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Regressar a casa nos 92 do meu pai
Opinião Sociedade 6 min. 25.08.2022
Andamos todos ao mesmo

Regressar a casa nos 92 do meu pai

Andamos todos ao mesmo

Regressar a casa nos 92 do meu pai

Foto: Reinaldo Rodrigues
Opinião Sociedade 6 min. 25.08.2022
Andamos todos ao mesmo

Regressar a casa nos 92 do meu pai

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
Toda a vida estranhei os amigos que, ao contrário de mim e de tantos, não tinham uma aldeia dos pais a que voltavam no verão. Chegava agosto e eles não iam "à terra". Agora regresso lá para os 92 anos do meu pai. Um misto de gratidão e aplauso à genética.

Querido pai,

escrevo-te isto na manhã do dia em que nos faremos à estrada para regressarmos à aldeia. Estamos a trezentos quilómetros de ti e da mãe e as vossas netas já começaram com aquela impaciência que por enquanto é deliciosa mas daqui a duas horas será irritante. Depois vão queixar-se da fome. Depois dirão que estão enjoadas. Depois pedem para abrir a janela para entrar ar mas afinal querem-na fechada porque está muito calor e o vento é quente. Depois querem a música mais alta. Depois não querem música porque vão dormir.

Eu também era assim quando tinha a idade delas e começávamos a preparar o carro para partir, não era? "Falta muito?" "Quando é que vamos?" "Já posso levar isto para baixo?" Quando começavas a pôr tudo na escada, nas viagens intermináveis (são 56 degraus, nunca me esqueço) entre o nosso terceiro direito e o patamar de entrada, que enchíamos com malas, sacos, geleiras, umas cestas de medicamentos e dezenas de outros pequenos tarecos que recheavam o porta-bagagens do Ford Escort azul bebé.

Por aqui ainda não temos tudo pronto e não levaremos tantas coisas. Mas também não faremos a viagem pela estrada velha, com paragem em Ponte de Sôr para uma tigelada a meio das cinco horas de caminho, antes do longo troço de curvas entre Nisa e Vila Velha de Ródão, onde a minha irmã vomitava sempre. Agora temos a A23, tudo se faz num tiro e ninguém despeja o estômago.

Tenho 47 anos e faltam poucos dias para tu chegares aos 92, pai. Devem contar-se pelos dedos de uma mão os verões em que não fiz a travessia de Lisboa à Beira Baixa. Primeiro contigo, a mãe e as manas. Depois sozinho. Agora em família. Sou nascido em Lisboa e criado no subúrbio da capital, para onde tu e a mãe foram trabalhar e onde fizeram a vida quando a vida deu essa volta. Apesar de não ter nascido aí, no entanto, é da Beira que me sinto filho. Por isso este regressar à raia sabe sempre a um voltar a casa e toda a vida estranhei os amigos que, ao contrário de mim e de tantos, não tinham uma aldeia dos pais a que voltavam no verão. Chegava agosto e eles não iam "à terra". E aquilo fazia-me uma confusão danada. Em setembro falavam de praia e de passeios de carro e eu falava do arraial e da quermesse da festa e de hortas e de tardes a ver a TVE.

Daqui a umas horas estaremos aí e, como vamos avisar antes, vocês estarão à porta, junto ao pelourinho, à espera de nos ver chegar. Do outro lado da rua, à varanda, talvez esteja a minha madrinha para aquele aceno do costume e, depois dos abraços e de descarregar tudo, será aquela a primeira paragem para correr as capelas a dizer que já chegámos. "Estão tão grandes, as tuas filhas." "Fizeste boa viagem?" "Mais um ano e ainda cá estamos."

Falta pouco para voltarmos a estar juntos. A Dulce vai hoje também. A Zézinha vai amanhã. Vais ter os três filhos contigo. O único neto rapaz chega de comboio ao fim do dia. A neta primogénita já aí está. E vai ser como habitualmente. Desta vez com um bisneto. Vamos estar todos em cima uns dos outros no quintal, a fazer turnos na cozinha pequena para dividirmos trabalho, o Pedro deve tratar das brasas, a mim vai calhar-me temperar a salada. Há muito mais por fazer e toca a todos, mas estas tarefas são fixas.

Na próxima semana faremos noites de jogos e conversa no quintal até às tantas depois dos jantares que tentamos que comecem às oito e meia, mas nunca arrancam antes das dez. E dias a saltitar entre piscinas, fluviais ou artificiais, que não há quem aguente o calor do interior. À tardinha vou passar pelo terreno para ver se os javalis fizeram muitos estragos na vedação e se já se podem vender aqueles eucaliptos.

Calhando, ainda vamos a Monsanto ver pela milésima vez o que o resto do mundo viu agora pela primeira, com o arranque de "House of Dragons", a prequela d’"A Guerra dos Tronos", que foi parcialmente filmada no castelo com vista para a serra da Estrela e para a campina de Idanha. É estranho ver na televisão com pompa e sangue e espadas o que toda a vida fez parte do nosso roteiro de aconchego.

Se tudo correr bem, vamos conseguir arrastar-te para vires connosco à água gelada da Meimoa. Ou à piscina de Monfortinho. Vais reclamar a início, dizer que estás velho, já não tens saúde para isso. E nós vamos tentar convencer-te. E as tuas netas vão fazer aquele olhar. E nós vamos dizer que te ajudamos, que entre todos não custa nada e as cadeiras até são confortáveis. Cada um vai cumprir o seu papel e vai ficar tudo bem. A mãe fica em casa, não há quem a leve para essas coisas.

Mas no sábado lá estaremos, pai. Ninguém sai. Nesse dia, debaixo da velha laranjeira centenária que já aí estava quando os avós compraram a casa (já sei que foi aí o David e lhe deu uma poda gigante), voltamos a celebrar a maior das bênçãos, que atrai tios e primos e amigos. Damos uma mangueirada no quintal e pomos as mesas para celebrarmos os teus 92.

Os meus pais têm 91 anos, vivem sozinhos, têm a ajuda de uma senhora que vai lá fazer refeições e dar um jeito na casa e todos os verões passam pelo menos um mês e meio na aldeia." Tens ideia do orgulho que temos quando dizemos uma coisa destas? Um misto de gratidão e aplauso à genética, enquanto olhamos para o que vocês construíram, para o que vão deixar e para a família que conseguiram criar. Sim, é verdade que nos outros onze meses temos de nos organizar e dividir entre escalas para saber quem vai contigo a esta consulta e quem vai com a mãe fazer aquele exame – e ela nunca se esquece de dizer: "Não me marque nada para agosto, sr. Doutor, que todos os anos vou um mês inteiro para a minha aldeia enquanto tiver saúde para isso e Deus me deixar."

Sim, em agosto a vida anda mais devagar, vocês regressam às terras de Idanha para aquele mês de intervalo no resto da vida, fechamos o mês com o teu aniversário e depois logo chega o outono no subúrbio da capital.

Sábado cantamos-te os parabéns. A mãe já encomendou o bolo e já nos disse o que não pode faltar. No final, vais tu cantar para nos agradecer. E nós vamos acabar de lágrima no olho por mais um agosto feliz em que regressámos a casa. E eu vou lamentar a pouca sorte dos amigos que não têm uma terra a que possam voltar no verão.

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