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Sabe o que quer fazer antes de morrer? Escreva-o na Gare do Luxemburgo

Sabe o que quer fazer antes de morrer? Escreva-o na Gare do Luxemburgo

Foto: Sibila Lind
Sociedade 3 min. 07.02.2019

Sabe o que quer fazer antes de morrer? Escreva-o na Gare do Luxemburgo

Incitar quem passa pela Gare do Luxemburgo a refletir na sua própria mortalidade e no que realmente importa é o objetivo do projeto artístico "Before I die..." ("Antes de morrer..."). Uma ardósia exposta na sala de espera da estação regista os desejos dos viajantes, e nem a ministra da Família se furtou ao jogo.

"Before I die..." chega ao Luxemburgo depois de ter passado por 78 países e mais de quatro mil paredes em todo o mundo. No Grão-Ducado, o projeto artístico internacional vai estar disponível na estação da capital luxemburguesa durante seis semanas. Até 15 de março, a iniciativa, que chega ao Grão-Ducado pela mão da associação de cuidados paliativos Omega 90, convida os viajantes a completar a frase "Before I die I want to..." ("Antes de morrer eu quero..."). Para isso, basta escrever o resto da frase no quadro negro, a giz.

Foto: Sibila Lind

"O nosso objetivo é desfazer o tabu sobre a morte e dar um lugar ao luto na nossa sociedade", explicou Roger Molitor, presidente da Omega 90, para quem a ideia é criar um "memento mori" (locução latina que significa "lembra-te que vais morrer") dos tempos modernos. A associação defende por isso que o projeto vai para além do simbólico e ajuda a recordar o que a vida tem de mais certo, relembrando o que realmente interessa. "É muito realista: a única coisa que é certa na vida é que todos nós vamos morrer, um dia. Mas cada um de nós é diferente", acrescenta a diretora da Omega 90, Christine Dahm. Por isso, o desejo íntimo de cada um é diferente, e "o que cada um escreverá para completar a frase será particularmente singular, particularmente íntimo".

O painel serve também para assinalar o décimo aniversário da lei dos cuidados paliativos, aprovada em simultâneo com a lei que despenalizou a eutanásia no Grão-Ducado. O enorme quadro negro foi inaugurado esta quarta-feira, e nem a ministra da Família e da Integração, Corinne Cahen, se furtou ao desafio. Se houve quem escrevesse que  gostava de nadar com golfinhos antes de morrer, ou de ganhar coragem para experimentar fazer "bungee jumping", o desejo da ministra é bastante mais prosaico: "be happy" (ser feliz), escreveu Corinne Cahen.

A ministra da Família, Corinne Cahen, durante a inauguração.
A ministra da Família, Corinne Cahen, durante a inauguração.

O projeto "Before I die" foi criado nos Estados Unidos pela artista norte-americana Candy Chang, que pintou o primeiro painel em 2009, depois de ter perdido uma pessoa próxima. Foi a forma encontrada para combater a depressão que se seguiu e fazer o luto dessa perda. Candy Chang queria saber o que os outros sentiam em relação à morte e partilhar essas reflexões com o mundo. Para isso, começou por pintar as paredes de uma casa abandonada no seu bairro, em New Orleans,  no Sul dos Estados Unidos, com a frase "Before I die I want to…", deixando espaços para completar a frase e giz para escrever. A experiência teve um sucesso tão grande que se expandiu rapidamente a várias cidades e países.

Foto: Sibila Lind

A Omega 90 é uma associação sem fins lucrativos que defende o acesso a cuidados paliativos e dá apoio a famílias enlutadas, tendo igualmente atendimento psicológico em português. A associação tem quatro serviços: um centro de cuidados paliativos com 15 quartos individuais, designado "Haus Omega", cerca de 70 voluntários que prestam assistência a pessoas com doenças incuráveis em hospitais e clínicas, cursos de formação para profissionais e voluntários e atendimento psicológico em várias línguas, incluindo em português.


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