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Revista holandesa retrata povos do Sul como preguiçosos
Sociedade 3 min. 29.05.2020

Revista holandesa retrata povos do Sul como preguiçosos

Revista holandesa retrata povos do Sul como preguiçosos

Sociedade 3 min. 29.05.2020

Revista holandesa retrata povos do Sul como preguiçosos

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Loiros sérios e trabalhadores contrastam com homem de bigode e mulher morena de biquíni. Vinho, redes sociais e “dolce far niente” é o cartoon que ilustra o título: “Nem mais um cêntimo para o sul da Europa”

A Elsevier Weekbad, uma revista holandesa de informação generalista, ao estilo da norte-americana Times, reacende na edição desta semana a guerrilha norte-sul, depois de ter sido dia 27 apresentada uma proposta da Comissão Europeia de ajudar as economias mais prejudicadas com a crise em 750 mil milhões de euros. E o título “Nem mais um cêntimo para o sul da Europa” e o cartoon com o “típico” homem de bigode e calção e a morena de biquíni a consultar as redes sociais, são uma clara referência de que os holandeses conservadores, retratados como sérios trabalhadores, não estão a aceitar esta ajuda.

No artigo refere-se que o “Fundo pretende ser uma doação incondicional aos países mais afetados economicamente pelos bloqueios do coronavírus” e salienta-se que as economias do sul “não são pobres e podem melhorar as suas economias se fizerem as reformas como as que foram implementadas no norte”.

A visão estereótipada dos povos do sul como preguiçosos e dependentes dos povos sérios do norte não é nova. O incidente diplomático mais recente desta guerrilha duradora tinha sido quando no final de março, António Costa, considerou de “repugnantes” as declarações do ministro das Finanças holandês, Wopke Hoekstra, de que Espanha devia ser investigada por não ter dinheiro para fazer face à crise da covid-19.

Mas o episódio mais escandaloso aconteceu em 2017, quando o ministro das Finanças holandês, e então presidente do Eurogrupo (que reúne os ministros das Finanças dos países da zona euro), Jeroen Dijsselbloem, disse numa entrevista ao conceituado Frankfurter Allgemeine Zeitung, que “não se pode gastar o dinheiro todo em copos e mulheres e depois pedir ajuda”, numa referência aos países do Sul, entre os quais se encontravam a Grécia e Portugal, ainda a fazer face à crise da dívida pública. Na altura, Dijsselbloem recusou pedir desculpas públicas, perante a indignação generalizada da maioria dos políticos europeus.

António Costa pediria a demissão do “senhor Dijsselbloem” - do cargo que neste momento é ocupado pelo português Mário Centeno – referindo ser inaceitável que alguém com uma “visão xenófoba” exerça um lugar de responsabilidade a nível europeu.

Holandeses trabalham quase 10 horas menos que portugueses

Em 2020, a grande divisão norte/sul faz-se entre os países que alinham por uma política frugal – Holanda, Áustria, Dinamarca e Suécia – e os chamado Grupo da Coesão, do qual Portugal faz parte e que tem defendido que o orçamento da União Europeia seja mais generoso.

Insistentemente, o atual primeiro-holandês, Mark Rutte, tem dito que não está disposto a contribuir mais para o orçamento comunitário e não aceita que o dinheiro para ajudar Estados-membros a sair da crise da covid-19 (onde por coincidência estão os países mediterrânicos) seja dado e não emprestado. Na proposta - ainda em negociações - apresentada esta semana pela Comissão, uma grossa fatia, 500 mil milhões de euros (ou seja, dois terços) serão subvenções diretas aos países que mais vão precisar de ajuda. E isso já está a agitar as águas em Haia.

Na sua conta de Facebook , o eurodeputado pelo Bloco de Esquerda José Gusmão, vice-presidente do Comité dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu, acusa a capa da revista de ser racista e sugere uma ilustração bem diferente sobre o que separa a produtividade dos países do norte e do sul. Precisamente um gráfico da OCDE sobre a média de horas semanal dos países europeus em que a Grécia é aquele onde mais se trabalha – 42 horas

por semana, logo seguido de Portugal, 39,3 horas. No gráfico, a Holanda é o 10º país onde se trabalha mais, com uma média semanal de 30 horas

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