Escolha as suas informações

Ruído provocado pela atividade humana tem efeitos nefastos para os animais
Sociedade 6 min. 05.02.2021 Do nosso arquivo online

Ruído provocado pela atividade humana tem efeitos nefastos para os animais

Ruído provocado pela atividade humana tem efeitos nefastos para os animais

Sociedade 6 min. 05.02.2021 Do nosso arquivo online

Ruído provocado pela atividade humana tem efeitos nefastos para os animais

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Os danos causados pelo ruído nos oceanos são tão prejudiciais como a sobrepesca, a poluição e a crise climática, mas estão a ser perigosamente negligenciados. A boa notícia, segundo os cientistas, é que o ruído pode ser parado instantaneamente e não tem efeitos prolongados, como os outros desafios apresentam.

A poluição sonora está normalmente associada a ambientes humanos e há investigação científica que indica que o ruído tem uma variedade de efeitos negativos na vida selvagem. 

O ruído tem também sido associado a deficiências cognitivas nos seres humanos e porque muitos animais utilizam processos cognitivamente intensivos para ultrapassar os desafios ambientais, a poluição sonora tem o potencial de interferir com a função cognitiva em animais que vivem em áreas urbanas ou perto de estradas, como aponta um estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B. 

Através da investigação do impacto sonoro do tráfego rodoviário no desempenho cognitivo das aves, demonstrou-se um novo mecanismo através do qual o ruído antropogénico pode ter impacto nos animais, nomeadamente através de interferência cognitiva, e sugere que a poluição sonora pode ter consequências anteriormente não consideradas para os animais.

Mas não é só no tráfego de veículos em terra que se faz notar o impacto sonoro criado pelo ser humano. O som viaja mais depressa e mais longe na água do que no ar. Ao longo do tempo evolutivo, muitos organismos marinhos passaram a depender da produção, transmissão e recepção do som para aspetos chave das suas vidas.

O som é a deixa sensorial que viaja mais longe através do oceano e é utilizada por animais marinhos, desde o marisco às grandes baleias, para interpretar e explorar o ambiente marinho e para interagir dentro e entre espécies. 


População global de tubarões e arraias caiu mais de 70% nos últimos 50 anos
A sobrepesca é a principal causa da de destruição da vida marinha, no entanto é difícil medir o declínio e o aumento dos riscos de extinção de espécies individuais, particularmente para os maiores predadores encontrados em alto mar.

Segundo uma investigação publicada na revista Science, entitulada "A paisagem sonora do oceano Antropocénico", as paisagens sonoras oceânicas estão a mudar rapidamente devido à diminuição maciça da abundância de animais produtores de som, ao aumento do ruído antropogénico (derivado de atividades humanas) e à alteração das contribuições de fontes geofísicas, tais como o gelo marinho e as tempestades, devido às alterações climáticas. 

Como resultado, a paisagem sonora do oceano atualmente é fundamentalmente diferente da dos tempos pré-industriais, com o ruído antropogénico a afetar negativamente a vida marinha. 

A investigação analisou mais de 500 estudos que avaliaram os efeitos do ruído na vida marinha. Cerca de 90% dos estudos encontraram danos significativos em mamíferos marinhos, tais como baleias, focas e golfinhos, e 80% encontraram impactos em peixes e invertebrados. 

"O som é uma componente fundamental dos ecossistemas, [e os impactos do ruído] são omnipresentes, afetando os animais a todos os níveis", concluiu a análise. O impacto mais óbvio é a ligação entre as detonações e surdez dos sonares militares e do levantamento sísmico, os encalhes em massa, e a morte de mamíferos marinhos. 

"Estes comportamentos importantes são ameaçados por uma cacofonia crescente no ambiente marinho, uma vez que os sons produzidos pelo homem se tornaram mais altos e prevalecentes", escreveram os cientistas na primeira avaliação de grande escala sobre os impactos da cacofonia de ruído proveniente de atividades humanas.

Segundo os especialistas, os danos causados pelo ruído são tão prejudiciais como a sobrepesca, a poluição e a crise climática, mas estão a ser perigosamente negligenciados. A boa notícia, é que o ruído pode ser parado instantaneamente e não tem efeitos prolongados, como os outros problemas têm. 

O estudo aponta para o facto da poluição sonora aumentar o risco de morte e em casos extremos, como nas explosões, pode matar diretamente. As emissões de dióxido de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis também estão a tornar os oceanos mais ácidos, o que significa que a água transporta ainda mais som, levando a um oceano ainda mais ruidoso.

A avaliação indica que o transporte marítimo, a exploração de recursos e o desenvolvimento de infra-estruturas aumentaram a antrofonia (sons gerados pelas atividades humanas), enquanto que a biofonia (sons de origem biológica) foi reduzida pela caça, a pesca e a degradação do habitat. As alterações climáticas estão a afetar a geofonia (abiótica, sons naturais). 

Em causa estão os ruídos provenientes de embarcações, sonares ativos, sons sintéticos (tons artificiais e ruído branco) e dispositivos acústicos dissuasores, assim como o ruído de infra-estruturas energéticas e de construção e levantamentos sísmicos.


Pesca. UE volta a transgredir pareceres científicos de sustentabilidade
A disputa do Brexit entre os ministros da UE sobre quotas de pesca no Nordeste Atlântico significa que o objetivo da UE em terminar com a sobrepesca até 2020, fixado em legislação a partir de 2013, não será atingido.

Mas o movimento de mamíferos marinhos e tubarões para áreas anteriormente ruidosas quando a pandemia de covid-19 cortou o tráfego oceânico mostrou que a vida marinha podia recuperar rapidamente da poluição sonora.

Para os cientistas, este tipo poluição sonora manifesta-se como um "nevoeiro acústico" no oceano e, segundo Steve Simpson, da Universidade de Exeter, na Inglaterra, que fez parte da equipa de revisão científica do estudo "tudo desde o mais pequeno plâncton até aos tubarões sentem o seu ambiente acústico. Como resultado, os animais têm de produzir som para comunicar, mas também para receber som". 

Muitas utilizações do som podem ser prejudicadas, tais como os zumbidos que os sapos machos usam para atrair as fêmeas e as "buzinas" que o bacalhau usa para coordenar a desova. Cachalotes e vários golfinhos utilizam o sonar para ecolocalizar as presas. As baleias comuns produzem chamadas para ajudar a coesão e reprodução de grupos que podem viajar através das bacias oceânicas, e as baleias jubarte cantam canções complexas de acasalamento que têm dialetos regionais. Outros animais utilizam o som para se alimentarem: alguns camarões produzem um som de "estalido" para atordoar as presas. 

No entanto, ao longo dos últimos 50 anos, o aumento da navegação aumentou o ruído de baixa frequência nas principais rotas em 32 vezes, segundo a revisão científica. Os navios de pesca utilizam sonar para encontrar cardumes de peixe e os arrastões de fundo criam ruídos de estrondo. 

Soluções

Existem soluções, segundo os cientistas, como ficou registado aquando do reequipamento de cinco grandes navios porta-contentores pelo gigante naval Maersk, em 2015, mostrando que novos designs de hélices reduzem o ruído e também aumentam a eficiência do combustível. 

Hélices mais silenciosas são a principal prioridade, já que metade do ruído proveniente de navios surge apenas de 15% dos navios existentes. Os motores elétricos são outra solução possível, tal como as pequenas reduções de velocidade.

A revisão científica mostrou como exemplo a redução da velocidade dos navios ruidosos no Mediterrâneo de 15,6 para 13,8 nós que teve como consequência a redução do ruído em 50% entre 2007 e 2013. Os levantamentos sísmicos também podem ser efetuados utilizando vibradores de leito marinho, em vez de enviar ondas sonoras através de toda a coluna de água.

 A partir do momento que há informação que confirma os efeitos nefastos do ruído humano nos diferentes ecossistemas, abre-se caminho para poderem ser criadas condições para minimizar a criação de ruído antropogénico, aliviando assim mais uma das interferências humanas no bem-estar animal.


Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.