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Triplos automáticos
Opinião Sociedade 3 min. 27.07.2021
Robótica nos Jogos Olímpicos

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Robótica nos Jogos Olímpicos

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Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 27.07.2021
Robótica nos Jogos Olímpicos

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Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Sábado à noite, no início do torneio olímpico masculino de basquetebol, a França derrotou os EUA por sete pontos - o que já é notícia por ser uma das pouquíssimas vezes em que os americanos perderam um jogo deste desporto por si inventado. No entanto, o "jogador" mais badalado nesse dia não actuou por nenhuma das duas selecções, e só entrou durante o intervalo.

Chama-se Cue, mede 2,08 metros, pesa 90 kg, e mal entrou no court tentou uma série de lançamentos triplos culminando com um desde o meio-campo - a bola entrou em todos eles de forma perfeita, porque Cue é um lançador extraordinário. Além disso, é um robot.

Há qualquer coisa de aterrador em ver um autómato de formato vagamente humano e ar ameaçador a pegar numa bola de basket e encestar sem parar a grande distância, imitando os movimentos de Jordan, LeBron ou Stephen Curry mas melhorando a sua performance com percentagens de acerto que estes nunca poderiam atingir. Sim, é certo que atirar uma bola é uma actividade inofensiva, e também é verdade que os sensores de Cue ainda passam demasiado tempo (mais de 10 segundos) a analisar a distância e o ângulo necessários ao lançamento bem sucedido. Mas esta é apenas a quinta geração de um robot construído nas horas vagas por meia-dúzia de engenheiros da Toyota; quando o seu inevitável aperfeiçoamento significar que as máquinas são, não apenas mais precisas, como também mais rápidas e fortes que os melhores atletas… será que continuará a fazer sentido disputar taças e medalhas entre humanos?

Se os robots conseguem superar até trabalhadores ultra-especializados como um craque da NBA, imagine-se o que farão com as nossas pobres competências.

Mais importante ainda: fará sentido trabalhar? Recebendo salários multimilionários, menos de 20 pessoas em todo o mundo disputaram as finais da NBA este ano. Se os robots conseguirem superar até trabalhadores ultra-especializados como estes, imagine-se o que farão com as nossas pobres competências. E nem sequer é necessária grande imaginação, porque essa substituição de humanos por máquinas já se desenrola perante os nossos olhos e só vai acelerar nos próximos anos.

Condutores de qualquer espécie (de camiões, de entregas, de táxis, de comboios, de eléctricos…); bancários, tornados obsoletos pela banca online; contabilistas e escriturários; advogados e notários; caixas de supermercado ou de lojas de comida rápida, completamente (e já não apenas parcialmente) substituídos por scanners onde o cliente faz tudo sozinho; agentes de viagem; tradutores; bibliotecários, livreiros e professores; empregados de cinema; controladores de tráfego aéreo, pilotos e assistentes de bordo; jornalistas, cronistas e repórteres; e etc. fazem todos parte da lista de empregos que serão quase inexistentes daqui a dez anos.

Na verdade, as estimativas dizem que só na próxima década entre 1 e 2 biliões de empregos serão afectados directamente pela automação, e os restantes não passarão incólumes, obviamente. Para lidar com os formidáveis desafios causados pelo desemprego maciço e pela desigualdade daí decorrentes serão necessárias medidas visionárias como um rendimento universal incondicional, além de outras difíceis de aplicar (por irem contra interesses muito fortes) como obrigar as multinacionais a arcarem com impostos justos que financiem o reequilíbrio da sociedade. Veremos se desta vez as soluções não são esquecidas até estarmos à beira de mais um abismo…

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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