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Køpi 137. Quando os alternativos são despejados
Sociedade 12 min. 16.06.2021
Reportagem na Alemanha

Køpi 137. Quando os alternativos são despejados

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Køpi 137. Quando os alternativos são despejados

Foto: Santiago Cruz
Sociedade 12 min. 16.06.2021
Reportagem na Alemanha

Køpi 137. Quando os alternativos são despejados

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Apesar de Berlim gostar de exibir uma imagem moderna, cosmopolita e alternativa, a gentrificação e o investimento imobiliário estão a infiltrar-se pondo em risco “catedrais culturais” como o emblemático projeto Køpi 137.

O sol chegou a Berlim mas estes são dias cinzentos para os movimentos de contra-cultura e resistência anti-capitalista na cidade. A capital alemã, cuja atmosfera há décadas se tem moldado pela influência cultural e política das comunidades auto-organizadas, conhecidas como “ocupações” de espaços urbanos e residenciais, muitas delas legalizadas, está a mudar.

Na fronteira dos distritos de Mitte e Kreuzberg, ergueu-se nos anos 90 uma comunidade autónoma de ação social e cultural. Köpi, em Köpenicker Straße 137, é uma das mais famosas áreas da cena “ocupa” de Berlim. Recheada de artistas e ativistas, a área vai além da oferta de residência gratuita às cerca de 50 pessoas que moram no enorme edifício coberto em grafite e danificado pelas bombas da II Guerra Mundial. Alberga ainda duas salas de concertos que para muitos músicos da Europa de Leste, foram o primeiro local de concerto na Alemanha, bar, sala de ensaios, uma cozinha comunitária, sala de cinema alternativo, oficinas de workshops, uma serigrafia e área de desportos. Ao lado, existe Køpi Wagenplatz, a praça de vagões, reboques e caravanas habitadas do projeto Køpi 137, em Berlim que agora enfrenta ordem de despejo.

As cores das tintas contrastam com o tijolo antigo do edifício e os infinitos metais que decoram a zona. A reciclagem é uma constante na ornamentação do espaço que é ponto de encontro para “artistas, ativistas e freaks” de todo mundo.

Estão diretamente associados à extrema-esquerda no panorama político, mas os residentes garantem que são mais do que os estereótipos que se criaram. “Somos um coletivo não só de punks, mas também crianças que cresceram lá, artistas e ativistas, é muito difícil explicar o contexto de toda gente porque há muitas histórias, muito variadas”. Jane é uma realizadora de documentários eslovaca e a primeira vez que chegou a Köpi foi há três anos. Ao Contacto explica que “ninguém entra em Köpi por estar a vaguear nas ruas e bater à porta até que abra”. “Normalmente tens de estar envolvido na cena, ou com algum dos coletivos que têm base ali. Há uma série de coisas nas quais te podes tornar ativo, mesmo que não mores lá. Começas a conhecer as pessoas até que perguntas se existe algum quarto em que possas ficar. Temos uma reunião aberta às segundas-feiras e há pessoas que pedem para morar lá, mas normalmente não temos capacidade para isso. Se não houver uma conexão humana anterior, ninguém te conhece, não dá…”.

A autogestão de uma comunidade “é uma imensa carga de trabalho”, explica. “Alguns estão muito mais envolvidos que outros, com imensas funções, desde processos administrativos à manutenção, até à organização de eventos que ficou um bocado morta com a pandemia, ou agora tratar da parte legal com advogados por causa do processo de despejo. Mas normalmente é muito agitado, também lidar com imensas visitas e também temos espaço sempre para pessoas que queiram juntar-se e organizar protestos, grupos de suporte e eventos de solidariedade. Acho que é importante que existam locais destes porque não estamos aqui para fazer lucro, mas para apoiar movimentos e ações à volta de todo o globo e é muito bom que usemos estes locais que não tinham uso como lugares de intervenção. Com o dinheiro que fazemos nos eventos depois conseguimos ajudar várias pessoas”.

Um dos projetos solidários surgidos em Køpi foi a criação do “Food Not Bombs”, uma iniciativa que recicla alimentos que sobram dos mercados e prepara refeições para distribuir pelos sem-abrigo da cidade. “Pessoalmente faço-o porque acredito que há aqui demasiada comida desperdiçada. Aqui temos espaço para cozinhar e muitas pessoas que querem apoiar. Nós somos pessoas privilegiadas, temos onde morar, por isso devemos devolver às pessoas”, explicam duas das mulheres que criaram a iniciativa, mas que não se identificam e cobrem a cara com um lenço, num vídeo partilhado no Youtube.

Köpi foi ocupado a 23 de fevereiro de 1990. Segundo a administração, a demolição planeada do edifício foi impedida pela ocupação. No verão de 1991, foi assinado um contrato preliminar para a utilização de todas as divisões da casa com o gerente da casa da WBM (Housing Association Mitte). O contrato diz respeito a medidas de auto-gestão estrutural, bem como à celebração de contratos individuais de arrendamento para os espaços habitacionais. A 1 de maio de 1993, foram celebrados contratos de aluguer ilimitados para os espaços habitacionais da casa com o novo gestor da casa, a Sociedade para o Desenvolvimento Urbano.

Em 1994, Volquard Petersen tornou-se o novo proprietário do edifício como parte de um processo de transferência de propriedade. “A fim de ter carta branca para os seus planos para um complexo de escritórios, rescindiu os contratos de arrendamento em 1996 e apresentou uma ação de despejo”, lê-se no website do projeto social. "No entanto, esta foi rejeitada e as rescisões declaradas nulas e sem efeito”.

Entretanto Petersen terá acumulado grandes dívidas. Em 1998, a casa foi apreendida e colocada sob administrador de falência. “O Commerzbank solicitou que a casa fosse executada. Em 1999, foram efetivamente feitas tentativas várias vezes para leiloar a casa. Numerosos protestos e ações de solidariedade, mas também a existência de contratos de arrendamento válidos para a casa, tiveram obviamente um efeito dissuasor sobre potenciais investidores - não foi encontrada uma única parte interessada nos dois primeiros leilões; o pedido para um terceiro leilão foi retirado em maio de 2000”.

Entretanto, os residentes orgulham-se de serem completamente independentes de estruturas de manutenção e gestão do edifício e de como foram capazes de melhorar o espaço. “A administração da casa foi devolvida a Petersen, de quem nada se ouviu desde então. Os residentes fundaram então uma comunidade de emergência de inquilinos e assinaram contratos com as empresas de serviços públicos. Desde então, toda a gestão da casa foi levada a cabo pela comunidade de emergência dos inquilinos. Toda a rede de esgotos, bem como o telhado, foram completamente renovados internamente. As salas da cave foram drenadas e tornadas utilizáveis a grande custo. Os trabalhos de renovação extensivos nos apartamentos e as constantes pequenas reparações e medidas de manutenção são levados a cabo por nós. Nenhuma gestão de propriedade e nenhum proprietário são necessários para manter vivo o nosso projecto”, declaram.

A 4 de fevereiro de 2021, receberam uma carta formal apresentada em tribunal pela Startezia GmbH para desocupar a Køpi Wagenplatz até 28 de fevereiro de 2021. A Køpi Wagenplatz não cumpriu este requisito. O ultimato surgiu com ordem de despejo em três semanas após mais de 20 anos de existência.

A comunidade Køpi e os seus advogados têm “sérias preocupações e questões sobre a propriedade e os advogados contratados que defendem Startezia GmbH. “Desde 2007, a Køpi e a Køpi Wagenplatz foram compradas, vendidas e leiloadas por empresas que são todas subempresas da mesma empresa, Sanus AG e o seu director Siegfried Nehls”, informaram os advogados de Køpi. Startezia é agora oficialmente proprietária de todo o local. No entanto, esta é apenas uma empresa que, em última análise, leva Køpi de volta à mesma Sanus.


Conseguir casa em Berlim tornou-se uma missão quase impossível
A cidade atrai cada vez mais gente de toda a Alemanha e fora dela, e deixou de haver políticas públicas de habitação. O Contacto falou com especialistas e imigrantes portugueses que tentam arranjar casa na capital da Alemanha e se deparam com uma muralha burocrática para além da falta de casas no mercado.

Têm sido vários os protestos organizados contra a ordem de despejo e chamada ao tribunal criminal, juntando milhares de pessoas em demonstrações de arte, marchas de vagões e bicicletas, concertos e performances. Jane, que também é uma das porta-vozes da comunidade, comenta que “é muita especulação, como se este terreno estivesse vazio. Também nos surpreende que agora sejamos levados a tribunal criminal, em vez de tribunal civil, porque é uma disputa sobre acordo e sobre contrato e não algo que estamos a invadir. É uma questão civil, de certa forma”; comenta.

O primeiro julgamento de despejo da Køpi Wagenplatz, a praça de vagões, reboques e caravanas habitadas do projeto Køpi 137, em Berlim, terminou com a decisão de levar avante a ordem de despejo das dezenas de pessoas que lá moram.

“Os residentes de Køpi e Køpiplatz estão indignados com a decisão de hoje do tribunal - ordem de despejo”, comunicaram. “O proprietário da propriedade, Siegfried Nehls, é um conhecido criminoso contra o qual vários processos judiciais foram instaurados nos últimos anos por fraude, uso indevido de propriedade e falsificação de documentos. Nehls e as suas empresas fictícias devem atualmente à cidade 3,2 milhões de euros em dívidas fiscais. Apesar de tudo isto, as pessoas que estão em perigo de perder as suas casas são tratadas como criminosos. O sistema de colocar o lucro acima das pessoas é insustentável e não pode continuar”.

Os residentes esperam “sinceramente que a cidade de Berlim e o poder judicial revejam a sua decisão e estejam ao lado das pessoas que ajudaram a moldar a cultura e diversidade da cidade de Berlim”.

Berlim Ocupada

No início dos anos 80, o movimento de ocupação foi “um tópico importante no seio da política local de Berlim”. Segundo os criadores do projeto Berlin Besetzt, um mapa interactivo combinado com um arquivo digital que recuperou a história e investigação académica focada na ocupação de casas e lugares em Berlim, “este movimento foi desencadeado pela crescente falta de habitações enquanto ruas inteiras de apartamentos eram despejadas, acabando por levar à sua decadência”, que se iniciou na década de setenta. Desde então a “ocupação” em Berlim está ligada “aos movimentos políticos e sociais, tendências e acontecimentos de uma cultura de protesto e resistência contra o poder e as estruturas hegemónicas”, lê-se no site do Besetzt. A onda de ocupação surgiu na sequência dos movimentos mundiais de 1968 e tornou-se para muitos um ponto de referência da sua vida política quotidiana e da sua auto-concepção e auto-governação.

No início dos anos setenta, os ocupantes seriam na sua maioria compostos por jovens trabalhadores, desempregados, fugitivos, ex-residentes domésticos e estudantes. A primeira ocupação, imediatamente expulsa pela polícia, surgiu da iniciativa de 100 jovens trabalhadores e estudantes em criar um centro juvenil no 1º de maio de 1970 em Königshorster Straße, no distrito de Reinickendorf. Seguiu-se a ocupação de um centro para jovens e estagiários a três de julho de 1971 em Mariannenplatz 13, que terminou com um despejo e a detenção de 76 pessoas.

A seguinte grande onda do movimento começou no início dos anos oitenta quando diferentes movimentos políticos, sociais e subculturais: punks, autónomos, mulheres lésbicas, movimento ecológico, movimento anti-nuclear, movimento de solidariedade com a revolução nicaraguense em 1979, entre outros, emergiram e interagiram criando condições para uma explosão de um novo movimento com a sua própria subcultura, economia alternativa, empresas/ cooperativas colectivas e estruturas organizadas de resistência.

www.montecruzfo.org
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O movimento de ocupação foi durante anos a questão determinante e tema da política de Berlim e caracterizou-se por grandes manifestações de solidariedade (até 20.000 pessoas), resistência militante na rua, mas também uma ampla criminalização do movimento com muitas detenções, processos de investigação criminal, prisões e uma pessoa morta, Klaus Jürgen Rattey, a 22 de setembro de 1981, “provocada e causada por uma operação policial”.

Cerca de metade dos mais de 200 ocupações no período de 1979-1984 puderam ser legalizados, o resto terá sido despejado. A partir do ano de 1981, foram estabelecidos locais cada vez mais ocupados de vagões (reboques, camiões, caravanas), dos quais 20 puderam ser assegurados até 2014. A queda do Muro de Berlim no início dos anos 90 foi seguida por uma segunda vaga de ocupação que levou à formação de muitos espaços culturais auto-governados na capital Alemã.

www.montecruzfoto.org
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No entanto, a realidade de Berlim foi-se adaptando cada vez mais à corrente de gentrificação e o cenário cultural de resistência anti-capitalista está a atravessar dias difíceis.

Enquanto diferentes movimentos de protesto urbanos estavam a recuperar força, 2012 marcou o aumento de muitas ocupações de casas e de lugares. Em Junho de 2012, reformados ocuparam o seu ponto de encontro no distrito de Wedding, a fim de garantir a sua sobrevivência. Os residentes das imediações da estação de metro Kottbusser Tor construíram um "Gecekondu", uma cabana como local de encontro e protesto contra o aumento das rendas e deslocações. A cabana continua lá e a ser utilizada até hoje. No final de 2012, os refugiados organizaram um campo de protesto em Oranienplatz para lutar contra as suas más condições de vida. Também ocuparam um antigo edifício escolar em Kreuzberg durante a chamada "Greve dos Refugiados", a dezembro de 2012. Segundo o projeto Berlin Besetzt, estes exemplos recentes mostram que as ocupações tiveram e continuam a ter um significado significativo para as batalhas sociais em Berlim.

Despejos e novos ocupantes

A última maior vaga de despejos de casas e vagões ocupados deu-se em meados dos anos noventa pelo antigo Ministro do Interior de Berlim Schöhnbohm. Desde então, novas ocupações raramente surgiam e eram regra geral despejadas num curto espaço de tempo, após a chamada "política de 24 horas”.

Para os investigadores, “é notável que desta vez as ocupações sejam também realizadas por grupos fora dos protagonistas habituais deste tipo de ações, como os residentes de Kottbusser Tor, que resistem contra o aumento das rendas (Kotti & Co) ou os refugiados e migrantes ilegais que lutam pelo direito de livre circulação e pelo reconhecimento dos seus direitos fundamentais básicos (Oranienplatz, Refugee Strike Haus Ohlauerstraße / Gerhard Hauptmann Schule), bem como os idosos da Stille Straße 10 no distrito de Pankow ou os entretanto despejados de Cuvybrache e da Eisfabrik.

De 1970 a 2015 foi possível enumerar 641 ocupações de casas, praças de vagões e locais públicos, das quais cerca de 200 foram legalizadas.

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