ponto que nem a morada da sede da SOS Détresse é conhecida. Para a entrevista com o Contacto, a associação propôs que o encontro fosse noutro local. A razão é o pequeno tamanho do Luxemburgo. Se a morada fosse conhecida, seria possível reconhecer um vizinho ou um amigo a entrar no edifício e saber assim quem são os voluntários que lá trabalham. E isso poderia inibir as pessoas que recorrem à linha telefónica. “Ninguém quer correr o risco de contar os segredos mais íntimos ao vizinho”, explica a responsável da SOS Détresse. “Talvez fosse diferente se estivéssemos em Lisboa ou em Berlim, mas o Luxemburgo é pequeno”. Nos casos em que um voluntário reconhece alguém, passa a chamada a outra pessoa.

Na SOS Détresse trabalham cerca de 80 voluntários. Têm de ter “uma grande abertura” e “disponibilidade para os outros” e frequentar formação “durante um ano e meio”, explica a psicóloga portuguesa Susana Campos.

Na SOS Détresse há voluntários de todas as nacionalidades, “da Rússia a Portugal”. O atendimento telefónico é assegurado em francês, alemão e luxemburguês. Todos os dias, das 11h da manhã às 23h, e ao sábado e domingo até às 3h da manhã, há alguém para atender quem liga para o número da SOS Détresse: 45 45 45. A associação presta apoio também noutras línguas, incluindo português, mas só pela internet. Neste caso, as pessoas podem enviar uma mensagem de forma anónima pelo site da associação, que também está disponível em português. “Podem enviar em português que nós respondemos também em português”, garante Susana Campos.

A psicóloga gostava que o serviço fosse mais conhecido entre a comunidade portuguesa no Luxemburgo. "Estamos cá para toda a gente".

Paula Telo Alves

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Mais informações no site da SOS Détresse

Telefone: 45 45 45

Serviço de atendimento por email (em português): Online Help.