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São precisos "estudos de longa duração pós infeção para saber o real impacto cardiovascular" da covid-19
Sociedade 5 min. 30.03.2021 Do nosso arquivo online

São precisos "estudos de longa duração pós infeção para saber o real impacto cardiovascular" da covid-19

São precisos "estudos de longa duração pós infeção para saber o real impacto cardiovascular" da covid-19

Sociedade 5 min. 30.03.2021 Do nosso arquivo online

São precisos "estudos de longa duração pós infeção para saber o real impacto cardiovascular" da covid-19

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Lino Ferreira lidera a equipa portuguesa que participa no projeto Covirna, coordenado pelo Instituto de Saúde do Luxemburgo e que quer ajudar a identificar o risco de desenvolvimento de problemas cardiovasculares em doentes covid-19. O especialista em biotecnologia da Universidade de Coimbra falou ao Contacto sobre a participação portuguesa neste projeto e sobre o muito que ainda não se sabe sobre as consequências do vírus no corpo humano.

Covirna é o nome do projeto científico liderado pelo Instituto Luxemburguês de Saúde (LIH, na sigla original), que está a investigar o desenvolvimento de um novo teste de diagnóstico para identificar pacientes covid-19 que correm o risco de desenvolver complicações cardiovasculares fatais. 

Portugal participa com uma equipa da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) e do Centro para a Inovação em Biotecnologia e Biomedicina (CIBB), coordenada pelo investigador e especialista em biotecnologia, Lino Ferreira.

Lançado no final de 2020 e com um horizonte de dois anos, o projeto está ainda numa fase preliminar, começando a dar os primeiros passos numa altura em que a covid-19 continua a trazer novos desafios, com o aparecimento de variantes mais contagiosas ou a síndrome inflamatória multissistémica pediátrica em crianças, muitas vezes assintomáticas, pós-infeção Covid-19.

Embora o estudo incida sobre os adultos, o investigador da Universidade de Coimbra aborda, em entrevista ao Contacto, essas consequências, a nível cardíaco, nos mais novos e sublinha a necessidade de serem necessários estudos de longa duração após a infeção por covid-19 para saber o real impacto do vírus a nível cardiovascular, em pacientes saudáveis.

Lino Ferreira, investigador da Universidade de Coimbra e coordenador da equipa portuguesa do projeto Covirna
Lino Ferreira, investigador da Universidade de Coimbra e coordenador da equipa portuguesa do projeto Covirna
Foto: UC_Paulo Amaral

Em que fase se encontra o projeto Covirna? Quais os principais progressos desde que o projeto foi lançado? 
O projeto Covirna irá ser desenvolvido num período de dois anos e conta com a colaboração de 15 parceiros de áreas relacionadas com a saúde, academia e indústria, de 12 países do continente europeu. Atualmente alguns parceiros já constituíram os seus coortes enquanto outros estão ainda na fase de constituí-los, com amostras de pacientes que serão depois centralizados no nosso parceiro da industria que já terá iniciado a analise de RNAs longos não codificantes (lncRNAs) de alguns dos coortes já disponíveis. Mas só iremos ter os dados após a analise completa de todos os coortes deste estudo. 


Estudo. Doentes hospitalizados apresentam lesões no coração após alta
Um estudo hoje divulgado revela que mais de metade das pessoas hospitalizadas com covid-19 grave, e com níveis elevados da proteína troponina no sangue, apresentam lesões no coração que foram detetadas um a dois meses após alta clínica.

Este estudo é coordenado pelo Luxemburgo. Qual o contributo da participação portuguesa? 
Portugal, através de uma equipa da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e do Centro para a Inovação em Biotecnologia e Biomedicina (CIBB) liderada por mim e com a colaboração do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), vai contribuir numa primeira fase com a elaboração de um coorte [grupo] de pacientes portugueses infetados com Covid-19 e, numa segunda fase, irá contribuir no desenvolvimento de um sistema que irá permitir a entrega eficiente de lncRNAs que demonstrem ter potencial de cardioproteção. 

À medida que a investigação nesta área vai aumentando e se vai conhecendo cada vez mais pormenores poderá vir a ser possível identificar crianças que serão mais suscetíveis e atuar atempadamente para reduzir ou até mesmo impedir danos cardiovasculares causados por este tipo de síndromes."

O Hospital de Santa Maria (Lisboa) teve internados nos cuidados intensivos pediátricos 10 crianças e jovens com Síndrome Inflamatória Multissistémica, a maioria dos quais tinha sido assintomático quando da infeção pelo novo coronavírus. Nestes 10 casos, quatro precisaram deste internamento “porque tiveram falência cardíaca importante". Por que há este impacto ao nível cardíaco e em pessoas tão jovens?
Têm surgido alguns estudos que relacionam o aparecimento da síndrome inflamatória multissistémica pediátrica em crianças pós-infeção Covid-19, e esses estudos referem que a etnia e a genética poderão ter um papel no processo, no entanto serão necessários mais dados e mais investigação nesta área para se chegar a conclusões mais sólidas, que neste momento ainda não existem. 

Como pode ser antecipado esse impacto no coração, sobretudo nestes casos de jovens que eram infetados assintomáticos? 
Tendo em conta que muitas destas crianças não tinham qualquer doença anteriormente diagnosticada à infeção por Covid-19, e inclusive algumas estavam assintomáticas para Covid-19, torna-se muito difícil conseguir antecipar o desenvolvimento deste tipo de síndromes. No entanto, à medida que a investigação nesta área vai aumentando e se vai conhecendo cada vez mais pormenores, poderá vir a ser possível identificar crianças que serão mais suscetíveis e atuar atempadamente para reduzir ou até mesmo impedir danos cardiovasculares causados por este tipo de síndromes. 


COVIRNA. Um novo teste para ajudar a proteger doentes covid-19 de problemas cardíacos
O Instituto de Saúde do Luxemburgo lidera um consórcio que está a trabalhar num novo teste de diagnóstico para identificar pacientes covid-19 que correm o risco de desenvolver complicações cardiovasculares fatais. O Contacto falou com o responsável pelo projeto.

 O teste Covirna pode vir a ajudar? 
Neste estudo não iremos incluir nem crianças nem jovens, portanto não sabemos se os resultados que irão ser descobertos neste estudo em adultos terão a mesma expressão nestas faixas etárias.

O Dr. Yvan Devaux, coordenador do projeto Covirna, disse em entrevista ao Contacto que se estima que cerca de 20% dos doentes infetados desenvolverão problemas cardiovasculares inesperados. Já são se sabe mais sobre porque é que se desenvolvem esses problemas? 
Existe a necessidade de estudos de longa duração pós infeção por Covid-19 para saber o real impacto a nível cardiovascular nestes pacientes. 

As novas variantes vieram alterar esse impacto da Covid-19 no coração? Se sim, em que sentido?
Ainda não existem dados suficientes para saber se as novas variantes da Covid-19 vieram alterar o impacto no coração. 

Que tipo de impacto espera que o Covirna venha a ter, a nível cardiovascular, em pacientes com Covid-19? Que informações relevantes é que ele pode dar? 
Este projeto pretende desenvolver um teste de diagnóstico que ajudará na estratificação de pacientes Covid-19 tendo como base o nível de risco de desenvolver doenças cardíacas, com o intuito de adjuvar as equipas médicas na seleção das terapêuticas mais adequadas. 

Afirma que serão também desenvolvidos tratamentos inovadores para atenuar o impacto da Covid-19 no coração. O que nos pode adiantar sobre isso?
 Neste momento estamos a desenvolver uma plataforma terapêutica para atenuar o impacto do Covid-19 no coração. Não é possível relevar mais informação neste momento tendo em conta que a terapêutica ainda está a ser desenvolvida e depois será testada em modelos animais.

Quando está previsto o teste Covirna poder começar a ser utilizado e quando estará pronto para comercialização?
 Como referi este projeto tem uma duração prevista de 2 anos, e só após este período é que será espectável iniciar a comercialização deste teste. O teste poderá vir a ser útil para outro tipo de infeções para além do Covid-19, é essa a nossa espectativa.   

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