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"Situação dramática". Seca em Espanha reacende tensão sobre gestão da água
Sociedade 3 min. 08.08.2022
Crise climática

"Situação dramática". Seca em Espanha reacende tensão sobre gestão da água

Crise climática

"Situação dramática". Seca em Espanha reacende tensão sobre gestão da água

Foto: LUSA
Sociedade 3 min. 08.08.2022
Crise climática

"Situação dramática". Seca em Espanha reacende tensão sobre gestão da água

AFP
AFP
75% do país está ameaçado pela desertificação.

Será que a falta de chuva vai transformar-se numa guerra por água? Confrontada com uma seca histórica, Espanha questiona o futuro dos seus recursos hídricos - que são largamente utilizados para irrigar terras agrícolas -  quando 75% do país está ameaçado pela desertificação. 

Perante a falta de chuva, "devemos ser extremamente cuidadosos e responsáveis em vez de fazer vista grossa", advertiu recentemente a ministra espanhola da Transição Ecológica, Teresa Ribera, já antecipando "episódios de tensão máxima". 

Tal como França e ou Itália, a península ibérica tem sofrido ondas de calor extremas nos últimos meses, após um inverno invulgarmente seco. No início de agosto, as reservas de água espanholas tinham caído para 40,4% da sua capacidade, 20 pontos abaixo da média dos últimos dez anos na mesma altura. 


Barragem do Alto Rabagão, Montalegre, Portugal.
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Embora não esteja no grupo dos estados mais atingidos, no geral, o mais recente relatório da Comissão Europeia inclui o Grão-Ducado entre os países cujo solo se apresenta "mais seco que o normal". E a previsão é de agravamento até ao fim do verão.

Esta situação levou as autoridades a tomar medidas de emergência para limitar o consumo de água, particularmente na Catalunha e Andaluzia (sul), onde o nível dos reservatórios não ultrapassa 25% (em vez de 56,5%) na bacia do Guadalquivir, que rega toda a região. 

"A situação é dramática" tanto para as "águas superficiais" como para as "águas subterrâneas", diz Rosario Jiménez, professora de hidrologia na Universidade de Jaén (Andaluzia), citada pela AFP. Esta situação é ainda mais preocupante porque faz parte de uma tendência subjacente que Jiménez atribui ao aquecimento global.

Em Espanha, a escassez de água não é novidade. O país até se impôs como modelo de adaptação às chuvas irregulares, graças às suas transferências de água entre bacias hidrográficas e os numerosos reservatórios, construídos para garantir o abastecimento de cidades e parcelas agrícolas. 

Durante o século XX, foram construídas 1.200 grandes barragens no país, um recorde europeu em relação ao número de habitantes. Isto "permitiu a Espanha aumentar a quantidade de terras irrigadas de 900.000 para 3.400.000 hectares", garante o Ministério da Transição Ecológica, que considera que "o sistema de gestão da água em Espanha é uma história de sucesso". 

Mas, para muitos peritos, este sistema está agora a chegar ao limite. Estas barragens "tiveram as suas utilizações", mas também "encorajaram a sobre-exploração" da água e o seu declínio de qualidade, impedindo o curso natural dos rios e a sua regeneração, diz Julio Barea, ativista do Greenpeace Espanha, à AFP. 

Para o Conselho Científico da Bacia do Ródano-mediterrâneo, uma organização francesa que reúne especialistas em hidrologia, "o modelo espanhol" só funciona "na medida em que os recursos hídricos estejam suficientemente disponíveis" para permitir "o enchimento de reservatórios de água". No entanto, "parece que estes limites físicos estão próximos", diz num relatório. 

E ainda há a questão das "alterações climáticas já estarem em curso e continuarão nas próximas décadas, acentuando o risco de falhas, cuja gravidade pode também ser devida às limitadas possibilidades de adaptação" do modelo atual.

Para os peritos, é a utilização de recursos o grande problema, num país onde não é raro ver a relva regada a meio do dia durante uma onda de calor, como é o caso em Madrid. 

"O uso da irrigação em Espanha é irracional. Não podemos ser a horta da Europa" quando "há casos de escassez de água para os habitantes", diz Julia Martínez, diretora técnica da Fundação "Nueva Cultura por el Agua", um grupo de peritos que fazem campanha por uma melhor gestão da água. 

Em meados de julho, o Governo disse querer enfrentar frontalmente o problema da escassez de água, e adotou um plano estratégico concebido para "adaptar o sistema de gestão existente aos impactos do aquecimento global", com medidas para promover a "reciclagem" e a utilização "eficiente e racional" dos recursos. No entanto, para os especialistas, o progresso está a ser lento, enquanto muitas regiões continuam a apostar num aumento das terras irrigadas. "São necessárias medidas mais drásticas", incluindo "uma reestruturação do sistema agrícola" em Espanha, diz Barea.

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