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Somos todos iguais, mas alguns são mais iguais que outros

Somos todos iguais, mas alguns são mais iguais que outros

Foto: Anouk Antony
Editorial Sociedade 3 min. 05.12.2018

Somos todos iguais, mas alguns são mais iguais que outros

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
"Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros" é a adulteração do sétimo mandamento do Animalismo, no romance satírico "A Revolução dos Bichos" (ou "Triunfo dos Porcos"), publicado em 1945 pelo escritor inglês George Orwell.

O livro, que tem como pano de fundo a Revolução Russa de 1917, conta a história da revolução dos animais de uma quinta contra a opressão humana. Depois de terem expulsado o proprietário e assumido o poder na quinta, os animais instituem o Animalismo, conjunto de novas regras resumidas em sete mandamentos: aquele que andasse em duas pernas era inimigo, o que andasse em quatro patas ou tivesse asas era amigo, os animais não podiam vestir roupas, dormir numa cama, beber álcool, matar outro animal e, o mais importante, todos os animais eram iguais.

Com o passar do tempo, os porcos, tidos pelos outros animais como letrados e os mais inteligentes, começam a alterar todos os sete mandamentos para tirar partido do conforto e superioridade, enquanto os outros animais, iletrados e menos inteligentes, trabalham arduamente em troca de uma míngua de rações.

Ao sétimo mandamento do Animalismo "Todos os animais são iguais", os porcos acrescentam "mas alguns são mais iguais que outros". Esta mudança acaba, de certa forma, por ser um resumo do livro, que termina de maneira tão atual como um jornal: "já não é possível distinguir a cara dos porcos da dos homens".

A aplicação desta fábula não se confina ao paralelismo existente com a União Soviética comunista, porque a condição de (des)igualdade de direitos não se restringe a uma época nem a um território.

No caso do Luxemburgo, um exemplo gritante de desigualdade continua a ser o sistema de ensino, alvo recorrente de críticas. Sim, no sistema de ensino luxemburguês "todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros".

A mais recente crítica veio da Comissão Europeia, através do recente Relatório de Acompanhamento da Educação e Formação 2018. O que diz o relatório? A taxa de chumbos no Luxemburgo é elevada, a taxa de abandono escolar também e o processo de orientação dos alunos para o ensino clássico ou técnico limita a igualdade no sistema educativo. Um exemplo claro: só no ensino técnico, 71% dos alunos já chumbaram. E quem são esses alunos? São sobretudo filhos de imigrantes, filhos de famílias com fracos recursos financeiros, crianças e jovens que não têm, no seu entorno, as mesmas condições sócio-económicas de filhos de algumas famílias luxemburguesas ou alemãs, por exemplo.

Estas conclusões não são novas e já foram demonstradas por vários outros estudos. Na prática, os luxemburgueses e os alemães são quem começam a escola em vantagem em relação, por exemplo, aos imigrantes. A língua alemã continua como língua veicular na escola, quando mais de metade da população tem um background imigrante. Esta língua cria dificuldades aos filhos dos imigrantes, sobretudo latinófonos, e continua a filtrar as crianças desde cedo.

Felizmente, há muitos casos de superação, mas o que é certo é que a sociedade luxemburguesa já não é a mesma de há alguns anos. Mudou, mas o mesmo não acontece com o cristalizado sistema escolar.

É esta desigualdade, criada desde o início, que mantém "um certo privilégio" para os luxemburgueses ou alemães, que crescem sempre em vantagem e que têm a maioria dos alunos no liceu clássico, por exemplo.

O sistema precisa de uma revolução, porque não há escolha. Aos 11 anos, as crianças não devem ser orientadas para o clássico, ensino geral ou profissional. Se estão na escola é para aprender, para serem formadas e socializadas para depois discernirem, por si próprios, se têm capacidade para ser médico, canalizador, vendedor ou advogado.

É o que acontece noutros países, como Portugal, e nas escolas internacionais, por cá, que vão ao encontro das necessidades das crianças e não ao encontro das necessidades de um conselho de orientação escolar, em que os pais não têm tanta voz como se faz crer.


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