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Quer deixar de passar horas nas filas de trânsito? Por que não partilhar o carro?
Sociedade 7 min. 16.01.2020 Do nosso arquivo online

Quer deixar de passar horas nas filas de trânsito? Por que não partilhar o carro?

Quer deixar de passar horas nas filas de trânsito? Por que não partilhar o carro?

Foto: AFP
Sociedade 7 min. 16.01.2020 Do nosso arquivo online

Quer deixar de passar horas nas filas de trânsito? Por que não partilhar o carro?

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A partilha de automóvel pelos trabalhadores é uma das apostas do governo para diminuir o tráfego. E vão ser criadas faixas rodoviárias próprias para estas viaturas. O Ministério da Mobilidade explicou ao Contacto. que autoestradas vão ter estas vias para o 'carpooling'.

Uma hora e meia para percorrer um quilómetro. Foi este o tempo que um condutor demorou para fazer esta curta distância, pelas 6h00 da manhã de uma segunda-feira, na A4 em direção à cidade do Luxemburgo, por causa de um acidente rodoviário. 

O condutor foi um dos trabalhadores transfronteiriços que naquela manhã, como em tantas outras, desesperou nas longas filas que se formam mesmo sem acidentes. Onde milhares de condutores perdem, em geral, mais de uma hora por dia, na ida e no regresso a casa.

Na mesma manhã, outra condutora saiu de casa às 6h45 em Esch-sur-Alzete, para entrar às 8h00 no seu emprego na capital. Mas por causa do mesmo acidente chegou atrasada meia hora.

"Para os habitantes de Metz [França] que trabalham na cidade do Luxemburgo é fácil fazer as contas, oito horas para o trabalho e pelo menos quatro para o percurso entre casa e trabalho", declarou ao L'Quotidien Emmanuel Lebeau, conselheiro municipal de Metz. Outro habitante contava que antigamente demorava "um quarto de hora" para atravessar Differdange, agora são "quarenta minutos".

Os relatos do inferno que se tornou o trânsito no Grão-Ducado são constantes.

O trânsito na cidade do Luxemburgo pode tornar-se um verdadeiro pesadelo nas horas de ponta.
O trânsito na cidade do Luxemburgo pode tornar-se um verdadeiro pesadelo nas horas de ponta.
Foto: Chris Karaba/Luxemburger Wort

Nas filas ou com estrada própria livre

Perante este cenário já preocupante que ainda se tornará pior, o que o leitor preferiria? Estar sozinho no seu automóvel e perder horas do dia entre casa e trabalho, ou partilhar a viatura com mais um ou dois amigos ou familiares, ou ir à boleia com um deles? Ou mesmo ter uma faixa de rodagem própria para 'carpooling' (termo inglês que designa o ato de partilhar o carro) e levar menos tempo nestes percursos diários? A segunda e terceira hipóteses parecem ser as melhores, não é?

A implementação do 'carpooling', 'carsharing' ou 'covoiturage' (em francês), com faixas rodoviárias próprias é uma das medidas previstas no plano de estratégia para a mobilidade do governo luxemburguês, o 'Modu 2.0'. O objetivo é combater o trânsito intenso nas horas de ponta e reduzir as emissões de CO2.

A intenção do governo é passar da "taxa atual de 1,2 pessoas por viatura para um 1,5, o que corresponde a duas pessoas em cada segunda viatura até 2025", declarou ao Contacto Dany Frank, porta-voz do Ministério da Mobilidade.

Esta taxa média de ocupação de 1,5, adiantou, "permitirá não só uma redução significativa do tráfego, mas também a uma redução até um quarto das emissões poluentes emitidas pelos carros particulares".

 Aplicação CoPilote renovada

Uma das medidas lançadas pelo governo para promover o 'carpooling' foi a aplicação móvel CoPilote, para facilitar a ligação entre os aderentes, em 2018. Em novembro de 2019, a aplicação tinha "cerca de 5405 utilizadores inscritos", com uma "média de 1675 trajetos propostos por semana", dados anunciados pelo ministro François Bausch. Números nada famosos pelo que a CoPilote está "numa fase de transição" para outro operador e vai ser relançada.

Contudo, Dani Frank já justificou que no início a aplicação teve muitas inscrições, e que os automobilistas encontraram as suas rotas de partilha e por isso não necessitaram de voltar à aplicação.

Faixas rodoviárias exclusivas para 'carpooling'

Um dos grandes incentivos à adoção deste sistema é a criação de faixas rodoviárias próprias para quem partilha automóvel. Para tal, e a partir do final deste ano, o governo vai começar a construir ou a adaptar faixas nas autoestradas do Luxemburgo com ligação a França, Bélgica e Alemanha, que são percorridas diariamente por transfronteiriços e residentes nos trajetos casa-trabalho. No entanto, só poderão utilizar esta faixa os automóveis que tiverem três ou mais passageiros.

Para quem reside em França é já no final de 2020 que se iniciam as obras de alargamento da A3, com uma faixa para 'carpooling'. Em concreto, vai situar-se entre a "Croix de Gasperich e a fronteira francesa" na autoestrada que liga Luxemburgo a Metz, explicou ao Contacto Dany Frank. A duração das obras é de cinco anos.

Fonte: Ministério da Mobilidade e dos Trabalhos Públicos

Nova faixa na direção da Bélgica e Alemanha

O Luxemburgo acordou com o governo belga a extensão da faixa exclusiva de 'carpooling' na A6, desde Sterpenich, em Arlon, até Stockem, no Grão-Ducado. A construção começa em 2021 devendo a via ser aberta antes de 2023.

Mas o ministério da Mobilidade está a estudar abrir outra via semelhante com ligação à Bélgica, anunciou recentemente o ministro François Bausch numa resposta a uma pergunta parlamentar feita pelo deputado Marc Spautz, do CSV.

Trata-se de um projeto semelhante ao da A6 "que prevê a conversão da faixa de emergência em faixa para 'carpooling' e camionetas na autoestrada A4 entre Foetz e Leudelange", e que "também está a ser estudada", escreve o ministro.

Já a via de 'carpooling' em direção à Alemanha será feita pela A1, que liga Luxemburgo a Trier.

Utlização das vias de emergências

Quer na A6 quer na A1 as faixas que serão utilizadas para a partilha de carro serão as vias de emergência e só funcionarão nas horas de ponta. Os veículos podem usar estas faixas entre as 6h15 e as 9h15 da manhã e entre as 15h e as 19h15, diz Dany Frank. Nestes períodos a velocidade máxima é de 90 km/hora. A sua utilização começa em 2021.


"Tem de haver incentivo económico para as pessoas partilharem o automóvel"
Em entrevista ao Contacto o economista Vicent Hein, da Funcação Idea, explica como pode o governo convencer os trabalhadores a adotarem o 'carpooling', no percurso casa-trabalho. Não é fácil adotar a prática, mas diminuiria as filas de trânsito.

"Não há milagres", diz ministro

Numa entrevista recente ao jornal Le Quotidien, o ministro da Mobilidade declarou que está "nos planos do governo abrir todas as faixas emergência para o 'carpooling'".

François Bausch foi também questionado sobre o problema de coordenação no lado belga, com a faixa para 'carpooling' entre  Arlon e Sterpenich. "O projeto deles já estava em andamento quando pudemos decidir adotar também uma via de 'carpooling'. O problema, do lado do Luxemburgo, é que o nosso eixo da autoestrada possui muitas saídas e entradas. O trabalho é mais extenso. No entanto, continuamos empenhados em completar o projeto até 2023", garantiu o governante na entrevista ao Le Quotidien.

Contudo, François Bausch deixou claro que sabe que não "vai haver milagres" rápidos na resolução do problema do trânsito. "Devo dizer que nunca esperei que a situação melhorasse milagrosamente de um ano para o outro. Mas tenho a certeza que estamos no caminho certo. Finalmente temos uma estratégia para sair desta situação. O plano 'Modu 2.0' prevê que a maioria dos investimentos seja concluído até 2025", disse o ministro.

O ministro dos Transportes François Bausch deixou claro que sabe que não "vai haver milagres" rápidos na resolução do problema do trânsito.
O ministro dos Transportes François Bausch deixou claro que sabe que não "vai haver milagres" rápidos na resolução do problema do trânsito.
Foto: Pierre Matgé

Silêncio sobre os benefícios fiscais

Estará o governo a pensar em dar alguns benefícios fiscais a quem aderir à partilha de automóvel no Luxemburgo, como fazem os compatriotas franceses?

"A vantagem económica de partilhar o carro é óbvia, uma vez que os custos de viagem podem ser partilhados entre os utilizadores", respondeu apenas Dany Frank. De facto, se olharmos só para o combustível, um 'carpooling' com duas pessoas (passageiro e condutor) que percorra uma distância de 31 quilómetros gera uma poupança anual de 558 euros em combustível para condutor e passageiro.

No caso de a viatura levar três pessoas, em igual distância a poupança anual em combustível para cada uma sobe para os 744 euros. Por outro lado, a porta-voz do Ministério da Mobilidade recorda que "conforto e tempo são os fatores mais na escolha de um meio de transporte" e na partilha de automóvel "estes dois fatores estão bem patentes". "Como resultado, pode ver-se que o princípio de partilhar o automóvel é cada vez mais visto como uma alternativa atraente nas viagens de casa para o trabalho", defende Dany Frank.

Numa entrevista que o Contacto fez ao economista Vicent Hein, da Fundação Idea, os benefícios económicos são um factor fundamental para a promoção do 'carpooling' entre os trabalhadores que utilizam o veículo e viajam sozinhos no trajeto trabalho-casa. "Tem de existir um incentivo económico para os trabalhadores aceitarem partilhar o automóvel no percurso diário entre casa e trabalho. Que torne o 'carpooling' realmente mais interessante do que o 'autosolisme'", automobilistas que fazem a viagem entre casa e trabalho sozinhos", declarou Vicent Hein. 


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