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Sabe quem eu sou?
Opinião Sociedade 4 min. 20.01.2022
Celebridades

Sabe quem eu sou?

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Sabe quem eu sou?

Foto: Hauke-Christian Dittrich/dpa
Opinião Sociedade 4 min. 20.01.2022
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Sabe quem eu sou?

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
O "sabe quem eu sou?" é uma espécie de revista Caras do poder esfregado na nossa cara pela banalização quotidiana que os media fazem da concentração abjecta de riqueza.

Certamente já conheceu pessoas que, no meio de uma discussão, gritam: "Mas sabe quem eu sou?" Esse tom é a ameaça de um status velado. Mesmo que não saibamos quem é, há algo no gesto, no botão de punho, no tom de voz, no carro estacionado sobre a passadeira que se torna implícito.

Mostra-nos que a pessoa tem permissão para quebrar a lei, ser mal-educada, passar o vermelho, falar por cima, prevaricar. São pessoas que puderam fazer sempre tudo. Que sempre trataram assim os outros. E a quem nunca foi dito que "ficassem no seu lugar", "batessem a bola baixo", "voltassem para a sua terra".

É um "sabe quem eu sou?" que os media, celebridades, empresários e muitos políticos nos gritam diariamente, como as festas do governo britânico enquanto estávamos em quarentena, os escândalos de pedofilia do filho da rainha de Inglaterra, as férias de que Ricardo Salgado não se recorda, ou os recordes diários do valor da riqueza ultrapassados por multimilionários compensados por mais uma voltinha ao espaço.

O "sabe quem eu sou?" é uma espécie de revista Caras do poder esfregado na nossa cara pela banalização quotidiana que os media fazem da concentração abjecta de riqueza.

Boris é assim. Os populistas ingleses não se comportam como Trump ou Bolsonaro porque estudaram em Oxford e aprenderam a usar quatro talheres e três copos. Na aparência é tudo elegância e finesse, e um sotaque cheio de fleuma que denota upper class. Um sotaque, aliás, que demonstra ao exterior, sempre encantado com a englishness, que não, ainda não sabemos bem quem é, sir, mas sabemos que deve ser muito importante. Sob a capa que têm de vestir, a tapar a camisa suada e manchada de cerveja e gordura de batata frita do pub, para aceder ao protocolo da high table, são os mesmos xenófobos, os mesmos racistas, o mesmo ódio às mulheres, aos pobres, aos imigrantes, os mesmos classistas de sempre.

Boris é uma espécie de palhaço-rico do circo mediático britânico, um clown que sempre se alimentou daquele ar bonacheirão e de humor condescendente que, ainda assim, passa pelos pingos da chuva, enquanto na sua retaguarda, e com a sua conivência e autorização, se reorganizam e redistribuem o poder, o Estado, os recursos. É isto que se aprende na high table, ou se ensina num tutorial: não mostrar nunca o que (não) se sabe, mas mostrar o que queremos que o outro pense que sabemos.

De escândalos em escândalos, até ao nosso torpor adormecido de tédio, abafados pelos spins, são rapidamente substituídas, pelo glamour das páginas do mesmo jornal, as mesmas figuras agora em trajes menores, no seu iate em Ibiza, em caçadas de elefantes ou de férias na neve.

É inacreditável que o perfil da herdeira da Zara, uma das maiores empresas têxteis do mundo, seja relegado pelo seu estatuto (feminino?) para o lifestyle.

As páginas de lifestyle do Público, por exemplo, deram conta da passagem de testemunho do empresário têxtil, Amancio Ortega, dono da Inditex (Zara, Massimo Dutti) à sua filha Marta, que acontecerá em Abril. Esta secção chama-se Ímpar e não é sobre economia, nem trabalho, nem negócios, nem finanças, nem sobre moda. É ali que se concentram notícias como "morreu a filha secreta do ditador italiano Benito Mussolini" ou "Kate Middleton fez 40 anos e deslumbrou com três vestidos" (portanto, Caras), mas também "não são precisos sumos detox para limpar as nossas entranhas" (saúde?).

É inacreditável que o perfil da herdeira da Zara, uma das maiores empresas têxteis do mundo, seja relegado pelo seu estatuto (feminino?) para o lifestyle. Mas o pior é que depois lemos que nem Marta nem o seu pai têm escritório na sede da Inditex, na Corunha. Pelo contrário, "ambos gostam de se sentar junto dos restantes trabalhadores (só na Corunha, a Inditex emprega mais de 5.500 pessoas). Conta-se mesmo que o 15º homem mais rico do mundo prefere sentar-se no chão."

Fui ao armário e peguei numa camisola da Zara, dizia made in Bangladesh na etiqueta, e vi Marta e Amancio a perguntarem "sabe quem eu sou?" enquanto se sentavam no chão da fábrica junto dos "seus" trabalhadores.

(Autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.)

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