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Sobre as ruas de Trier abateu-se uma infinita tristeza

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Sobre as ruas de Trier abateu-se uma infinita tristeza

Sobre as ruas de Trier abateu-se uma infinita tristeza

Sobre as ruas de Trier abateu-se uma infinita tristeza


por Ricardo J. RODRIGUES/ 02.12.2020

Fotos: António Pires

"Cinco mortos e 14 feridos não são só números", diz uma mulher no Hauptmarkt. "São uma dor tão forte que cala tudo à volta." Retrato de uma cidade que saiu à rua para prestar tributo às suas vítimas. E que depois mergulhou no silêncio.

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Mergulho no silêncio
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Foto: António Pires

Podia ser sábado. Há tanta gente a circular pela zona pedonal de Trier que é fácil esquecer que hoje é quarta-feira, dia de trabalho. Os habitantes saíram todos à rua, sim, mas não para ver as decorações de natal - e muito menos para fazer compras. Vieram prestar homenagem aos seus mortos.

Na véspera, 1 de dezembro, um carro investiu sobre estas mesmas ruas - e provocou a tragédia que agora calou toda a gente. Cinco mortes, entre os quais um bebé com nove semanas e meia, e mais de uma dezena de feridos, deixaram a Alemanha em choque. O espanto deu lugar à dor, que é simultaneamente pública e íntima.

Centenas de pessoas atravessaram hoje as ruas onde circulou a tragédia. Nos pontos em que se deram os atropelamento mortais foram instalados memoriais improvisados. Flores, estatutetas de anjos, bonecos de peluche. E velas, muitas velas. Tantas que as lojas em redor já não têm mais para vender.

Emily, Lara e Christina.
Emily, Lara e Christina.
Foto: António Pires

Emily Winjgaarden, Lara Lambertz e Christina Krämmer, todas de 16 anos, foram as últimas a conseguir comprar a acender uma candeia junto à Porta Nigra, o monumento património da Humanidade junto ao qual a polícia deteria o condutor, um homem de 51 anos chamado Bernd W. Agora tornou-se no principal memorial das vítimas. As raparigas não foram hoje às aulas, preferiram vir para aqui. "Eu pensei que se viesse aqui talvez encontrasse algum sentido para o que aconteceu", diz Emily. "Mas isto não faz sentido nenhum." E desata a chorar.

A polícia descartou a hipótese de atentado terrorista ou ataque com motivações religiosas. Bernd W. conduzia com 1,4 gramas de álcool no sangue e o mais provável é que tivesse tido um surto psicótico. Prestou declarações esta manhã à polícia e permanece preso. 

Neste mesmo lugar, às 10h de quarta-feira, houve uma homenagem oficial às vítimas, com as figuras de estado e os discursos de circunstância. "É a maior tragédia na nossa cidade desde a II Guerra Mundial", disse o presidente da câmara. Quando a cerimónia terminou, as ruas encheram-se. A multidão circulava em silêncio, e o silêncio era ensurdecedor.

"Cinco mortos e 14 feridos não são só números", diz Hannah, empregada de uma ourivesaria do Hauptmarkt, a praça central de Trier. Viu tudo o que se passou na véspera."Estas pessoas representam uma dor enorme que cala tudo à volta. Somos uma cidade pacata, acolhedora. Porque é que isto haveria de acontecer aqui. Porquê?"

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Três minutos de inferno
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Foto: António Pires

Eram 14h01 quando começou o ataque. Vindo da Basílica de São Constantino, Bernd W. guinou o carro para a Brotrstrasse, entrando na área pedonal de Trier. Foi aí que colheu a primeira vítima mortal, uma mulher de 73 anos, alemã, residente em Trier.

Melanie Kruse percebeu que alguma coisa não estava bem quando olhou para as vitrinas da sua loja e viu o jipe, um Range Rover cinzento escuro, passar a grande velocidade por uma rua onde só os peões podem circular. "Vinha tão rápido que parecia um avião a jato. Pensei imediatamente que fosse um ataque terrorista e mandei os funcionários e clientes meterem-se dentro do armazém porque tinha medo que o carro estivesse armadilhado."

Melanie Kruse, gerente da Footlocker de Trier
Melanie Kruse, gerente da Footlocker de Trier
Foto: António Pires

 Quando saiu, a gerente da Footlocker estarreceu. "Comecei a ouvir gritos e algumas pessoas juntaram-se em frente à loja." Foi ali que a viatura atropelou uma família de quatro. O pai, de 45 anos, e a bebé de nove semanas e meia faleceram no local. A mãe e o filho mais velho, de ano e meio, estão hospitalizados em estado grave. "Agarrou-se toda a gente ao telemóvel a chamar o 112. E eu sinto-me estúpida, porque não consegui reagir. Não telefonei, não fiz nada, não pensei em nada. Fiquei só ali a olhar."

O carro avançou pela Grabenstrasse a caminho do Haupmarkt, roubando a vida a uma mulher de 25 anos. Na praça central o carro embateria nos postes do quiosque de jornais. O dono do espaço tenta contar o que se passou ali, mas um choro de menino engole-lhe as palavras.

O poste do quiosque do Hauptmark ficou dobrado depois do Range Rover lhe ter tocado.
O poste do quiosque do Hauptmark ficou dobrado depois do Range Rover lhe ter tocado.
Foto: António Pires

A última vítima mortal, uma alemã de 52 anos, seria colhida na Simeonstrasse, a meio caminho entre a praça e a Porta Nigra. Dois carros de polícia conseguiriam abalroar o Range Rover uns metros adiante, depois do carro virar em direção à gare de comboios. Um vídeo a que o Contacto teve acesso - e que, a pedido da polícia de Trier, decidimos não publicar - mostra a hora da detenção: 14h04. Em apenas três minutos, o centro de Trier tinha-se tornado um inferno.

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O que sabemos de Bernd W.
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Foto: António Pires

O autor do ataque era um homem de 51 anos residente em Zewen, uma aldeia do município de Trier na fronteira com o Luxemburgo. Era operário e nos anos noventa trabalhou em algumas empresas industriais do Grão-Ducado. Nos últimos anos, garantem os seus vizinhos, vivia de biscates. Que com a pandemia se tinham tornado escassos.

"Ele vinha cá todos os dias", conta Christian, funcionário do King's Diner, uma loja de kebabs no centro da aldeia. "Era um tipo meio tresloucado, que andava sempre com os cães, e estava sempre a falar mal dos pais." No seu mural de facebook, aliás, não faltam posts sarcásticos sobre a família.

O centro de Zewen
O centro de Zewen
Foto: António Pires

Steve prefere alterar o nome porque tem medo de sofrer consequências, mas assume-se como vizinho do lado de Bernd W. e garante que o alemão dormia há alguns dias no carro. "Eu suponho que ele se tenha chateado com a família e sido posto na rua, mas não posso ter a certeza. Era um tipo com um comportamento muito doido, mas daí a fazer uma coisa destas vai uma grande distância. Nunca imaginei que isto pudesse acontecer."

A polícia deteve Bernd em flagrante delito e o autor do ataque encontra-se preso. Mas, nas ruas de Trier, a mais velha cidade alemã, nem essa certeza abafa a infinita tristeza que se abateu sobre as ruas. Todas as bandeiras a meia haste. E todas as palavras, também.

 


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