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Reino Unido. Regresso às aulas no mundo pós-covid-19
Sociedade 10 min. 27.08.2020

Reino Unido. Regresso às aulas no mundo pós-covid-19

Reino Unido. Regresso às aulas no mundo pós-covid-19

Foto: Regina Nogueira
Sociedade 10 min. 27.08.2020

Reino Unido. Regresso às aulas no mundo pós-covid-19

Regina NOGUEIRA FERNANDES
Regina NOGUEIRA FERNANDES
No Reino Unido estudam pessoas de todo o mundo, incluindo luxemburgueses e portugueses. As universidades ensaiam o regresso às aulas no meio das incertezas da pandemia, tentando misturar aulas presenciais com mais online.

“Voltar à universidade a tempo inteiro será definitivamente um desafio”. Sandra Patrícia, original de Castelo de Paiva, está a estudar Gestão na Universidade de Derby. O terceiro ano do curso, por força da pandemia, será muito diferente do que está habituada. Queixa-se de falta de comunicação por parte da instituição que frequenta.

“Por incrível que pareça, ainda não nos foi dada muita informação relativamente às regras de funcionamento para o próximo ano letivo. Foi-nos dito que iríamos ter uma educação híbrida, sendo que a maioria dela das aulas serão virtuais e teremos apenas aulas presenciais com grupos mais pequenos. Seminários e aulas com várias turmas vão ser online para que não estejam muitos alunos juntos na mesma sala”.

Para Sandra, o modelo híbrido, ainda que não seja ideal, é provavelmente o mais eficaz: permite-lhe aliar algum contacto social à segurança do online. Os seminários, agora webinars, são até mais fáceis de seguir e compreender se vistos de casa e a universidade deu liberdade aos alunos para assistir às aulas no seu país de origem. Sandra está em Portugal desde o final do semestre.

“No ano letivo passado, estive em Erasmus na Holanda. Foi bastante complicado porque quando começou tudo a fechar a universidade não sabia bem o que fazer e não assumiu responsabilidades para com os estudantes. Em junho disseram-nos que quem não se sentisse confortável com o regresso ao campus poderia optar por ensino totalmente online”, conta.

Apesar das recomendações da comunidade científica, um estudo da Universities UK revela que 97% das universidades no Reino Unido planeia oferecer algum tipo de estudo presencial. 78% pretende também manter a oferta social presencial em campus, como eventos e desportos, seguindo as diretivas do Governo e das organizações de saúde. 

Alistair Jarvis, presidente-executivo da Universities UK, considera que “as universidades no Reino Unido estão bem preparadas para receber os alunos este outono, certificando-se de que estes irão beneficiar de uma experiência universitária de alta qualidade.”

“Seguindo as mais recentes orientações do Governo, as universidades continuam a desenvolver planos detalhados para o novo ano letivo e vão continuar a comunicar regularmente os planos para regresso as aulas, tanto com novos como antigos alunos”.

Tarini Sharda, a fazer um mestrado em Literatura na University College London (UCL), terá todas as aulas online, ainda que com opção de utilizar o espaço da universidade para trabalhos e estudo em grupo, se assim o desejar. A UCL lecionará as aulas que o permitirem (com exceção de cursos que requeiram material específico, como farmácia ou computação) remotamente, e a capacidade do campus estará reduzida a 40%. A semana de boas-vindas aos novos alunos também será exclusivamente virtual.

“Acho que o pessoal da universidade deu o seu melhor, mas não nos deram nenhuma resposta concreta até à semana passada. Eu vivo em Londres, portanto não me afetou particularmente, mas foi difícil para os meus colegas estrangeiros”, conta Tarini.

“Apesar de tudo, sinto-me esperançosa em relação ao futuro. Estou contente por poder estudar remotamente, pois tenho mais tempo para trabalhar. E sinto-me segura também. Só preciso de ir ao campus para requisitar livros, e até aí haverá um sistema de click-and-collect para que não tenhamos que ir à biblioteca.”

A-Levels e GSCE: Reviravolta de última hora

O verão acalmou a taxa de propagação do vírus, o que levou as universidades a planear o regresso presencial dos alunos este outono. Medidas temporárias introduzidas à pressa em março tornaram-se permanentes em agosto; políticas e orientações sobre distanciamento social, higienização e ensino digital, bem como aulas presenciais limitadas em campus, entre outras, foram elaboradas para o número limitado de alunos que as universidades então esperavam receber. No entanto, uma reviravolta do Governo inglês relativamente ao limite de admissões nas universidades e ao modo de avaliação dos estudantes de A-Levels e GSCE, os exames que dão acesso ao ensino superior no Reino Unido, resultou num número muito superior de candidaturas, face ao inicialmente esperado no contexto da pandemia.

Os alunos em Inglaterra ficarão enfim com as notas dadas pelos seus professores, em vez das estimadas por um algoritmo. A decisão segue outros países do reino – Nicola Sturgeon foi a primeira a fazê-lo, na Escócia – e foi tomada depois de uma intensa polémica com o Gabinete para a Regulação de Exames e Qualificações (Ofqual).

O Ofqual baseava as classificações finais dos alunos nas decisões de um algoritmo que, entre outros fatores, contava com a média de alunos de anos anteriores da mesma escola, o que fez com que muitos estudantes tivessem notas mais baixas do que o esperado.

Tanto o presidente do Ofqual, Roger Taylor, como o secretário para a Educação Gavin Williamson vieram pedir desculpas pela angústia causada. Agora, as notas dadas pelos professores prevalecem, a menos que a nota original dada pelo algoritmo seja superior.

Em comunicado, Williamson reconheceu o ano “extremamente difícil” que os estudantes atravessaram, depois de verem os seus exames terem sido cancelados por causa da pandemia. William disse ainda que o Departamento para a Educação tinha trabalhado com o Ofqual a fim de garantir “o modelo mais justo possível”, mas que ficou claro que o processo de atribuição de notas tinha gerado “inconsistências significativas”.

Apesar de tudo, a crise está longe de ser resolvida. Dezenas de milhares de estudantes que achavam ter perdido a oportunidade de entrar no curso que queriam, têm agora a possibilidade de conseguir a média necessária para se matricularem na sua instituição de eleição. As universidades estão a fazer os possíveis para acomodar estes alunos de última hora, mas a tarefa, aliada à já difícil situação provocada pela pandemia, não será fácil.

Alistair Jarvis disse que as universidades estão a ser “tão flexíveis quanto possível”, mas que a “mudança tardia” criou desafios. O presidente da Universities UK pediu ainda mais apoio ao Governo, acrescentando que as Universidades britânicas estão à procura de “esclarecimentos urgentes”.

Agora, as universidades debatem-se com um aumento exponencial no número de candidaturas enquanto tentam manter staff e estudantes seguros. Algumas instituições registaram um aumento de 200% de potenciais alunos. A Universidade de Durham, por exemplo, está até a oferecer benefícios monetários a alunos que queiram adiar a sua entrada até ao ano que vem, numa tentativa de controlar o número de candidatos. E

Segundo o Serviço de Admissãode Universidades (UCAS), 69% dos candidatos em todo o Reino Unido foram colocados na sua primeira escolha, um número superior ao do ano passado. Enquanto isso, universidades menos populares temem que a eliminação dos limites no número de admissões possa causar o problema oposto: salas vazias significam menos dinheiro em propinas, já que os alunos optam por vagas em instituições mais estabelecidas, que agora deixaram de ter limite no número de estudantes que podem aceitar.

Online são menos em propinas

Esta será uma das razões pelas quais as universidades estão maioritariamente a optar por um modelo de ensino híbrido. Com as propinas de instituições exclusivamente online (pré-pandemia) como a Open University a rondar os €6700 (£6000 anuais), torna-se difícil justificar os mais de €10.000 (£9000) anuais para uma universidade tradicional não havendo um elemento de ensino presencial.

Ainda assim, algumas destas universidades terão dificuldades em sobreviver: a Universities UK escreveu ao Governo para pedir apoio financeiro para as instituições mais afetadas. Mas há um problema maior: as universidades planearam uma reabertura segura para um certo número de alunos. Lidar com potencialmente o dobro desse número, apenas algumas semanas antes de chegarem ao campus, será de difícil administração.

Bilal Ijaz, presidente da associação de estudantes da Universidade de Greenwich, sentiu na pele a mudança de planos do Governo. Para além do nervosismo associado à situação criada pela covid-19, quem se candidata ao ensino superior teve o stress acrescido da incerteza relativamente as suas notas finais. “Estava a receber chamadas às cinco da manhã, às onze da noite, o que pessoalmente me preocupou um pouco”, diz, “ninguém sabia o que ia acontecer, mas para nós foi muito importante passarmos uma mensagem de união aos nossos estudantes. União, mas sobretudo presença: podem entrar em contacto connosco de diferentes formas, seja por telefone, email ou redes sociais”.

Pessoalmente será mais difícil. A associação de estudantes de Greenwich também pretende que todas as atividades de boas-vindas aos novos alunos sejam online. Dos mais de cinquenta clubes da universidade, muitos já começaram a postar vídeos no canal de Youtube da associação de estudantes para atrair novos membros.

“Estamos a ter muitas conversas com novos alunos e a desenvolver sistemas de apoio para os ajudar a navegar este novo normal. Sociedades e clubes passaram a ter uma presença online e, para além de workshops de study skills, apoio à saúde mental, atividades de partilha de experiências, estamos à procura de outras formas para suportar estes alunos que atravessaram um grande período de incerteza, agravado pela questão dos A-Levels. Como podemos apoiar estes estudantes tendo em conta as suas necessidades particulares?”, questiona Bilal.

“Apesar de tudo, é incrível ver como a comunidade reagiu. Tenho-me sentido bastante orgulhoso. A universidade está muito bem preparada: quaisquer aulas com mais de 30 pessoas serão online, e espaços sociais como a esplanada do bar da faculdade, por exemplo, foram transformados para prever distanciamento social”, conta, “a universidade é responsável pela saúde dos estudantes e um surto traria danos gravíssimos à nossa reputação.”

Para além das medidas de ensino híbrido e adaptações no campus, a Universidade de Greenwich garantiu também duas semanas gratuitas de alojamento para aqueles que escolherem as suas residências e que tenham de fazer quarentena, num esforço para atrair estudantes internacionais.

Cidades em crise

No entanto, apesar de os números de estudantes admitidos no ensino universitário serem mais altos que nunca, de acordo com o Institute for Fiscal Studies, a covid-19 pode ter um impacto negativo nas receitas do sector, que geralmente atinge 42 mil milhões de euros (38 mil milhões de libras) em receitas anuais, na ordem dos 25%.

Em cidades como Bath, Plymouth ou Manchester, a população estudantil representa uma parte importante da população e alimenta muitos dos negócios em imobiliário, restauração, etc., representando uma contribuição muito importante para as economias locais. Manchester, por exemplo, tem uma população estudantil de cerca de 75 mil, num total de 510 mil habitantes.

Muitos dos 2.5 milhões de estudantes no ensino superior no Reino Unido deslocar-se-ão agora para estas cidades, a grande maioria estudará longe de casa, e, apesar das medidas implementadas pelas universidades para reduzir o risco de contágio, há quem tema que o regresso às aulas resulte num novo surto.

Esta sexta-feira, um comité de cientistas independente publicou um relatório que defende testes obrigatórios nas universidades, tanto para alunos como para o staff, de forma a proteger as comunidade locais. A recomendação surge na antecipação do regresso as aulas este outono, também depois de Manchester, que tem a quarta maior população estudantil do Reino Unido, ter entrado em lockdown depois de um aumento recente no número de casos de covid-19.

O grupo recomenda ainda que as universidades lecionem exclusivamente online, e que transformem todas as atividades extracurriculares e cerimónias de iniciação do ano letivo em acontecimentos virtuais.

Sempre que necessário o ensino presencial, estudantes e professores devem usar máscara e obedecer a regras de distanciamento social. O relatório sugere também que os estudantes assinem um acordo que preveja as normas de distanciamento social, estando sujeitos a ações disciplinares caso as regras não sejam cumpridas.

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