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Sam Tanson. Quando uma ministra é julgada pelo corte de cabelo

Sam Tanson. Quando uma ministra é julgada pelo corte de cabelo

Foto: Pierre Matgé
Sociedade 7 min. 10.04.2019

Sam Tanson. Quando uma ministra é julgada pelo corte de cabelo

Catarina OSÓRIO
A ministra luxemburguesa da Cultura e da Habitação foi uma das vítimas mais recentes de comportamentos sexistas e discursos de ódio contra as mulheres. Tudo com base na sua aparência. Caso isolado ou sintoma de uma sociedade ainda naturalmente sexista?

Sam Tanson é uma das recentes vítimas do discurso de ódio que continua a incidir sobre as mulheres nos cargos políticos. Mais ainda: o comentário é de mulher para mulher. Numa carta dirigida recentemente à ministra da Cultura e da Habitação, e acobardando-se atrás do anonimato, uma mulher criticava sobretudo o corte de cabelo e a maneira de vestir de Tanson em tom de exaltação. 

O seu "corte de cabelo masculino!!" é um absoluto "NO GO" [não é opção]. "Com este corte a ministra envergonha-se a ela própria, mas também à sua família e ao nosso país no mundo inteiro". 

Mais à frente, a mensagem assume um tom de conselho. A anónima recomenda à ministra que abandone tanto o "corte de cabelo", curto e cinzento grisalho, como o "visual". Só assim "conseguirá olhar-se ao espelho". E aconselha-a a seguir o exemplo da burgomestre do Luxemburgo, "Lydia Polfer", e da ministra da Igualdade de Oportunidades, "Tania Bofferding", referia. Repare-se que o nome de ambas está mal escrito. "Lydia" é Lydie e "Tania" é Taina.

Para Isabelle Schmoetten, da plataforma luxemburguesa CID-Fraen an Gender (Mulheres e Género, em luxemburguês), estes comentários demonstram "como a imagem de uma mulher ativa na política é ainda frequentemente reduzida aos seus atributos físicos".

A investigadora relembra que o caso não é novo na sociedade luxemburguesa. Quando Taina Bofferding foi eleita ministra do Interior, o sindicato da função pública luxemburguesa (FGFC) referiu-se à governante como "uma mulher jovem, com uma cara feminina e fresca", conta.

A imagem de uma mulher ativa na política é ainda frequentemente reduzida aos seus atributos físicos.

Que o caso de Sam Tanson está longe de ser o único, mostram-no as reações das ministras Corinne Cahen, com a pasta da Família e Integração e da Grande Região, e Taina Bofferding. "Elas próprias receberam cartas semelhantes, que comentavam ou diminuíam a sua aparência física", relembra a responsável da secção política da associação de defesa dos direitos das mulheres.

Apesar de "deplorar" o "comportamento de mau gosto e redutivo", Taina Bofferding considera, em contraponto, que estas atitudes não são tanto "uma questão sexista para demarcar a superioridade entre homens a mulheres, mas antes uma imagem estereotipada da autora [dos comentários], com propósitos ácidos e com a intenção de ferir". Questionada sobre o caso, a ministra Sam Tanson não respondeu em tempo útil.

Estes exemplos, denominados de "sexismo estrutural", "colocam os corpos das mulheres no centro das atenções, na premissa de que o público tem o direito de os julgar". "Atitudes que estão enraizadas nos nossos pensamentos e reflexões – pouca importa o sexo e o género a que pertencemos", explica Isabelle. "Aquilo que deveria estar no foco da atenção de qualquer político, independentemente do género: o discurso e as ações", defende a investigadora.

Sam Tanson "pôs sal na ferida"

Face à carta anónima, a ministra da Cultura e Habitação reagiu de acordo com o pedido do Conselho Europeu: que se dê voz às vítimas. Ela própria, além de ter publicado a carta nas suas contas nas redes sociais, comentou-a em tom irónico e jocoso: "Peço desculpa se ridicularizo o Luxemburgo, mas eu vou manter o meu cabelo (e as minhas vestes horríveis). Não olhem para mim, apenas ouçam o que eu digo e sigam o que eu faço. Prefiro ser julgada com base nisto, caso contrário estaria a trabalhar na indústria da moda."


Uma atitude considerada corajosa. "Ficar calado ou tentar minimizar a situação seria um erro", considera Taina Bofferding. "A ministra pôs sal numa ferida que a maior parte das pessoas gosta de ignorar: estamos ainda longe de uma igualdade de facto entre géneros", defende igualmente a responsável da associação de defesa dos direitos das mulheres.

Incentivado pelo movimento #MeToo, que tornou o "sexismo" um fenómeno aparentemente mais visível, o Conselho Europeu definiu recentemente a palavra como forma de chamar a atenção para o problema. O organismo define o conceito como "a manifestação de ‘relações de poder desiguais históricas’ entre homens e mulheres, que origina discriminação e impede o progresso pleno da mulher na sociedade", aponta o comunicado de 28 de março.

Em declarações ao Contacto, a ministra da Igualdade de Oportunidades, Taina Bofferding, saúda a iniciativa, lamentando que o sexismo continue, no entanto, "espalhado e prevalente em todos os setores e sociedades". Fenómeno a que o governo luxemburguês não está alheio e para o qual prepara medidas de combate para os próximos meses.


As escadas do poder têm mais obstáculos para as mulheres
Num momento em que 23 associações, sindicatos, partidos políticos e ONG escreveram a Xavier Bettel, reclamando que o próximo Governo tenha paridade entre mulheres e homens, o Contacto procurou explicações para a falta de mulheres em lugares de decisão. E há respostas de mulheres que decidem.

Ocasio-Cortez, Clinton, May, Lagarde... 

Casos de comentários depreciativos ou julgamentos superficiais com base na aparência, sobretudo a mulheres, são recorrentes na política internacional. Mulheres e homens no mesmo cargo são frequentemente julgados com base em diferentes argumentos, o que os investigadores caracterizam como "duplo critério". 

Em 2011, a atual diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, abandonou orgulhosamente uma entrevista de emprego para uma sociedade de advocacia em Paris quando lhe foi dito que não esperasse ser tornada associada, já que era uma mulher. 

Terá também este duplo critério estado na base da derrota de Hillary Clinton nas presidenciais americanas face a Trump, em 2016? Durante a campanha, a então candidata foi acusada de falar muito alto, ser abrasiva, estridente, ou indiferente. Já para não falar de outras trivialidades, como apontamentos à maquilhagem, ao cabelo, ou mesmo à sua idade.

Tal como no caso de Sam Tanson, as indumentárias também são motivo de bullying. A deputada-estrela norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez, dos Democratas, é uma das mais proeminentes vítimas de comentários depreciativos constantes à forma como se veste. A ex-primeira-ministra australiana, Julia Gillard, já tinha sofrido ataques semelhantes em relação à sua aparência quando liderou o país, entre 2010 e 2013. Uma das primeiras críticas a Theresa May, assim que foi eleita primeira-ministra do Reino Unido, tinha a ver com as suas escolhas de sapatos. 

No caso americano, a roupa das congressistas está a tornar-se num símbolo da emancipação feminina e da luta pela desigualdade e discriminação sexuais. Uma espécie de "estou-me nas tintas" em relação a anos de julgamentos depreciativos e insultos.

Luxemburgo: retrocesso na igualdade de género

O "sexismo estrutural" é um fenómeno mundial, uma tendência a que o Luxemburgo não escapa, segundo vários estudos. No mais recente Índice de Igualdade de Género – relativo a 2015 -, criado pelo Instituto Europeu da Igualdade de Género, o Luxemburgo pontua 43.5 na categoria "poder" (que inclui subcategorias como cargos de liderança também em empresas), abaixo da média europeia a 28 (48.5). Considerando apenas o setor político, o país chegou aos 51.1, mas continua abaixo da UE-28 (52.7). Suécia, Finlândia, França, Espanha, Alemanha e Dinamarca ocupam os lugares cimeiros, acima de 70 pontos. 

Num outro relatório publicado pelo Fórum Económico Mundial, o Luxemburgo surge a pouco menos de meio da tabela, ocupando o 61° lugar em 149 países no Índice Global da Diferença de Género, ligeiramente abaixo da média global. Aliás, o Grão-Ducado retrocedeu cinco lugares entre 2006 e 2018 (relatório completo aqui). 

O indicador "fortalecimento político" em relação ao género é o que regista o maior retrocesso, tendo descido 23 posições, de 44° para 67°, isto apesar de o número de países incluídos no ranking ter aumentado entre 2006 e 2018. Se por um lado as mulheres estão acima da média global no que toca à representação parlamentar, nos cargos ministeriais e no número de líderes de Estado o país deixa muito a desejar. No atual governo há cinco ministras num total de 17 governantes - menos de metade -, e nunca o país foi liderado por uma mulher. 

A CID-Fraen an Gender espera que "a nova vaga de feminismo internacional tenha um forte impacto no Luxemburgo". "Mantemos a esperança", remata Isabelle Schmoetten. Mas como mostra o caso da ministra da Habitação, o caminho ainda é longo.

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