Radiografia da imigração: Cabo-verdianos ganham metade do salário dos luxemburgueses
Os cabo-verdianos no Grão-Ducado ganham, em média, dois mil euros por mês, metade da média salarial dos luxemburgueses (quatro mil). Esta é uma das conclusões da mais recente pesquisa do Centro de Estudos e de Formação Intercultural e Social (CEFIS), apresentada esta terça-feira.
Os primeiros cabo-verdianos chegaram ao Luxemburgo na década de 60, antes da independência e diluídos na comunidade portuguesa. Mas a primeira grande vaga migratória só entrou na década seguinte, tendo mesmo levado o Governo luxemburguês e o ministro português dos Negócios Estrangeiros da altura, Rui d’Espiney Patrício, a firmar um acordo, em 1973, para travar a chegada de cabo-verdianos.
Quase 60 anos depois da entrada dos primeiros cabo-verdianos no Grão-Ducado, o estudo do CEFIS intitulado “Diáspora cabo-verdiana no Luxemburgo – panorama sócio-económico, papéis nos movimentos migratórios e solidariedade com o país de origem” é a primeira grande radiografia da imigração cabo-verdiana.
Quantos cabo-verdianos?
O número de residentes cabo-verdianos e descendentes continua a ser o maior problema para as estatísticas. De acordo com o gabinete luxemburguês de estatísticas (Statec), em 2016 havia 2.965 residentes com a nacionalidade cabo-verdiana no país. Mas a embaixada de Cabo Verde conta com 5.467 inscritos e o consulado de Portugal tem registo de 2.334 portugueses nascidos em Cabo Verde.
No último recenseamento da população, de 2011, o Statec contabilizava 8.358 residentes cabo-verdianos e descendentes. Fora das contas estão ainda os estrangeiros de origem cabo-verdiana, sem nacionalidade do arquipélago. A maioria é formada por portugueses que chegaram ao Luxemburgo, sobretudo durante a última grande vaga, empurrados pela crise em Portugal.
Mas há também franceses e holandeses com a mesma origem. Para baralhar as contas, faltam ainda os luxemburgueses de origem cabo-verdiana e os filhos naturalizados. Do que é possível apurar, as autoridades contabilizam entre oito a nove mil cabo-verdianos residentes no país, mas os números poderão estar abaixo da realidade.
16% no desemprego
Outro dos principais indicadores da imigração cabo-verdiana, à parte dos dados apresentados na infografia incluída neste artigo, é a taxa de desemprego: 16,3% entre os cabo-verdianos (dados de 2015), cerca do triplo da média nacional, que ronda 5,7%.
O estudo refere ainda que 61,4% dos cabo-verdianos que chegam ao país fazem-no para fugir ao desemprego e à pobreza no arquipélago. Dos que chegam com a nacionalidade cabo-verdiana, a taxa de atribuição de vistos de curta duração era, em 2015, de 64,8%.
A falta de qualificação e os fracos conhecimentos linguísticos empurram os cabo-verdianos para profissões não qualificadas, com 48% da comunidade a receber o salário mínimo.
Sobre a participação política, estavam inscritos para votar nas últimas eleições comunais de 8 de outubro último 367 cabo-verdianos (22% dos potenciais eleitores da comunidade).
Quanto à idade da comunidade, a média é a mais baixa do país: 31,3 anos, bem abaixo dos luxemburgueses (41,3), dos estrangeiros (35,3) e do total da população (38,7). Os cabo-verdianos têm ainda a maior taxa de jovens menores de 19 anos (28,1%) e a menor percentagem de pessoas com mais de 50 anos (6,4%).
Na altura da reforma, os cabo-verdianos dividem a vida entre os dois países, mas o sentimento de pertença a Cabo Verde é superior ao Luxemburgo. O estudo refere que 51,2% dos imigrantes preferem ser enterrados em Cabo Verde.
Henrique de Burgo
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