Escolha as suas informações

Ser ou não ser hispânica
Opinião Sociedade 5 min. 02.12.2020

Ser ou não ser hispânica

Ser ou não ser hispânica

Foto: AFP
Opinião Sociedade 5 min. 02.12.2020

Ser ou não ser hispânica

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Em setembro, uma lista do New York Times incluía portugueses como “não brancos” e “hispânicos”. O sururu chegou às inconsequentes caixas de comentários em Portugal: um país que não se confronta com as suas identidades múltiplas. Uma crónica de Raquel Ribeiro.

Nunca tinha percebido o que significava ser branca – e que tipo de branca era – até chegar ao Reino Unido. Esta afirmação dava pano para mangas, mas digamos que “ser branca” era uma “identidade” com que nunca me confrontei até tarde, mesmo sendo filha de retornados e de um veterano da guerra colonial; mesmo tendo nascido numa família e num país pós-coloniais. No médico, em Liverpool, preenchi uma ficha com dados pessoais. Sendo que me considerava branca, tinha ali três categorias à escolha: branca irlandesa, branca britânica, branca outra. Óbvio: “branca outra”, mas na altura impressionou-me como ainda há separação entre brancos irlandeses e britânicos. Guardei esta dissonância pós-imperial britânica, segura da minha identidade “fixa” ainda que “outra”.

Um dia um taxista do Paquistão pergunta-me se alguma vez tinha sido alvo de racismo. Como assim?, eu sou branca, respondi, ao que ele me disse que eu não era branca, que era “olive” (tez morena) que é uma expressão usada para pessoas do Médio Oriente, Norte de África ou hispânicas. Nunca tinha pensado em mim como “olive”. Realmente só mesmo o meu privilégio poderia explicar que não tinha, até então, percebido que havia múltiplas cores invisíveis dentro da “branca outra”, categorias que passavam menos por inquéritos de recolha de dados, e mais pelo quotidiano de trabalhadores precários, por exemplo, que eu não frequentava.

Anos depois, numa discussão sobre a comunidade cubana nos EUA, uma colega do Canadá disse-me que eu era “hispânica”. Aquilo confundiu-me porque estava seguríssima de ser “branca outra”. Ser hispânica naquele contexto fazia de mim quase porto-riquenha. Alguém explicou que “hispânico” era uma categoria identitária usada nos EUA (e Canadá) e que não se aplicava ao Reino Unido. Descansou-me, talvez porque senti que não gostaria de ser hispânica. Ainda bem que vivia no Reino Unido, concluí, onde podia ser confortavelmente “branca outra”.

Só que cheguei aos Estados Unidos. Não percebia por que me falavam sempre em espanhol, onde quer que fosse. Ainda não abrira a boca: espanhol. Irritava-me: primeiro, não sou espanhola; depois também não era hispânica. Além disso, e apesar de falar espanhol, respondia em inglês com sotaque britânico. Uma hispânica que se recusa a falar espanhol mas responde como se trabalhasse para a BBC?

Não era só eu que recusava aquela categoria – não vivi nos EUA, mas a comunidade luso-americana, por exemplo, é veemente em condenar o Departamento de Censos por incluir portugueses e luso-descendentes na categoria “hispano, latino ou de origem hispana”. Etimologicamente portugueses e espanhóis são hispânicos, porque o nome latino para a Península é precisamente Hispania. Estranho é que “hispânicos” nos EUA sejam também mexicanos, venezuelanos, cubanos que não vêm da Ibéria. Claramente a categoria não é só etimológica, é, acima de tudo, étnico-racial: hispânicos são os que vêm do sul do continente, descendentes crioulos das independências, indígenas, afro. Portugueses e espanhóis, como eu, afinal (naquele momento), não querem ser considerados hispânicos porque vêm da Europa e acreditam, como eu acreditava antes de me saber “olive”, que são brancos europeus e não hispânicos mestiços do Sul Global.

Os EUA são estalos atrás de estalos de realidade. Recomendo o trabalho da antropóloga Cristiana Bastos, "The Colour of Labour", que estuda o processo de racialização de migrantes portugueses nas plantações de cana de açúcar no Hawai, explicando como a ideia de raça sempre foi e continua a ser reconfigurada segundo contextos só aparentemente científicos – porque são sobretudo ideológicos, políticos, económicos.

Primeiro, era preciso sair da bolha académica da “branca outra”, europeia (apesar de tudo). Depois, era sempre “racially profiled” nos aeroportos por ser mulher, viajava sozinha e fazia rotas improváveis via Colômbia, Panamá, Nicarágua. Aquilo fazia de mim um típico correio de droga e, nos aeroportos americanos, era sempre identificada para fazer rastreio na segurança. Nada que se compare com homens “olive” de barba com passaportes do Médio Oriente. Ainda assim, ser hispânico é também viver com este estigma.

Houve, contudo, um momento em que me revi nestas identidades múltiplas – branca classe média no Portugal pós-imperial, branca-outra migrante, “olive” como os do Norte de África, mas privilegiada no Reino Unido académico, hispânica segundo a segurança de aeroporto e o empregado do restaurante da Union Square. Cheguei a Miami depois de um longo período de trabalho de campo. Vinha talvez menos empertigada na minha identidade “europeia”, muito mais consciente das vidas duríssimas dos sul-e-centro-americanos nos seus países e, como emigrantes, nos EUA. Todos os dias almoçava no mesmo café (era uma zona inóspita de Miami, é preciso carro para chegarmos a sítios fancy; não conduzo; andava a pé e de transporte público). Era ali que diariamente conversava com pessoas da minha idade que tinham vindo a salto do México, da Guatemala, de El Salvador. Terras e famílias devastadas por décadas de neo-imperialismo norte-americano. Não admira que, ali, ninguém queira ser “hispânico”. No autocarro, sentava-me ao lado de empregadas da limpeza vindas de todo o continente: ali estava em Medellin ou em Quito, não no Norte. Um dia uma rapariga das Honduras disse-me que não conseguia perceber bem de onde eu era: em espanhol, soava por vezes cubana, mas no ritmo, dizia, parece brasileira. E se eu fosse brasileira? Em Miami seria hispânica. Conclui, já ciente de que, muitas vezes, os brancos têm direito a ser demasiadas coisas e nunca se confrontam muito com isso.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.