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Se os homens tomassem a pílula
Opinião Sociedade 3 min. 21.04.2021

Se os homens tomassem a pílula

Se os homens tomassem a pílula

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 3 min. 21.04.2021

Se os homens tomassem a pílula

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
A polémica envolvendo as vacinas contra a covid-19 e o risco de formação de coágulos fazem-nos perguntar: o que andaram a tomar as mulheres durante décadas?

 A ocorrência de tromboses associadas à vacina da AstraZeneca obrigou à suspensão da sua toma em vários países, atrasando processos de vacinação em massa, alimentando a descrença e o menosprezo do cidadão comum pela ciência e investigação. Descrença numa vacina (e não noutras, note-se), apesar de também a Johnson & Johnson (que acabou de anunciar lucros de 5 mil milhões de euros no primeiro trimestre deste ano) estar agora sob suspeita.

Várias questões se colocam na guerra comercial das vacinas e das farmacêuticas que as produzem, dos Estados que financiaram umas e não outras, do seu preço de venda ao público, da quebra ou não das suas patentes. Se antes os anti-vaxxers eram alvo de chacota como um bando de hippies que dizia em modo namasté "eu não ponho essas drogas no meu corpo" enquanto iam ao Amazonas experimentar ayahuasca, na verdade o que a guerra das vacinas nos está a revelar é que as farmacêuticas não se importam de alimentar suspeitas sobre o rigor da investigação (e contribuir para o descrédito da mesma) se isso reverter em lucros milionários para investidores.

O cidadão resolveu ler a bula do anti-histamínico que toma para as alergias da Primavera ou do paracetamol para aquela enxaqueca horrível. E descobriu que além de poder morrer, pode essencialmente curar-se. Não sem antes desenvolver eczemas, falta de ar ou visão turva. Isto para não falar do "efeito de condução em máquinas2 ou daquela secção que os homens podem ignorar: "efeitos em grávidas e lactantes". Um comprimido para a dor diz-me que não devo tomá-lo se "for alérgico ao diclofenaco". Nunca ninguém me falou no diclofenaco. E se for alérgica? Isto transforma-me numa potencial especialista em toda a medicação que me prescreverem, mas sobretudo transforma a ciência numa espécie de menu a la carte em que o cidadão com doutoramento em Google pode dizer ao enfermeiro diante da agulha: "Se é AstraZeneca então não quero."

O Público partilhou uma excelente infografia explicando que o risco de trombose num infectado por covid-19 é de 11.200 em cada 100 mil pessoas; 50 a 200 grávidas em 100 mil desenvolvem tromboses; 50 a 120 em 100 mil casos num ano de toma de contraceptivos hormonais (vulgo pílula); e uma em 100 mil pessoas que tomaram a vacina da AstraZeneca. No fundo é mais perigoso morrer de covid. Ou andar de avião (16,7 casos em 100 mil).

Comum a quase todos estes riscos (e também efeitos do banal medicamento): as mulheres estão mais sujeitas, seja porque estão grávidas ou a amamentar, queiram engravidar ou, até, queiram não engravidar. Praticamente desde a idade em que são sexualmente activas, as mulheres correm mais riscos de trombose. Muitas tomam a pílula para não engravidar. Mas, em muitos casos, a pílula não é ironicamente só um método contraceptivo: é usada para tratar acne, regularizar menstruação, reduzir dores menstruais, controlar sintomas da síndrome de ovários poliquísticos ou de insuficiência ovariana prematura. 

Ou seja: não é um ano de potenciais tromboses, é uma vida inteira para as mulheres que tomam a pílula. Se os homens tomassem a pílula talvez a ciência já tivesse desenvolvido uma que não provocasse tantas tromboses. Se os homens tomassem a pílula, as notícias sobre vacinas eram apenas sobre a guerra comercial em curso. Assim, ser mulher e tomar um comprimido todos os dias é viver no limite. Perigosamente, durante décadas.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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