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Regar um tapete de flores de lã
Opinião Sociedade 4 min. 18.05.2021

Regar um tapete de flores de lã

Regar um tapete de flores de lã

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 4 min. 18.05.2021

Regar um tapete de flores de lã

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Escrevi uma cena de sexo escaldante sobre o capô de um carro. Não era um carro qualquer, era um Mustang branco titânico a brilhar no asfalto, modelo que dá título à obra. A cena teve tamanho impacto nos leitores que o livro passou a seu referenciado, maliciosamente, como "aquele do capô".

Já me perguntaram por diversas vezes se me baseei numa experiência pessoal para escrever essa passagem. "Não foi o caso", costumo dizer. Às vezes, a tentar ter graça, digo "não foi o caso, infelizmente". Mas o questionamento reiterado, atrevido e até insultuoso, fez-me assumir o excerto como uma experiência biográfica. Da mesma forma, acrescento, que num outro livro matei um homem e também se tratou de uma experiência pessoal colocada em página. O interlocutor tende a arregalar os olhos, antes de sucumbir perante a ironia.

Manoel de Barros tem uma frase lapidar para responder à militante busca de verdades na ficção: "Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira". Não se conhece nenhum escritor que tenho escrito sobre a morte, estando morto. Mas pergunto-me quantas vezes teve de morrer Eugénio de Andrade para escrever: "Neste país/onde se morre de coração inacabado/deixarei apenas rês ou quatro sílabas/de cal viva junto à água".

É interessante pensarmos que a criatividade que está na base de qualquer criação artística é fruto da memória, pessoal e coletiva, logo fruto da biografia. Se considerarmos que a nossa própria biologia evoluiu, tendo em conta eventos sociais – o nosso cérebro não está igual desde a abolição da escravatura ou da igualdade perante a lei – qualquer coisa que um autor crie é fruto de uma biografia de milhares de milhões de anos. Pode parecer estanho, mas o nosso sistema neuronal é mais bondoso agora do que era há cinco séculos. Com mais ou menos consciência disso, estamos mais humanos.

Voltei às memórias de Raul Brandão, reeditadas por causa do aniversário dos 150 anos do nascimento do autor. Brandão é romântico no sentimento e realista na inteligência – isto poderá tender para o pleonasmo, mas não é comum encontrar intelectuais que tenham estas duas dimensões. Ele diz no prólogo de uma das edições, das primeiras, "há em mim várias camadas de mortos, não sei até que profundidade, às vezes sou eu que os convoco outras vezes são eles a mim". 

Se pensarmos nestes mortos como memórias – que é uma forma pouco esperançada de olhar para a nossa biografia -, percebemos que qualquer escritor também é habitado da mesma forma, o que torna a escrita uma invocação de espíritos. É assim que acontece: parte-se para a escrita para ganharmos consciência sobre as nossas assombrações. Para termos consciência de nós, da forma como António Damásio garante que o ser humano deverá ter consciência de si. Para ganharmos braços e pernas e pescoço e cabeça. Como se a escrita nos demarcasse as fronteiras do corpo.

Brandão descreveu com brilhantismo o período tumultuoso do final da monarquia e o início da Primeira República. Houve uma passagem que me impressionou particularmente e que visa a loucura da rainha Maria Pia de Saboia, mãe de Dom Carlos I e avó de Dom Manuel. A senhora passava os dias, no Palácio da Ajuda, a regar um tapete com flores, aguardando que as flores tecidas florescessem.

Olho para este episódio como uma metáfora da forma como, por vezes, a memória – que costuma ser associada a conhecimento, à capacidade de projetar o futuro - nos paralisa e nos leva ao erro. Não se trata apenas de ter um desgosto de amor, ou de terminar uma relação num determinado restaurante e não querer lá voltar porque o espaço nos causa dor; falo de memórias mais complexas, traumáticas, que nos fazem regar um tapete de flores de lã, sabendo que nada cresce a partir de fibras moribundas.

As memórias ligam-se com fios incorpóreos entre si, presas a nós como balões de hélio: conheço o cheiro a humidade e ferrugem das câmaras fúnebres de Ayutthaya e posso compará-lo ao cheiro das fardas do meu pai quando chegava da oficina, ao das pernas das cadeiras da escola primária quando o suor das mãos lhes extraia o odor.

A escrita surge para o autor enquanto consciência de si, enquanto forma de ganhar alteridade em relação a ele próprio e às suas memórias, às suas assombrações. Não me parece um abuso dizer que se trata de um processo terapêutico. A consciência a tocar na consciência, como a nossa mão direita toca na nossa mão esquerda. Como no conto de Borges "O Outro", quando ele se encontra com ele mesmo, mas mais velho. Começamos por escrever sobre o que não sabemos para acabarmos por saber sobre o que escrevemos.


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