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Juventude. Entre as festas e o divã do psicólogo
Sociedade 9 min. 24.06.2021
Saúde

Juventude. Entre as festas e o divã do psicólogo

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Juventude. Entre as festas e o divã do psicólogo

Foto: Laurent Blum
Sociedade 9 min. 24.06.2021
Saúde

Juventude. Entre as festas e o divã do psicólogo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
As gerações mais novas estão a lutar para sair da crise. Os mais fragilizados procuram os serviços de apoio psicológico e saúde mental, que têm consultas lotadas e filas de espera. A maioria dos jovens voltou ao convívio social, adotando os testes de rastreio como rotina, até chegar a vacina.

Andreia, nome fictício, de 13 anos, teve de esperar três meses por uma vaga no hospital de dia do centro psiquiátrico para tratar os problemas agudizados pela pandemia que a levaram a fechar-se em casa e a querer por termo à vida, no final do ano passado. O aumento dos jovens nas consultas de saúde mental por causa da covid-19 tem lotado vários serviços de apoio psicológico e psiquiátrico no Luxemburgo, e o centro onde Andreia recebe tratamento diário, em ambulatório, vai em breve abrir um novo polo para responder às necessidades dos seus pacientes juvenis.

O impacto negativo da crise sanitária nos jovens é visível e está já documentado em vários estudos realizados no Luxemburgo, sendo igualmente uma das conclusões do Relatório Nacional sobre o bem-estar e saúde da Juventude do Luxemburgo 2020, divulgado no final da semana passada.

Realizado a cada cinco anos, este Relatório Nacional sobre a Juventude já tinha sido decidido focar-se no bem-estar e na saúde dos jovens, mesmo antes da pandemia chegar, devido a um crescimento dos problemas psicológicos verificados nos últimos anos. A crise sanitária da covid-19 agravou e muito estas fragilidades, revela este estudo nacional elaborado pela Universidade do Luxemburgo e que abrangeu cerca de 140 mil jovens, entre os 12 anos e os 29 anos, "quase um quarto da população do país", como indica Robin Samuel, um dos coordenadores da investigação, da Universidade do Luxemburgo (UNI).

"Nos vários estudos que realizámos para o Relatório da Juventude, descobrimos que os jovens parecem sofrer uma pressão crescente para terem sucesso", na vida escolar e profissional, declarou ao Contacto o investigador Robin Samuel. Estas pressões levam alguns a angustiar-se com o seu futuro, sobretudo na fase de transição da escola para a vida profissional. "Com isso, surgem preocupações em relação ao desemprego, à capacidade de ganhar a vida, e talvez de constituir uma família", vinca o professor da UNI, realçando que estas são pressões comuns sentidas pela juventude de outros países semelhantes.

Contudo, "há aspetos específicos do Luxemburgo" que aumentam as preocupações dos jovens, "como a situação tensa do mercado imobiliário e os crescentes problemas de tráfego e transporte", frisa este coordenador do Relatório Nacional e especialista em estudos sobre a juventude na UNI.

"Adicionalmente, alguns jovens expressaram preocupações sobre problemas ambientais e alterações climáticas que geram também uma certa ansiedade sobre o futuro". O "stress atual" causado pela pandemia veio assim juntar-se "às preocupações e receios existenciais sobre o futuro", vinca este especialista.

Fragilidades aumentam problemas

Qual o impacto direto da pandemia na saúde mental dos jovens? "Muitas das atividades sociais deixaram de ser possíveis. Alguns jovens conseguiram encontrar substitutos para estas atividades e até beneficiar da situação, outros, claramente, não tiveram sucesso. A situação é particularmente difícil para aqueles que já passavam por dificuldades antes da pandemia, por exemplo, na escola e, talvez, ao mesmo tempo sofressem de problemas de saúde", declarou Robin Samuel. E acrescentou: "Globalmente, o nível de satisfação de vida diminuiu entre a juventude, mas não na mesma medida para todos os jovens". Tudo depende das classes sociais a que os jovens pertencem.

"Enquanto os jovens de classes socialmente favorecidas tiveram maiores probabilidades de beneficiar com a crise pandémica, nos grupos socialmente desfavorecidos a probabilidade da sua situação piorar foi maior", realçou Robin Samuel, sublinhando que "ainda estamos em situação de pandemia, pelo que, só poderemos realmente avaliar algumas das consequências dentro de um, dois ou até mais anos".

Para já, os resultados do Relatório Nacional da Juventude 2020 vão servir de base para o desenvolvimento de diversas medidas, como anunciou o ministro da Educação, Claude Meisch na apresentação deste estudo. Questionado sobre os conselhos que pode dar ao Governo, enquanto coordenador do relatório, este professor da Uni realçou: "O meu papel não é o de dar conselhos diretos". No entanto, prosseguiu Robin Samuel, "com base nos nossos estudos, parece sensato criar mais ofertas para os grupos socialmente desfavorecidos, utilizando abordagens de baixo limiar. Também pode ser útil promover mais o conhecimento sobre a saúde mental. Desta forma, os jovens podem avaliar melhor quando eles, ou os amigos, precisam de ajuda".


Os jovens desfavorecidos "sofreram muito mais com a pandemia do que os outros"
A adoção de medidas específicas para compensar as desigualdades socioeconómicas dos alunos são uma das prioridades anunciadas pelo Ministro da Educação, Claude Meisch, nesta entrevista exclusiva.

A saúde mental dos jovens foi "abalada pela pandemia", como vincou Claude Meisch, na apresentação e o impacto da crise sanitária é uma das maiores preocupações do seu ministério. Por isso mesmo, estão a decorrer diversos estudos de âmbito nacional sobre as implicações da covid-19 no bem-estar dos adolescentes e jovens, sob a alçada do pelouro da educação.

De acordo com os dados do ministério da Segurança Social houve um aumento de 15,4% das crianças e jovens, entre os 0-19 anos, que consultaram um psiquiatra, pelo menos uma vez, entre 2019 e 2020. Esta foi a faixa etária com maior aumento na população que recorreu a estas consultas e pediu reembolso à CNS, a seguir aos pacientes entre os 30-39 anos (15,8%). Entre os 20-29 anos o aumento foi de 8,7%, indica o ministro Romain Schneider numa resposta parlamentar desta terça-feira.

Apoio psicológico gratuito

Nas escolas secundárias do país, o alarme está a tocar com o crescimento de estudantes a necessitar de apoio psicológico levando professores e psicólogos escolares a reforçar atenções e colocar em ação novas medidas multidisciplinares.

Os psicólogos do Centro de Apoio Psicossocial e Educativo (Cepas) e os profissionais em geral “estão a notar um aumento de certas perturbações nos estudantes, tais como ansiedade e perturbações do humor”, confirmou ao Contacto Nathalie Keips, responsável do Cepas, organismo que gere os psicólogos escolares.

Nas escolas, os alunos têm à sua disposição diversos apoios a que podem recorrer para falar sobre os seus anseios e angústias e prevenir situações mais graves. "Os serviços psico-socio-educativos Sepas (serviço psico-social e de acompanhamento escolar), o SSE (serviços sócio-educativo) e o ESEB (equipa de apoio aos estudantes com necessidades educativas particulares ou específicas) compostos por psicólogos, educadores, assistentes sociais e pedagogos constituem em oportunidade real para os alunos nos estabelecimentos escolares. Esta proximidade é uma grande vantagem do nosso sistema", disse Nathalie Keips.

Além do apoio psicológico escolar, onde existem especialistas que dominam o português, como outros idiomas, par abranger a multiculturalidade dos alunos, os alunos podem também beneficiar gratuitamente de consultas e seguimento psicológico, em consultórios externos, se a sua situação assim o justificar. Recorde-se que no Luxemburgo, estas consultas e a psicoterapia não são ainda comparticipadas pela Caixa Nacional de Saúde.


"A precariedade generalizada dificulta que os jovens se possam projetar no futuro"
Num tempo de incertezas multiplicam-se soluções comunitárias como forma de viver melhor, essas experiências provam que há outros caminhos para as sociedades humanas para além do capitalismo, defende o antropólogo João Carlos Louçã.

"As consultas psicológicas dos vários parceiros do Gabinete Nacional para as Crianças são oferecidas e acessíveis a todos os alunos", confirmou Nathalie Keips. Mas o recurso a estes profissionais fora do âmbito escolar, só acontece em casos especiais. "Para além das parcerias habituais (psiquiatria juvenil, provedores institucionais ou privados), a questão do encaminhamento surge em casos concretos, de cuidados psicoterapêuticos ou psicológicos urgentes (por exemplo, pensamentos suicidas, ataques à integridade psicológica), ou nos pedidos de acompanhamento a longo prazo de estudantes que sofrem de perturbações emocionais (ansiedade-depressão crónica, TOC, perturbações dissociativas, TEPT), perturbações alimentares e perturbações de adaptação pós-traumática", explicou esta responsável do Cepas.

A nova rotina dos testes de rastreio

Apesar do aumento de pacientes nos serviços de saúde mental, no geral, os jovens souberam lidar positivamente com a situação pandémica. O novo Relatório Nacional da Juventude realça que três em cada quatro jovens no Luxemburgo dizem-se satisfeitos com a sua vida, colocando a sua saúde e bem-estar num nível médio, ou alto de satisfação.

Juliana Valente, 17 anos, já acalmou os receios e temores iniciais que a covid-19 lhe trouxe sobre a sua vida, voltando agora a “ter esperanças num futuro risonho”, como confessa ao Contacto.

A vacinação da população, o relaxamento das restrições e os testes de rastreio que faz "duas vezes por semana na escola", devolveram-lhe "o convívio com os amigos2, e o regresso a uma certa nova normalidade da qual teve "tantas saudades".

Juliana até conseguiu arranjar um part-time num restaurante, onde está a trabalhar aos fins de semana e, por vezes, uma noite durante a semana. "Antes da pandemia tinha sido mais fácil encontrar um part-time destes, mas mesmo assim consegui e estou a gostar", vincou.

"Eu e os meus amigos já combinamos encontros, jantares e festas, mas temos sempre de reservar mesa com antecedência. Acho que as pessoas estão a sair mais do que o habitual depois de meses de isolamento e restrições", contou esta adolescente. E dá como exemplo o seu local de trabalho. "O restaurante está quase sempre cheio e ninguém se importa de fazer os autotestes de rastreio", vincou esta jovem. Também ela depressa se habituou a ser testada duas vezes por semana na escola. "Já faz parte das nossas rotinas e assim podemos apresentar os resultados negativos quando nos exigem quer seja nos restaurantes ou nas discotecas, que felizmente já abriram também", disse animada Juliana Valente.

Como tem 17 anos, esta adolescente ainda não pode vacinar-se contra a covid-19, mas a espera "não está a ser um problema porque posso sempre apresentar o resultado dos testes realizados na escola". No entanto, quando a campanha de vacinação passar a abranger os menores de 18 anos, Juliana Valente quer receber a vacina. "Estando vacinada será muito mais prático dado que não terei de realizar testes frequentemente".

Quando o ano letivo terminar Juliana e todos os jovens com menos de 18 anos e pessoas que ainda não podem ser vacinadas podem continuar a ser testados gratuitamente no âmbito da testagem de larga escala. Esta possibilidade existe desde o início desta semana e irá continuar durante o verão, como já anunciou o Governo, para que todas estas faixas etárias, sobretudo os mais novos tenham um maior acesso aos testes gratuitos e possam aceder aos mesmos locais e atividades que os adultos vacinados, já infetados e recuperados e testados negativamente.

Os amigos de Juliana Valente até já pensam em conhecer novas pessoas e iniciar relacionamentos amorosos, algo que durante quase um ano de covid-19 e isolamento social "deixaram de pensar dado o receio que tinham de ficar contaminados e infetarem os seus familiares".

Restrições foram bem aceites

O facto das medidas de restrição da covid-19 terem sido bem recebidas pelos jovens, como indica o Relatório Nacional de Juventude causou uma certa surpresa nos seus autores. "Surpreendeu-nos o facto de os regulamentos terem sido bem aceites por muitos jovens", declarou Robin Samuel. De acordo com os resultados seis em cada dez jovens avaliaram as medidas como totalmente adequadas, dois em cada dez jovens consideraram mesmo que "não eram suficientemente rigorosas". Do outro lado, apenas um em cada dez avaliou as restrições como muito excessivas.

A maioria dos jovens classificou "as medidas como adequadas e justificadas, sobretudo para proteger grupos em risco e não como autoproteção", vincou este coordenador do Relatório Nacional da Juventude.

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