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Se o vosso filho torcer um pé, não o levam ao ortopedista...?
Opinião Sociedade 4 min. 09.11.2022
Andamos todos ao mesmo

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Se o vosso filho torcer um pé, não o levam ao ortopedista...?

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 4 min. 09.11.2022
Andamos todos ao mesmo

Se o vosso filho torcer um pé, não o levam ao ortopedista...?

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
... então por que não o levam ao psicólogo se ele estiver angustiado? Se tiver dificuldade em dormir ou medos difíceis de explicar? Se a tristeza se instalar ou se os tiques se acentuarem?

Da primeira vez eu teria uns nove anos. É o que diz a minha mãe. Eu não me lembro da idade exata, mas a progenitora recorda-se de falar sobre isso com a D. Maria Emília, professora na primária e, contas feitas, bate ali na transição entre a quarta classe e a entrada no quinto ano.

Lembro-me das viagens de comboio com a minha mãe, das caminhadas até à clínica, da sala de espera com revistas muito chatas, da poltrona grande no consultório e do sofá/divã confortável onde me deitava para exercícios de relaxamento e concentração. E lembro-me da voz do Dr. Mário. Até porque ele tinha também umas cassetes BASF com gravações dessas mesmas práticas de que eu gostava e que punha a rolar à noite no velho aparelho que as minhas irmãs usavam para gravar músicas do Quando o Telefone Toca, o programa de discos pedidos da Rádio Comercial. É uma recordação boa, esta voz. A voz do meu primeiro psicólogo.

Em meados da década de 80 do século passado não se falava de saúde mental como se fala hoje. Aliás, há três ou quatro anos, antes da pandemia, não se falava da saúde mental como se fala hoje. Mas há quase quarenta anos a coisa era bem diferente.

Não quero incorrer em erro grave sobre a “história do preconceito em torno da psicologia no Portugal pré-CEE”, mas tenho para mim, do que a minha mãe conta, que a coisa não era muito comum. O meu pai torcia o nariz. Não se opunha e confiava na opinião da mulher, ainda por cima enfermeira, mas não entendia bem por que raio precisava eu de um psicólogo. Os meus amigos também não entendiam. Nenhum deles visitava um psicólogo com frequência e se consultas de terapia da fala de que precisei para aprender a dizer os R de forma correta eram coisa fácil de perceber, já a psicoterapia era mais complicada.

A dificuldade de concentração e o facto de não conseguir parar quieto na secretária foram os sinais de alerta que levaram a minha mãe a procurar ajuda. Isso e uma vontade de saber para que lado poderia eu pender em termos vocacionais. Fui seguido durante uns tempos, aprendi a relaxar à noite e a mãe enfermeira, habituada a falar destas questões sem tabu com as colegas, ficou mais descansada. O filho, afinal, era só uma criança comum com inquietações, irrequietações e “cabeça no ar” frequente nos rapazes daquela idade. E ansioso. Uma ansiedade que me acompanharia a vida toda...

Mas o a desconfiança e os estereótipos movem-se e entranham-se de formas estranhas e eu próprio achei, durante várias décadas, que aquilo tinha sido um exagero da minha mãe. Um excesso de zelo. Uma preocupação infundada. Estive mesmo convencido disto...

... até aos 33 anos, quando regressei à psicoterapia pelo meu pé porque precisei de ajuda para enfrentar um luto....

... até aos 40, quando voltei a entrar num consultório porque precisava de entender melhor algumas coisas na minha relação com os outros...

... até aos 43, quando percebi que afinal não tinha entendido tudo e que a alta que eu próprio me tinha dado afinal tinha sido precipitada...

... até aos 45, quando comecei a aplicar à filha mais velha os mesmos exercícios de relaxamento que tinha aprendido com o Dr Mário...

... até aos 47, quando ouvi a minha psicóloga atual, que visito há uns meses, perguntar-me “se o pensamento recorrente A não será afinal um reflexo da ideia B, que é capaz de estar relacionada com a questão C que está há tanto tempo por resolver...”

Afinal não tinha sido exagero da minha mãe... Afinal a falta de ar – que chegou nos tempos do liceu e que o pneumologista acreditava ser fruto de alguma ansiedade – tinha razão de ser. Afinal os tiques constantes – recorrentes na pré-adolescência e que tanto irritavam o meu pai – tinham razão de ser. Afinal a necessidade de ordem nos álbuns de fotografia – e nos livros nas estantes e na escolha do papel igual para forrar os dossiers todos da faculdade – tinha razão de ser...

Temos ainda um longo caminho a percorrer para olhar para a psicoterapia com a mesma naturalidade com que olhamos para outro acompanhamento clínico regular e necessário. Temos nós e têm os serviços públicos de saúde, as autoridades, as empresas que comercializam seguros da especialidade, os hospitais privados, os professores, os pais, as famílias, a sociedade em geral.

Mas o primeiro passo é bem capaz de estar nas mães e nos pais atentos às angústias dos filhos.

Obrigado, mãe. E obrigado, Dr. Mário.

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