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Sacrificados no altar do capitalismo
Opinião Sociedade 3 min. 21.12.2021
Tornado nos EUA

Sacrificados no altar do capitalismo

Tornado arrasou milhares de casas no estado americano do Kentucky, há duas semanas.
Tornado nos EUA

Sacrificados no altar do capitalismo

Tornado arrasou milhares de casas no estado americano do Kentucky, há duas semanas.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 21.12.2021
Tornado nos EUA

Sacrificados no altar do capitalismo

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Olhamos para as notícias do nosso mundo e é impossível não sermos transportados no tempo para o capitalismo selvagem de Dickens.

Charles Dickens é o grande cronista dos primórdios do capitalismo - a tal ponto que lhe mudou o adjectivo de "industrial" para "selvagem". Em "Oliver Twist", o autor (ele próprio tinha começado a trabalhar aos 12 anos numa fábrica de graxa de sapatos) descreve a realidade desoladora da sociedade mais avançada do mundo no século XIX, a Inglaterra vitoriana: uma prosperidade alicerçada no esforço manual totalmente desumano, no trabalho infantil e na exploração das classes eternamente mais baixas da sociedade, condenadas a uma vida de pobreza insalubre passada de geração em geração.

Olhamos para as notícias do nosso mundo e é impossível não sermos transportados no tempo para o capitalismo selvagem de Dickens. Há menos de duas semanas, o tornado mais forte de sempre (dopado por alterações climáticas provocadas pela poluição acumulada desde a revolução industrial) semeia um rasto de destruição pelo centro dos Estados Unidos. No Kentucky, uma fábrica de velas labora durante a noite, apesar das estridentes buzinas de alarme do estado de emergência. No meio da preocupação crescente, a centena de trabalhadores pede para ir para casa; os patrões ameaçam quem se atreva a sair com o despedimento imediato, e chamam os nomes um a um para se assegurarem de quem ninguém tinha já escapado. Uma hora mais tarde, a fábrica é obliterada deste mundo. Oito pessoas morrem, outras são soterradas vivas mas salvas a tempo.

Estes seres humanos não morreram por acidente. Morreram porque estavam a trabalhar no caminho de um formidável tornado.

Um pouco mais acima, no Illinois, vive-se uma situação semelhante. Os armazéns da Amazon são feitos de chapa e fórmica, e quando o tornado desaba, as paredes e o tecto começam a desmoronar-se. Os empregados, obrigados a trabalhar durante um alerta de tornado porque só podem ficar em casa se usarem os (poucos) dias de férias a que têm direito, só têm uma possibilidade: conseguir chegar às casas de banho, que são um pouco mais sólidas mas ficam do outro lado do gigantesco armazém, a cinco campos de futebol de distância. Seis pessoas não o conseguiram. Pelo menos uma delas morreu enquanto tentava auxiliar os colegas a encontrar abrigo.

Estes seres humanos não morreram por acidente. Morreram porque estavam a trabalhar no caminho de um formidável tornado. E estavam ali porque não puderam sair e porem-se em segurança, ameaçados pelos seus patrões. Tiveram que decidir entre arriscar a vida ou arriscar a sobrevivência: perder o emprego, mesmo que este se confunda com escravatura e pague 15 euros brutos por hora, significa pobreza e fome. Estas pessoas não têm legislação que as proteja. Não têm sindicatos que os defendam e que exijam, sei lá… que o armazém não os soterre durante um tornado. É cada um por si, e "se não quiseres desaparece que há muito quem queira".

Foram sacrificados. Sacrificados no altar do capitalismo tardio, a religião onde estes "danos colaterais" têm de acontecer para que eu possa receber em casa o massajador de pescoço Bluetooth (apenas 19,99) em apenas dois dias, o sistema onde pessoas são tratadas como robôs para que o dono da Amazon, sorriso maléfico afivelado no rosto, possa brincar aos foguetões com uma gota da sua riqueza incomensurável - e há tanto simbolismo macabro em que o sexto lançamento tenha acontecido, a 11 de Dezembro, o exacto mesmo dia da catástrofe.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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