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Sextas-feiras que cantam
Opinião Sociedade 4 min. 30.11.2021
Trabalho

Sextas-feiras que cantam

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Sextas-feiras que cantam

Foto: Shutterstock
Opinião Sociedade 4 min. 30.11.2021
Trabalho

Sextas-feiras que cantam

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Se a semana de trabalho durasse apenas quatro dias e o salário se mantivesse igual, eu seria um homem feliz.

E se o próximo fim-de-semana fosse prolongado? E o próximo também? E o seguinte? E todos a partir de agora? Se a semana de trabalho durasse apenas quatro dias - de segunda a quinta-feira, para a maioria dos empregos - e o salário se mantivesse igual, eu seria um homem feliz. Arrisco dizer que o/a leitor/a também seriam.

Toda essa felicidade acumulada é tangível, e tem um imenso valor económico: trabalhadores felizes são mais produtivos. Tão mais produtivos que compensam as horas em que deixam de produzir (por exemplo) às sextas-feiras com um crescimento equivalente, em quantidade e qualidade, de segunda a quinta. Aliás mais do que compensam: como um todo, a empresa trabalha menos horas, mas no final de contas ainda produz mais - e melhor. Além disso, fora do horário de trabalho, cada pessoa também terá mais tempo e energia para investir em si própria, aprendendo novas competências ou evoluindo nas que já tem.

Essa é pelo menos a teoria da semana de trabalho com quatro dias, ideia suficientemente aliciante para que já em 1956 Richard Nixon, então vice-presidente dos EUA, previsse a sua aplicação "num futuro muito próximo". Na década de 1970, a ideia começou a ganhar muita aceitação – impulsionada pelos mesmos sindicatos que, apenas uma geração antes, tinham finalmente conseguido a aplicação uniforme de um fim-de-semana com sábado e domingo completos. Por volta de 1978, o poder político nos países ricos ocidentais parecia convencido; o Washington Post declarou mesmo que "depois de tantos anos em que era apenas uma promessa quase concretizada, desta vez parece que a semana de quatro dias vai acontecer a sério."

Não aconteceu. O vento mudou nos anos 80; Reagan e Thatcher chegaram ao poder, num contexto de estagnação económica e uma obsessão por eficiência, lucro como objectivo central da vida e a destruição de direitos laborais. A França aplicou uma medida mais diluída, a semana de trabalho de 35 horas, no início deste século, mas trata-se de uma excepção à regra – e que não teve só efeitos positivos.

E de repente... juntaram-se várias condições para que a mudança volte a ser possível e reapareça no nosso horizonte, e não é uma miragem.

E de repente... juntaram-se várias condições para que a mudança volte a ser possível e reapareça no nosso horizonte, e não é uma miragem. Tornámo-nos muitíssimo mais atentos à necessidade de equilíbrio entre o trabalho e a vida própria. A pandemia, obviamente, veio acelerar decisivamente essa tendência, enquanto fez o mundo descobrir novas formas de trabalhar à distância, gerindo de forma flexível os tempos de trabalho, percebendo que o importante é concluir o projecto dentro do prazo, não tanto a quantidade de horas passadas sentado no escritório. 

As empresas perceberam que há muitas economias a fazer (por exemplo em energia) se os empregados usam menos o escritório. Ainda mais importante, fazer menos trajectos casa-trabalho-casa poupa tempo e sobretudo tem um impacto muito positivo nas cruciais emissões de gases poluentes. E claro, maior tempo dedicado ao lazer seria uma bonança para imensas indústrias criativas, o sector da restauração, os produtores de equipamentos desportivos...

Então é desta? As experiências têm-se multiplicado nestes últimos dois ou três anos. A maior de todas, na Islândia, terminou com "resultados espectaculares" – e neste momento 85% da população já obteve direito a reduzir o seu horário de trabalho sem perder salário. Em Espanha, durante a pandemia, tal desiderato também é possível. A Nova Zelândia já teve vários projectos-piloto e vai dando passos nesse sentido. Os resultados são consistentes: bem-estar mais alto, produtividade mais alta, menor taxas de esgotamento. Mas também um desligar mais acentuado dos problemas profissionais... como repentinamente as pessoas se dessem conta que há vida para além do trabalho! Bem, as sextas-feiras parecem-me dias excelentes para o comprovar.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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