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Os portugueses que se preparam para sobreviver a uma grande catástrofe
Sociedade 11 min. 21.07.2021
Sociedade

Os portugueses que se preparam para sobreviver a uma grande catástrofe

João Santos numa caçada nocturna de espera ao javali.
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Os portugueses que se preparam para sobreviver a uma grande catástrofe

João Santos numa caçada nocturna de espera ao javali.
Foto: RN
Sociedade 11 min. 21.07.2021
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Os portugueses que se preparam para sobreviver a uma grande catástrofe

Regina NOGUEIRA FERNANDES
Regina NOGUEIRA FERNANDES
Fazem da preparação para eventuais catástrofes um estilo de vida. Armazenam mantimentos, ferramentas e há até quem viva completamente fora do sistema. Os preppers, que acreditam que o fim do mundo pode estar para vir, tornaram-se conhecidos nos Estados Unidos, mas o fenómeno tem vindo a ganhar cada vez mais expressão em Portugal.

Sérgio Gomes, 42 anos, enfermeiro de profissão, tem sempre uma mochila preparada à porta de casa, no caso de ser necessário fugir” “aconteceu-me ter um incendio em casa e ir para a rua de pijama e chinelos - quis garantir que isso nunca mais me ia acontecer”. Agora, não abdica da sua Bug Out Bag (BOB), ou mala de fuga, uma mochila com uma muda de roupa, documentos e dinheiro, que pode agarrar se tiver de sair de casa numa emergência

Ser prepper - uma pessoa que reúne materiais e faz planos de preparação para sobreviver a um grande desastre ou cataclismo (como um colapso econômico mundial ou guerra) – é para o enfermeiro um estilo de vida. “É estarmos constantemente atentos ao que nos rodeia, seja em termos de catástrofes naturais ou provocadas pela mão humana, e acreditar que as coisas não acontecem só aos outros”, explica, “o interveniente mais importante na nossa segurança somos nós mesmos.”

Para além da BOB, não abdica da sua reserva de água e de alimentos (que deve ser suficiente pelo menos para um mês e composta por produtos de data de validade alargada e que não necessitem de uma fonte de energia para serem consumidos) e de material de saúde (máscaras, ligaduras, medicamentos). Sérgio faz também questão de saber e educar a família para os planos regionais de emergência e possíveis rotas de fuga na nossa zona no caso de um sismo ou de um incendio. Partilha estas e outras dicas na sua página de Facebook “O Enfermeiro prepper”.

“As pessoas consideram-nos sempre uns pessimistas”, afirma, “Não é isso. Nós queremos sempre que as nossas preparações não sejam utilizadas, mas elas estão lá se for preciso”.

Paulo Guerreiro, 38 anos, é operador de condução de metro de superfície e administrador da comunidade Preppers Portugal. No grupo, cujo lema é “esperar o melhor e preparar-se para o pior, discutem-se ferramentas, treino canino ou como preparar conservas alimentares. Entre dia 23 e 25 deste mês, o Preppers Portugal organiza o primeiro Congresso Internacional de Sobrevivencialismo, que conta também com preppers do Brasil e da Argentina, por exemplo.

Em Portugal, a comunidade prepper move-se sobretudo nas redes sociais, salvo alguns encontros presenciais ocasionais, e é sobretudo masculina. “Criei o grupo em 2012 quando houve aquela brincadeira do Calendário Maia e se falava do fim do mundo”, conta, “na altura, fiz uma pesquisa para ver o que existia em Portugal, e apesar de haver gente que praticava esta área da preparação, a designação ‘prepper’ não existia”.

Nove anos depois, o grupo conta agora com mais de 2.500 membros. “Vimos uma grande evolução, principalmente desde que começou a pandemia”, explica Paulo.

À medida que o mundo encerrava, houve quem começasse a armazenar bens de primeira necessidade, com medo de escassez nos supermercados. Nos grupos do Facebook, chegavam inúmeras posts e mensagens de novatos nas lides da preparação, à procura de auxílio face à incerteza que enfrentavam.

“Houve um aumento enorme no interesse sobre o estilo de vida prepper”, concorda Sérgio. “No início, ficamos naquela “afinal, não somos maluquinhos. As coisas não acontecem só aos outros”.

“O suficiente para ficar um mês sem ir ao supermercado”

O prepping é uma tendência que contínua a crescer um pouco por todo o planeta, e Portugal não é exceção. Apesar de tudo, a comunidade prepper portuguesa tem menos expressão e é menos radical do que noutros países, onde há quem invista milhares de euros em armas e abrigos anti bombas, como é o caso dos Estados Unidos.

Muitas dessas histórias, aliás, tornaram-se conhecidas em séries como “Doomsday Preppers”, produzida pela National Geographic. Foi o caso Bruce Beach, dono de 42 autocarros subterrâneos para poder salvar crianças numa eventual guerra nuclear; de Paul Range, que se preparava para uma inversão dos polos magnéticos; ou de Bob Kay, um nutricionista preocupado com uma possível destruição ambiental provocada por uma série de grandes terramotos

A série, uma das mais populares de sempre do canal, foi cancelada ao fim de quatro temporadas depois de uma petição da Change.org alegar que era irresponsável continuar a transmitir um programa que promovia "a visão extrema de indivíduos à margem da sociedade".

Mas a tendência chegou também aos super-ricos e a Silicon Valley: o bilionário Peter Thiel, cofundador do Paypal e um dos primeiros investidores no Facebook, e Sam Altman, também investidor em empresas como Airbnb ou Reddit, fizeram manchetes ao revelar os seus planos de evasão para um bunker na Nova Zelândia, no caso de um colapso do sistema.

Paulo e Sérgio não se identificam com a imagem de prepper dos Estados Unidos e a ideia do lobo solitário, paranoico e com armas, tanques e abrigos nucleares. Em Portugal, dizem, as coisas têm outra escala. “Não precisamos de ir ao extremo: apesar de tudo somos um país pacato”, considera Paulo. “Não é necessário fazer como a gente vê nos filmes”.

Ricardo HotShots a ensinar tecnicas de sobrevivência.
Ricardo HotShots a ensinar tecnicas de sobrevivência.
Foto: RN

“Eu, por exemplo, estou preparado, mas não tenho um armazém com mantimentos para dois anos. Tenho o suficiente se calhar para ficar um mês sem ir ao supermercado bem como as minhas mochilas, no caso de ser necessário”.

Para além da Bug Out Bag, fazem parte dos básicos do prepper um Get Home Bag (GHB) e um Every Day Carier (EDC). Uma GHB é uma mala que lhe permita chegar a casa em segurança: deve ser ultraportátil e conter água, snacks, uma muda de roupa e um kit de primeiros socorros, bem como artigos que tornem mais confortável para dormir se se acabar num chão algures por uma ou duas noites. Um EDC é geralmente composto por um alicate multiusos, uma faca de lâmina amovível e um isqueiro, e anda sempre com o prepper. Há ainda quem inclua também outros itens, como gazuas, para abrir fechaduras, ou uma chave especial que permita abrir mangas de incêndio e elevadores.

Há quem vá mais longe. Miguel Santos, dono de uma empresa na área da energia solar offgrid - ou seja, que não necessita estar conectada à rede elétrica nacional – vive completamente independente do sistema. Para além de um abastecimento elétrico autossuficiente, o empresário tem ainda o seu próprio abastecimento de água e sistema de telecomunicações, que considera fundamentais.

“Nos incêndios em Pedrogão, grande parte das casas ardeu não porque não tivessem água, mas porque não conseguiram tirar água do poço”, explica Miguel, “Não é que não tivessem bombas, mangueiras e água, mas o sistema era elétrico e não tinham luz”. Todos os preppers dever-se-iam preparar para eventuais falhas no abastecimento de água, energia ou telecomunicações, mas a maioria está mais preocupada com “facas e navalhas”, diz Miguel.

Radio amadorista por paixão, acredita os rádios são fundamentais caso de catástrofe. Para divulgar informação sobre este meio de comunicação, criou o portal Macanudos, emitido em Banda do Cidadão (CB). Em Portugal, a CB é de utilização livre desde 2017 e qualquer pessoa que seja detentor de um radio pode operar, sem necessidade de qualquer autorização, as faixas de frequências 26.965 a 27.410MHz nas bandas AM e FM.

No primeiro encontro prepper em Portugal, no verão de 2019, foram lançados o boletim informativo e o plano 3-3-3, à semelhança do que acontece nos EUA e outros países da Europa, desenhados para comunicações em caso de emergência. A emissão do Plano 3-3-3 realiza-se a cada 3 horas na banda do cidadão no canal 3 em AM, na área da grande Lisboa.

“É a melhor forma de interajuda em caso de falha da rede telefónica (...) e resulta na existência de um canal de comunicação onde possa pedir ajuda, treinar atividades e participar em eventos e ativações. Também permite obter noticias e informações assim como a preparação para uma eventual emergência pessoal, nacional ou internacional”, pode ler-se no site.

Todos os sábados, Miguel e os macanudos organizam um treino de preparação para o plano 3-3-3. “É para informar e treinar as pessoas para este plano e para que numa emergência se lembrem e liguem o rádio no canal 3. Tentamos incutir isso nas pessoas, uma vez que um dia isso pode salvar-lhes a vida”, explica Miguel.

Um movimento de extrema-direita?

Apesar da entrada no mainstream e crescente comercialização, o termo prepping continua ainda muito associado à extrema-direita. Depois da crise de migrantes, em 2015, na Alemanha, grupos de preppers foram notícia por se prepararem para o alegado “Dia X”, armazenando stocks de alimentos, medicação, armas e grandes quantidades de munições. Alguns, dizem estar iminente uma guerra entre alemães e "imigrantes e muçulmanos", por temerem uma "substituição" da população alemã por estrangeiros que supostamente não seguem os valores do país.

Segundo investigações da polícia alemã, uma das principais redes de preppers alemã, a Nordkreu, preparava uma lista de possíveis alvos de ataques no cenário do “Dia X”, que incluía políticos locais pró-refugiados. No fim de 2019, Marko Groß, uma das figuras centrais da organização, foi julgado por violação da lei de armas de guerra e controlo de armamento.

Nos Estados Unidos, o exponencial interesse no prepping foi em parte impulsionado pela eleição de Barack Obama, em 2008, numa reação política da extrema direita à sua presidência. Em “Obamageddon - Medo, a extrema-direita, e a ascensão do "Doomsday" prepping na América de Obama”, académico Michael Mills argumenta que os receios relativamente a Obama foram centrais para muitas atividades dos preppers, ainda que muito das suas preparações visem situações fora da esfera política.

Ricardo Marreiros, conhecido no meio por HotShots, diz que essa é uma das razões pela qual não se identifica a 100% com o título Prepper. “Tem uma carga muito pesada: aparece muitas vezes associado a milícias e extremismos políticos e essa parte sinceramente não me interessa muito”. Ainda assim, Ricardo identifica-se como prepper e sobrevivencialista, termos que diz serem diferentes, mas terem “trilhos comuns”.

Enquanto o prepping é encarado como um estilo de vida e prevê uma preparação a longo prazo, o sobrevivencialismo passa adquirir capacidades para arranjar comida e água da terra, caçar, criar abrigos e ser capaz de se orientar mesmo em condições pouco favoráveis. Os sobrevivencialistas concentram-se no estilo de vida emergencial e minimalista, mais associado a situações passageiras.

Ricardo, que é um dos mais reconhecidos preppers em Portugal, também fala sobre técnicas de preparação e sobrevivência nas redes sociais. Os seus vídeos ensinam como fazer fogo de várias formas e com as mais variadas ferramentas, filtrar água ou preparar uma Get Home Bag (GHB).

 Ricardo HotShots a ensinar tecnicas de sobrevivência.
Ricardo HotShots a ensinar tecnicas de sobrevivência.
Foto: RN

Apesar de ser cada vez mais um assunto corrente, Ricardo diz sentir preconceito e prefere proteger-se: “há coisas que não digo em público. Isto do prepping engloba muitas coisas, algumas com implicações legais”, conta.

“Tenho de ser muito responsável na informação que passo. Eu não estou aqui a ensinar a fazer queques”. Uma das questões mais controversas na comunidade é a da legalização de porte de arma para defesa pessoal, da qual Ricardo diz ser um “defensor inequívoco”.

“Gosto de fazer a comparação com a carta de condução. Tal como à carta, o acesso a licença de porte de arma tem de prever formação e plena capacidade física e mental”, argumenta, “claro que sem o devido treino os resultados podem ser devastadores, mas isso não é por causa das armas em si. As armas são uma ferramenta. Também se mata com um martelo, que é outra ferramenta, e não é por isso que proibimos os martelos”.

Essa é também a perspetiva de João Barbado, 34 anos, prepper e membro da ANARMA (Associação Nacional da Arma de Portugal): “o cidadão deve ter o direito a ter uma arma, desde que comprove ao estado que tem a devida habilidade”. Alentejano de berço e estofador de profissão, João ganhou o gosto pelas armas através da prática de caça desportiva. Recusa o modelo americano, mas entende que o direito a resistência pela forca esta consagrado na constituição.

O tema, considera, é ainda tabu não só no país, mas também na comunidade prepper, ainda que hoje o tema esteja mais normalizado: “Quando um aparecia num dos grupos um prepper a dizer ‘eu quero ter uma espingarda, não vá haver um colapso geopolítico e a lei portuguesa deixar de imperar’, esse tipo era imediatamente ostracizado”, relembra João. Hoje em dia, diz sentir mais abertura da comunidade e partilha regularmente vídeos como “as 5 melhores armas para um prepper” no seu canal de Youtube.

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